Voz do romantismo, Laura Pausini ataca erotismo de Miley Cyrus

Com vinte anos de carreira, a cantora italiana critica a vulgaridade usada pelas artistas pop para se promover, lembrando que a tática é, inclusive, ultrapassada

Laura Pausini (Tim P. Whitby/Getty Images)

Laura Pausini (Tim P. Whitby/Getty Images)

Rafael Costa, na Veja on-line

Vinte anos de carreira, mais de 70 milhões de discos vendidos ao redor do mundo e parcerias com grandes nomes da música como Ray Charles, Ennio Morricone e Charlez Aznavour. Em atividade desde 1993, a cantora italiana Laura Pausini, 39 anos, lança nesta terça-feira, nas lojas de diversos países, o álbum 20 – Greatest Hits, uma coletânea com 38 músicas, divididas em dois discos.

É do alto da sua experiência de mercado que Laura se sente confortável para, em entrevista concedida ao site de VEJA durante a suarecente passagem pelo Brasil, há duas semanas, criticar o comportamento de cantoras que seguem a linha bad girls, como Miley Cyrus e Rihanna. “Não gosto quando Rihanna é vulgar, ela é muito bonita, não precisa ficar mostrando o ‘popozão’ a toda hora”, diz. “Às vezes, lembro mais do clipe do que da canção e, para mim, essa maneira de vender a música é equivocada, especialmente porque ela tem talento.” Sobre Miley, segue no mesmo tom. “Não me interessa que ela esteja nua sobre uma bola de demolição, preferia que o vídeo mostrasse apenas a sua cara e a sua voz, que é linda”, diz sobre o clipe de Wrecking Ball.

No Brasil, apesar de estar menos em evidência hoje do que na época em que foi trilha das novelas da Globo Esperança (2002), com a música Esperanza, e Caras & Bocas (2009), com Invece No, regravada por ela mesma em português com o título Agora Não, as vendas dos discos continuam em altaSeu último álbum de estúdio, Inedito, lançado em 2011, conquistou disco de ouro no país, com mais de 20.000 cópias vendidas.

A nova compilação, Greatest Hits, será lançada tanto em italiano como em espanhol — para o mercado latino — e contará com regravações de sucessos como La Solitudine Strani Amore, além das inéditas RamayaPaolaSe Non Te e Dove Resto Solo Io, além de parcerias com nomes como Kylie Minogue, na também inédita Limpido, e Ivete Sangalo, na canção Le Chose Che Vivi. “Elegi a Ivete porque ela é uma rainha da música pop e eu sou muito fã dela”, diz.

Confira abaixo a entrevista com Laura Pausini:

Você regravou Le Cose che Vivi em parceria com Ivete Sangalo. Por que Ivete? A Ivete é uma rainha da música pop e eu sou muito fã dela, compro os CDs, DVDs, gosto do seu jeito elétrico de ser. Quando penso em alguma pessoa do Brasil, imagino alguém como ela, forte, quente, sensual e sem medo. Com ela, canto uma canção sobre amizade, que escrevi quando era mais jovem, com versos em português e italiano. O processo de gravação foi longo porque a princípio eu pensei em fazer uma divisão diferente do trabalho final. Eu amo as notas graves da Ivete, quando ela canta baixo. Mas, quando enviei o material para que dissesse o que achava, ela falou que preferia fazer uma versão mais alta, que ainda assim ficaria mais baixa que a minha e acabei concordando com ela. Ivete cantou em italiano também, muito bem aliás, e em espanhol. Mal vejo a hora de me apresentar ao vivo com ela.

Cantar em idiomas diferentes é uma receita para o sucesso internacional? Depende muito. Por mim, eu cantaria só em português no Brasil, mas as pessoas da minha gravadora não gostam da ideia, preferem que eu cante em italiano, porque nem sempre cantar no idioma do país onde você está significa uma garantia de sucesso. Evidentemente, é uma honra cantar no idioma do meu país, representar a minha terra. Mas, mesmo assim, gostaria de ter mais músicas em português, como Agora Não, canção que às vezes canto quando estou em turnê. O português é um idioma muito sonoro, pelo qual sou apaixonada.

Na música, parece que o inglês é a língua universal… Sim, especialmente para a nova geração, que é muito interessada na música americana. E o idioma realmente ajuda na divulgação. Mas, às vezes se você for traduzir alguma música famosa em inglês, fica espantado. “Mas do que fala essa gente?” (risos). Eles focam mais no conceito geral da canção. Na Itália, os músicos são mais preocupados com a letra. Lá, acho que parte do sucesso das minhas canções é devido ao que dizem.

Como você vê o atual cenário da música? Você acha que artistas como Miley Cyrus e Rihanna estão apelando mais para a sensualidade do que para a própria música como forma de se promover? As duas têm algo que me agrada muito: a voz. A Rihanna tem uma voz que entra na cabeça da gente e que é difícil de esquecer. Isso é talento, somente. Não gosto quando é vulgar, ela é muito bonita, não precisa ficar mostrando o “popozão” a toda hora. Às vezes, lembro mais do clipe do que da canção e, para mim, essa maneira de vender a música é equivocada, especialmente porque ela tem talento. Algumas artistas precisam se concentrar em outra coisa que não a voz, porque não têm talento. Miley Cyrus saiu agora com Wrecking Ball, que é uma canção muito bonita. Não me interessa que ela esteja completamente nua sobre uma bola de demolição, eu gosto da música, pois vivi algumas coisas que ela canta, sinto o significado das palavras. Pessoalmente, não gosto que ela apareça nua, preferia que o vídeo mostrasse apenas seu rosto e a sua voz, que é linda. O mundo da música é complicado, pois os jovens querem sempre coisas novas, mas o novo de agora não é novo de fato. Faz anos que olhamos seios, traseiros, pernas, vozes, rostos, não existe novidade no que está se fazendo. A grande aposta é que o escândalo pode dar o que falar, e música para mim não é escândalo.​

Por que a música romântica italiana faz tanto sucesso entre os latinos? Não quero saber por quê. Faz vinte anos que eu me pergunto: “Por que as pessoas escutam a minha música e não a de Giorgia Todrani? Por que não a de Elisa Toffoli?”, que são cantoras maravilhosas e não têm a mesma resposta do público. Acredito que é sorte, é Deus, é a coincidência, não sei exatamente o porquê.

Você teve músicas em novelas da Rede Globo. De que forma isso a ajudou a deslanchar no Brasil? A novela é uma grande oportunidade para o cantor divulgar a sua música. Em alguns países da Europa, a nova geração não gosta de novela, na Itália não existe novela como no Brasil, apenas séries de TV.

Como foi feita a seleção das músicas para o Greatest HitsFoi difícil, pois em vinte anos de carreira eu somei cerca de 200 canções. Eu tenho as minhas favoritas, que nem sempre são as mesmas de que as pessoas mais gostam, então fiz uma seleção ampla, que a minha gravadora na Itália vetou, pois a seleção daria quatro CDs e o pacote de Greatest Hits sairia muito caro para o público. Depois de vários cortes, decidi pinçar duas canções de cada disco que viraram singles e juntar duetos com artistas que são meus amigos ou que representaram uma parte importante da minha vida profissional. No fim, são 38 canções e dois CDs.

Você é de fato conhecida por fazer duetos com grandes nomes da música, como Ray Charles e Charles Aznavour. Qual você considera o mais marcante? Marcantes são sempre aqueles que são diferentes do meu estilo, como Ivete Sangalo, Marc Anthony e Andrea Bocelli. Mas o que provavelmente é o maior de todos, que não está no CD pois foi feito ao vivo e não foi registrado, foi com Luciano Pavarotti. Quando ele canta, você é empurrado a 2, 3 quilômetros de distância (risos), pois a voz é muito potente. Quando ele morreu, ficamos com muita saudade, pois foi um grande nome em tudo, uma ótima pessoa.

Com quais outros brasileiros você gostaria de fazer uma parceria? Vários. Marisa Monte, Caetano Veloso, Ed Motta, gosto muito também da voz do Daniel, Ana Carolina, Seu Jorge.

E o Michel Teló? (risos) Ele é conhecido na Itália. No ano passado, eu queria matá-lo. Por muito tempo, eu não dormia, pois martelava na cabeça o refrão, “Ai, se eu te pego / Ai, se eu te pego” (risos). Fala para ele: “Ai, se eu te pego, vou te matar”. Mas escreva aí que gostaria de conhecê-lo para dar um beijo, porque gosto dele.

Em vez de simplesmente compilar os sucessos de sua carreira, o disco duplo tem faixas remasterizadas e até regravadas para a ocasião. Por quê? Fiquei interessada em fazer novas releituras de músicas antigas. Há vinte anos, quando uma coletânea desse tipo saía, era mais bonito juntar as músicas originais, mas hoje você pode conseguir essas versões originais em questão de minutos na internet. Então, achei que seria mais agradável para os fãs e artisticamente interessante para mim propor uma nova sonoridade para as canções mais antigas. E a melhor maneira de fazer isso era convidar pessoas, de diferentes países e de grande excelência musical, para dar outro toque a elas.

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