Feliciano será o relator do projeto de cotas para negros no serviço público em comissão

Deputado é a favor da proposta e pensa em ampliar percentual definido no projeto, de 20% dos cargos para negros

‘Sou descendente de negros’, disse o deputado, que já foi acusado de racismo por declarações sobre africanos serem amaldiçoados

O deputado Pastor Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara (foto: Givaldo Barbosa/ O Globo)

O deputado Pastor Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara (foto: Givaldo Barbosa/ O Globo)

Evandro Éboli, em O Globo

BRASÍLIA – Com caráter de urgência, como quer Dilma Rousseff, o projeto de lei anunciado pela presidente que estabelece cota mínima de 20% para negros no serviço público, será relatado na Comissão de Direitos Humanos pelo presidente do colegiado, Marco Feliciano (PSC-SP). O projeto tramitará, ao mesmo tempo, em outras duas comissões, de Trabalho e de Constituição e Justiça. O deputado, que já foi alvo de polêmica por declarações de suposto ataque aos negros, é a favor da proposta e pensa até em ampliar esse percentual.

Feliciano afirmou que o projeto é meritório e terá parecer favorável. O deputado, no final da tarde desta quarta-feira, foi procurado por assessores da Secretaria de Políticas Para Igualdade Racial, do governo federal, e conversou rapidamente sobre o projeto. O governo não se opõe a indicação de Feliciano.

– Dessa vez, estou junto com o governo. O projeto é meritório e veio em boa hora. Sou descendente de negros, meu pai é negro e minha mãe mestiça. Já viu a foto deles? E conheço essa realidade. Há um atraso social no país. Um atraso de 300 anos, tempo que durou a escravidão. Digo que, dessa vez, o governo socialista da presidente Dilma acertou. Parabéns para ela – disse Feliciano.

O deputado afirmou que deverá ampliar o percentual de cotas prevista no projeto, de 20% das vagas no serviço público para negros.

– A tendência é aumentar. Defendo que essas cotas sejam estendidas aos cargos comissionados dos três poderes.

Sobre a polêmica de meses atrás, quando teria manifestado uma frase de cunho racista, o deputado afirmou que foi mal interpretado.

– Depois que viram a foto dos meus pais, viram que se tratou de uma má interpretação. Descobriram que não era nada. A Seppir veio pedir meu apoio. Disse, quando assumi a comissão, que só me dessem um tempinho.

O deputado será o relator do projeto na comissão atendendo a um pedido da organização não-governamental Educafro, que atua na defesa de cotas e políticas para negros. O Frei David, coordenador da Educafro, se reuniu com Feliciano na semana passada e fez o pedido. O deputado decidiu nesta quarta que vai se nomear o relator do projeto. Frei David defendeu Feliciano.

– A Educafro entende que o tema do negro não é propriedade deste ou daquele partido ou igreja. Todos devem assumir com garra e disponibilidade essa luta. Sou a favor da indicação do deputado Feliciano e pedimos isso a ele – disse Frei David ao GLOBO nesta quarta. A assessoria de Feliciano confirmou que ele vai se indicar como relator do projeto semana que vem.

Ao assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos, no início deste ano, Feliciano teve que explicar frase que publicou em seu Twitter de que uma “maldição acomete o continente africano”. O deputado explicou, depois, que sua intenção foi afirmar que, ao fazer esse comentário, é “como se a humanidade expiasse por um carma, nascido no momento em que Noé amaldiçoou o descendente de Cão e toda sua descendência, representada por Canaã, o mais moço de seus filhos, e que tinha acabado de vê-lo nu”.

O deputado Vicentinho (PT-SP) será o relator do projeto das cotas na Comissão de Trabalho, e na CCJ ainda não está indefinido quem relatará.

Frei David disse ainda que reuniu-se com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), na semana passada. Segundo ele, Alckmin garantiu que estabelecerá cota de 35% das vagas do serviço público paulista para negros e índios. O governador, diz o religioso, ainda prometeu pagar uma espécie de bolsa para candidatos negros em cursinho preparatórios para esses concursos.

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