O poder do toque

Vivemos num mundo de déficit de afetos e parece que todos temos medo de os dar, por receio de os vermos rejeitados, por não entender o seu valor, por não os sabermos dar

Carla Lima no P3

Hanna Alicé / Flickr

Hanna Alicé / Flickr

Desde que me conheço que acredito que pequenos gestos e toques não só fazem a diferença, mas também transportam vida para aqueles que encontramos no nosso caminho. Um abraço, um apertar de mãos, um afago, um olhar repleto de vida, um momento de verdadeira escuta, uma conversa em silêncio são gestos impregnados de comunicação.

Em diferentes momentos do nosso dia-a-dia cruzamo-nos com inúmeras pessoas, ouvimos muitos relatos, observamos comportamentos, e por razões muitas vezes desconhecidas há aquelas que fazem clique, das quais nos aproximamos para falar, para ajudar, para quem esboçamos um sorriso e colocamos serenidade no rosto. Tenho certeza, cada vez mais, que as vidas se cruzam por inúmeras razões, e que temos de aproveitar as paragens e as estações que as compõem, para que não se perca o comboio por escassos segundos, e segundos esses que fazem toda a diferença.

Todos temos maus momentos, em que parece que aquela nuvem cinzenta não sai de cima das nossas cabeças como nas BD, mas ao nosso redor temos tantos motivos para nos alegrar, para marcar a diferença e não aproveitamos. Vejo em gestos simples, como ajudar alguém num supermercado a encontrar algo que não sabe onde está, a dar explicações sobre algo que nos perguntam, em ajudar alguém a atravessar uma estrada, em sorrir ao entrar em qualquer local, ao dar bom dia, boa tarde ou boa noite, em ouvir algumas pessoas que estão de certeza sozinhas na maioria do tempo, momentos de uma força imensa, em que saímos de dentro de nós e interessamo-nos pelo outro, e deste modo marcar a diferença, e provocar o efeito de reflexo, em que passando o bem, sentimo-nos bem.

Ao falar destes momentos inevitavelmente me recordo de algumas pessoas mais idosas, os ternurentos velhinhos, que por vezes andam desorientados e parece que ninguém lhes consegue dar explicações e esclarecimentos, parecem quase invisíveis. Quando se cruzam nas minhas estações da vida paro, ouço, explico e, acima de tudo, aprendo. Ganho tanto nesses momentos, tanta sabedoria, tantas vivências que não são inventadas e por isso carregadas de amor e de bons conselhos. Ganho também umas lágrimas, mas fico de tal forma preenchida que estas só significam felicidade.

Vivemos num mundo de déficcit de afetos e parece que todos temos medo de os dar, por receio de os vermos rejeitados, por não entender o seu valor, por não os sabermos dar.

Tocar alguém é perpetuar momentos no tempo, que farão com que as recordações nos avassalem e nos façam sorrir do nada, melhorando-nos e melhorando quem nos rodeia.

Como refere Marguerite Yorcenar, “o nosso grande erro é tentarmos obter de cada um as virtudes que não tem, e esquecermo-nos das que tem”.

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