Sobre se arrepender

arrependimento

Publicado por Paulo Brabo

Há coisas desumanizantes que os outros nos fazem e há coisas desumanizantes que fazemos a nós mesmos. Entre estas últimas coloco a prontidão com que as pessoas – ao menos tantas pessoas – afirmam e demonstram estar arrependidas do que fizeram.

Não falo, bem entendido, de arrepender-se de um procedimento infame ou pouco nobre. Arrepender-se do mal pode ser uma virtude, e talvez não seja mesmo uma virtude rara.

O que me assusta é a facilidade com que pessoas que conheço afirmam arrepender-se não da infâmia, mas de simples decisões: decisões que tiveram consequências trágicas, inesperadas, embaraçosas ou simplesmente não produziram o efeito desejado (ou com a intensidade desejada). Arrependem-se de suas decisões mesmo quando não foram elas o gatilho direto de algum desenvolvimento indesejável das coisas.

É evidente que a vida tantas vezes é dura, e derruba com a rasteira de complicações e reveses, por vezes terríveis, por vezes mortais. Deixar-se afetar pelo tecido áspero da vida é frequentemente apenas outro nome para viver.

Não falo de deixarmo-nos afetar pela aspereza da vida; falo da tendência infantil e infantilizante de lamentar que as decisões tenham consequências, e que as decisões impliquem em riscos.

Olho os grandes caídos e despossuídos do mundo, tombados gravemente como estátuas barrocas em suas sarjetas, e me parecem menos desfigurados que um amigo muito bom moço que lamenta (e tuíta) o Starbucks derramado como se fosse ouro.

Você mudou de cidade para estar perto do seu namorado e agora tudo acabou. Qual é a surpresa? Acredite, endosso e pratico todas as imprudências feitas de coração, mas a única coisa mais imprudente do que agir com imprudência é imaginar que a imprudência não implique em riscos. Se você for arriscar, que seja pelo menos com gosto, com lúcida e exuberante deliberação. “Arrependo-me de ter feito isso (porque agora estou sofrendo)” equivale a professar “quanto eu daria para não ser livre!”

Ou: quanto daríamos para viver livres do embaraço da responsabilidade.

Como em tantas posturas desumanizantes, a tendência a arrepender-se das decisões mais triviais prevalece entre gente religiosa, especialmente entre a maioria que postula uma espiritualidade devocional. Falo de gente que desejaria que Deus ou o universo fossem muito diferentes do que evidentemente são. Gente que gostaria de ser poupada do peso de absolutamente qualquer liberdade e de toda responsabilidade. Que gostaria que Deus lhe desse um sinal muito claro a cada passo a ser tomado, e uma simultânea garantia de sucesso. Que chora formidavelmente quando o bem que faz não é imediatamente premiado ou reconhecido. Gente que nem sempre está disposta a viver com as consequências do mal, mas está frequentemente disposta a arrepender-se do bem que fez, se entende que sua “ingenuidade” em pagar o preço da virtude acabou produzindo o próprio sofrimento.

Gente que, numa palavra, está pronta a arrepender-se de qualquer coisa – até mesmo de amar – se sua presente condição implica em alguma medida de sofrimento. E quando não implica?

É obviamente paradoxal que sejam os religiosos, em especial os cristãos de herança protestante, os grandes campeões do arrependimento diante do sofrimento, porque nada na sua Bíblia credencia essa postura. Nenhum personagem ou narrador dos testamentos, de Adão a João, parece ignorar que é parte da condição humana sofrer reveses, viver com as consequências de erros de julgamento e encarar os resultados por vezes trágicos das contingências e das decisões autônomas. Nem mesmo Jó, que sofreu tanto que pediu para não ter nascido, cedeu à desfiguração do arrependimento de que estou falando. Sua indignação e seu pleito baseiam-se, na verdade, no fato de sofrer sem encontrar absolutamente coisa alguma da qual se arrepender.

O Novo Testamento, que convida sem cessar ao arrependimento dos pecados1, nega qualquer legitimidade ao arrependimento utilitarista e mesquinho que nos faz lamentar decisões ou posturas que acabam gerando adversidade. A verdade é que ninguém, em qualquer posição no espectro da crença, deveria se surpreender por ter de conviver com as consequências da maldade. Porém o cristão é explicitamente alertado a não surpreender-se diante de qualquer adversidade — em particular quando sofre sem ter feito nada de errado, porque essa representou a precisa trajetória e a vocação do seu precursor e mestre.

Jesus não se arrependeu da bondade e não se surpreendeu diante da adversidade mesmo diante do esgotamento do sangue, o seu. Viveu e morreu indicando como deveriam viver e morrer os seus seguidores: carregando até o último suspiro toda a gentileza e nenhuma ilusão.

Em resumo, a Bíblia não ignora o aspecto trágico da vida. Não ignora que decisões tem consequências, até mesmo quando quem as toma é Deus. Não ignora, em especial, os terríveis preços que devem pagar os que escolhem o caminho exigente da gentileza e da genuinidade.

Os ateus e os que não se deixam distrair por promessas que a Bíblia nunca fez são menos propensos a lamentar suas decisões diante da adversidade. Como não esperam condução além da liberdade e freio além da responsabilidade, não se surpreendem quando seus atos produzem consequências. Como não pagam subornos e não esperam tratamento preferencial, não estranham quando nem tudo dá certo. Como não agem esperando recompensa, não se arrependem nem mesmo do bem que cometem.

Identificam-se nisso com o crucificado, que conheceu a perplexidade e o sentimento do abandono, mas não o arrependimento.

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