As tendências culturais dos anos 2000 adiantadas pelo É o Tchan na década de 90

1 TY3x7-p72jvlUVhh4wPHMgPublicado no Medium

Fui criança na década de 90, então fui exposto a altas doses de desenhos japoneses violentos,usos exagerados de chroma key e calças big. Na produção cultural brasileira, principalmente na musical, os anos 90 são lembrados com um certo pessimismo por especialistas, pois o único respiro de criatividade veio com o grupo Mamonas Assassinas. Uma grande falácia, tendo em vista que, se eles estivessem vivos, teriam um segundo CD tão ruim quanto o P.O.Box ou a boyband Twister.

No entanto, todos se esquecem quem era o verdadeiro dono da cultura na década de 90, cujas músicas embalaram inúmeros momentos e suas atitudes moldavam a moral de toda uma geração. Claro que me refiro ao grupo É o Tchan, com suas letras semioticamente curiosas e uma rotatividade de membros digna de uma periguete de bairro.

Durante boa parte da década citada, o É o Tchan ditou moda, questionou os costumes e adiantou tendências que viriam a se popularizar apenas décadas depois. Reuni algumas delas para tentar fazer jus ao mérito de um grandioso conjunto musical e tentar redimi-lo do atual e injusto ostracismo no qual se encontra.

Reality Shows musicais

Num belo domingo, após ir à padaria comprar pão pela manhã, meu pai voltou com um panfletinho. O papel, com uma foto colorida e texto garrafal, pedia votos para Daniela ganhar a final do concurso da Nova Loira do Tchan. Vocês sabem o que é um concurso televisivo ter uma repercussão tão grande a ponto da transmissão da final ter direito a santinho de candidata a futuro bumbum mais desejado do Brasil?

1 hWJBc8dDVSngrsU2CMddgwMuito antes de American Idol, The X Factor e Dança dos Famosos, os brasileiros já se apegavam às competições musicais nos programas de domingo, torcendo para aquelas bundas como se a vida dependesse disso. Imagine um programa como o Faustão, com um dos intervalos comerciais mais caros da Globo, gastando horas e horas com loiras rebolativas e links ao vivo mostrando multidões nas cidades natais das candidatas torcendo fervorosamente.

E daí que vencer o concurso te colocaria como uma dançarina mal paga no árduo trabalho de rebolar a sua poupança em 100 apresentações mensais? Ser a nova loira do Tchan era uma ambição tão grande quanto ser Paquita da Xuxa, porém havia a possibilidade de se posar para a Playboy sem problemas.

Subcelebridades

Na década de 90 as subcelebridades não existiam,se aparecia na televisão já era celebridade. De Gloria Pires a Luiza Ambiel, todos eram igualmente merecedores de ter um quadro com seus rostos enfeitando o corredor das celebridades brasileiras. Com a chegada da RedeTV e do Ego, as antigas celebridades incapazes de se renovar ganharam um status inferior (atualmente também conhecidas como “possíveis candidatas de A Fazenda”) e tentam um lugar ao sol através de trabalhos os quais não estão capacitadas.

1 yRQ6KZ1Mh1pZ5gjFa1b6FgPorém, o conceito das subcelebridades aparentemente foi patenteado pelo É o Tchan, com suas dançarinas e cantores se desdobrando em trabalhos midiáticos destinados ao fracasso de público. Carla Perez, por exemplo, tentou dar um passo maior que a bunda e foi estrela de um filme autobiográfico (Cinderella Baiana) e de um programa musical no SBT (Canta e Dança, Minha Gente). Sheila Carvalho virou apresentadora de canal local, Jacaré causou constrangimento na Turma do Didi e Sheila Mello virou água corredeira abaixo.

E três integrantes já foram para A Fazenda.

Reinvenção de brinquedos clássicos

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Na década de 2000, a venda de Beyblade bateu recordes absoluto, e toda criança cuja opinião era embasada por desenhos animados de gosto duvidoso queria um daqueles dispositivos animais. Uma beyblade basicamente é o bom e velho pião com algumas firulas para torná-lo mais cool, mas a ideia está longe de ser criativa. Na década de 90 o É o Tchan já revolucionou a indústria dos brinquedos ressuscitando o bambolê. Agora desmontável e com o nome de Bambotchan, as crianças se estapeavam para adquirir um daqueles aros que deslizavam graciosamente na região pélvica das Sheilas. O grupo também apostou em outras brincadeiras, como no reboot da moda da Dança da Cordinha.

Músicas Educativas

Hoje em dia existe um grande mercado fonográfico para cantores ensinando a moral e lições escolares para as crianças, mas tudo não passa de uma macaqueação do método revolucionário do lançamento dos CDs do É o Tchan. A cada disco, o grupo de axé introduzia várias culturas diferentes ao povo brasileiro, contribuindo para a nossa pluralidade. Com as músicas sempre animadas, aprendemos lições valiosas sobre a vegetação do Egito (“Cheguei no oasis, ordinaria, estou todo molhadinho!”), tradições havaianas (“Colar havaino, abadá, pareô, saruniguê, coqueiral”) e até a história de nossa nação (“Enquanto o Cabral samba, Pero Vaz Caminha”). Eu mesmo credito 1/4 da minha nota no vestibular ao estímulo cultural proporcionado pelo É o Tchan.

Resgate de ritmos clássicos com novas roupagens

Alguém com pouco conhecimento musical e muito preconceito com o Brasil deve considerar a cantora Jennifer Lopez uma vanguardista de primeira por ter ressuscitado em 2011 a lambada, tornando-a atrativa para o atual mercado fonográfico internacional. No entanto, o ineditismo dela vai ao chão quando lembramos que em 1999 nosso representante nacional da música popular lançou Lambatchan, apresentando o ritmo às novas gerações através de um gênero confortável aos jovens da época, o axé music.

Participações especiais em músicas de outros grupos

A Britney Spears se acha A inovadora por ter arrastado a idosa da Madonna para um dueto com Me against the music, com direito a um clipe com as duas desesperadamente disputando a atenção dos fãs, um deleite quem admirava as supostas concorrentes. Porém, É o Tchan conseguiu unir muito antes uma rivalidade aproveitada em um clipe musical.

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Quem é daquela época deve se lembrar da rivalidade entre É o Tchan e Companhia do Pagode, semelhante à mesma divisão do mundo entre Socialismo e Capitalismo durante a Guerra Fria, então foi uma surpresa imensa quando os integrantes do Tchan fizeram uma participação no ousado clipe Na Dança do Strip-Tease do grupo rival. Tempos de paz surgiram no Brasil quando os brasileiros pensaram “se os dois grupos podem se unir harmoniosamente, por que eu preciso causar a discórdia?”.

O próprio É o Tchan também inovou promovendo duetos antes inimagináveis dentro de sua própria formação. O clássivo Nega Vá é uma canção cujos vocais são dividos por Beto Jamaica e a ainda inexperiente Carla Perez, em uma lúdica e romântica canção sobre a paixão nos tempos modernos sob o sol de 40º da Bahia.

Concluindo, é bem triste ver que um grupo que ajudou tanto na formação do brasileiro acabou caindo em uma ladeira sem fim de ostracismo por tentar sempre inovar cedo demais. Em 2000 foi o lançamento de É o Tchan.com.br, um álbum cujo sucesso seria certeiro se fosse lançado no fim da década, quando o Orkut e a banda larga se popularizavam pelo país. O mesmo pode ser dito sobre o álbum Funk do Tchan lançado em 2001, adiantando uma moda de quase dez anos depois.

É, É o Tchan, seu pecado foi inovar demais.

dica da Rina Noronha

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