Não é pornografia, nem vingança: é machismo

Carolina Assis no TransTudo

Querida leitora, querido leitor: você faz sexo? Se você tem mais de 18 anos, eu imagino e espero que sim. E espero que faça bastante, e que seja sexo com muita alegria*. Espero (e recomendo) que você fale sacanagem e exponha os seus desejos, as suas fantasias e as suas vontades aos seus parceiros ou parceiras. E que vocês se satisfaçam e se divirtam muito no processo, e entendam que compartilhar o prazer sexual é uma das coisas mais legais que pessoas adultas podem fazer juntas.

Fran, Julia, Giana e Thamiris fizeram sexo. Se você frequenta os círculos internéticos brasileiros, provavelmente ficou sabendo disso. Elas falaram sacanagem, compartilharam fantasias e registraram a brincadeira em vídeo ou fotos – quem nunca? A onipresença da pornografia e a enorme influência que ela exerce na cultura pop – e em praticamente todo o conteúdo visual que consumimos – acaba modelando nossos desejos e nossa maneira de encarar e de fazer sexo (por isso a necessidade de uma pornografia do bem, como comentamos na Samuel n06). É divertido ser a estrela do seu próprio filme ou ensaio pornográfico. Nem que seja para ver depois e se dar conta de como pode ser ridículo querer reproduzir uma performance pseudo-pornô quando o bom do sexo está justamente na espontaneidade e na autenticidade da coisa.

Pois bem, voltando às moças citadas: nenhuma delas fez sexo sozinha. O curioso é que, enquanto os nomes delas circularam a torto e a direito, as pessoas com quem elas fizeram sexo não foram nomeadas ou consideradas (exceto no caso de Thamiris, que bem fez em dar nome e sobrenome do ex-parceiro). As pessoas com quem elas fizeram sexo eram homens, que depois decidiram expor a intimidade de todas as pessoas envolvidas, divulgando os vídeos e as fotos das mulheres nuas.

“E aí?” A gente pensa. Pessoas ficam nuas, pessoas fazem sexo, e pessoas se filmam e se fotografam fazendo as duas coisas. Ok, talvez nem todas se filmem e se fotografem. Mas quero acreditar que pelo menos o sexo seja uma constante na vida de pessoas adultas. E aí que todas as quatro foram submetidas a um assédio violento e humilhante, por parte de homens e mulheres, que provavelmente não fazem sexo, e, certamente, têm sérios problemas. Problemas que afetam muita gente e que atendem por vários nomes, mas que podem ser resumidos em uma só palavra: machismo.

Machismo: funciona assim. Via Arte Destrutiva

Thamiris conta o que tem vivido nesse corajoso relato. Fran teve que mudar de aparência e parar de trabalhar, e evita sair de casa. Julia, aos 17 anos, e Giana, aos 16, se suicidaram. (“Que desespero viver nesse mundo”, escreveu Clarah Averbuck.) O Fantástico, cheio de boas intenções, produziu uma matéria sobre o assunto, com algumas sugestões sobre como a mulher pode “se proteger” caso decida se filmar fazendo sexo: não revele o rosto, nome ou voz; mantenha, mulher, o vídeo com você, e não o compartilhe com o seu parceiro; e destrua o registro assim que puder. Em nenhum momento a humilhação e a violência a que somente a mulher é submetida nessas situações é questionada. O subtexto é: ai de você, mulher, se o mundo descobrir que você faz e gosta de sexo. Fazer e gostar de sexo é coisa de vadia. Se teu vídeo e fotos se tornarem públicas, você será massacrada, e justamente. A culpa é sua se não tomou as devidas precauções.

Ainda bem que muita gente boa atentou pra isso. O deputado federal Romário (PSB-RJ) é uma delas. Ele apresentou em outubro o projeto de lei 6630/2013 que torna crime a divulgação indevida de material íntimo, e prevê pena de até três anos de detenção para o acusado da divulgação, que também seria “obrigado a indenizar a vítima por todas as despesas decorrentes de mudança de domicílio, de instituição de ensino, tratamentos médicos e psicológicos e perda de emprego”. A lei, infelizmente, não criminaliza o machismo que faz com que mulheres sejam atacadas por fazer e gostar de sexo. Em entrevista, Romário demonstrou estar atento a esse aspecto: “nossa sociedade costuma julgar as mulheres. É como se o sexo denegrisse a honra delas. Os comentários machistas não vêm só dos homens, muitas mulheres criticam as vítimas também. Quando divulgo meu projeto na rede, recebo comentários absurdos apontando a mulher como culpada. Coisas do tipo… ‘se ela se desse o valor, não passaria por isso, que sofra as consequências’ ou ‘mulher direita não se deixa filmar’.”

O projeto de lei do deputado e muitos dos textos sobre os casos citados usam a expressão “pornografia de vingança” ou “pornografia de revanche”, uma tradução do inglês “revenge porn”, para caracterizar os casos em que vídeos e fotos íntimas são divulgadas propositalmente por ex-parceiros. Eu acredito que as palavras são importantes, e insisto: isso não é pornografia. Além disso, na grande maioria dos casos, não há motivo para “vingança” contra a ex-parceira. É, pura e simplesmente, a intenção deliberada de humilhar uma mulher com a velha mas ainda muito viva, danosa, mortal noção de que mulher que gosta de sexo merece ser apedrejada. É machismo – e em breve, espero, crime.

*”Putaria é sexo com alegria, putaria é quase amor.” Catra, Mr., no imperdível “90 dias com Catra“.

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