Insisto em procurar amigos

Publicado por Ricardo Gondim

Quando era menino, mamãe nos aconselhava a tomar cuidado com quem nos acompanhávamos. Depois, mais crescido, papai nos repetia o surrado provérbio: Dize-me com quem andas e eu te direi quem és. Passados vários anos, que mais parecem camadas geológicas, não consigo avaliar se consegui obedecer aos dois. Sinto, porém, a urgência de rever a ideia de amigo.

Cheguei à meia idade um tanto decepcionado com o substantivo amizade. Ferido pelo desdém, esfolei os braços, as pernas, o coração. Decepções aprofundaram as rugas da minha cara. Chateado com traições, perdi tufos de cabelo. Reluto, todavia. Tenho medo de mofar no desterro que eu próprio criar. Não quero me trancar, amargurado, em exílios persecutórios. Desejo manter proximidade. Penso em restaurar a fé no verdadeiro companheirismo – tarefa nada fácil para alguém desapontado!

A internet me ajudou a achar um colega (que já não posso chamar de amigo). Tive saudade dele. Redigi uma mensagem cheia de afeto. Na verdade, eu me sentia carente. Numa época de muita fofoca, precisava de um ombro; igual ao doente desesperado, que pede socorro e aperta a campainha no leito da UTI, eu clamava por atenção. Fiquei arrasado. A resposta não podia ser mais horrível (estranho, eu o considerava um irmãozão!). Ele agradeceu o e-mail, mas não hesitou: propôs que daquele dia em diante a gente compartilhasse esboços de sermão. Quase chorei. A última coisa que precisava de um amigo era saber qual o esqueleto da pregação dele no domingo. Embora desiludido com a correspondência breve, teimo em garimpar amigos.

Quero ser amigo de quem valoriza a lealdade. Durante a ditadura, igual a Caim, papai recebeu na testa o estigma de subversivo. Ele nos contava, com lágrimas nos olhos, como ex-colegas da Aeronáutica desciam a calçada para não se verem obrigados a cumprimentá-lo. Guardo essa memória. O trauma dele me ensinou a nunca desejar amizades convenientes. Quando os fundamentalistas me perseguiram e espalharam boatos sobre o que eles consideravam desvios teológicos, vários amigos também desceram a minha calçada. Aquelas dores ganharam força e eu me desencantei. Hoje reconheço: preciso voltar a acreditar que o amigo verdadeiro não é uma espécie em extinção. Quero ter laços com gente  que não se intimida com censuras, nunca retrocede diante da ameaça e jamais abandona no repentino apedrejamento. Amigos não desertam.

Quero ser amigo de quem eu não preciso me proteger; quero, também, que ele não se sinta acuado. Desacredito do companheirismo montado na suspeita. Grandes amigos são vulneráveis; conversam sem cautela; são livres para rasgar a alma, sabendo que confidências e segredos nunca irão para o ventilador da indiscrição. Amigo prefere proteger o outro a defender norma, estatuto e lei.

Quero ser amigo de quem não se melindra com facilidade. Eu me conheço, sei que piso em calos. Agrido com silêncios. Uso a introspecção para aprofundar uma crítica ácida. Às vezes, quanto mais tento, mais me distancio de quem amo. Daí eu precisar de amigos que tolerem algumas agulhadas, várias hesitações e muita bobeira. Dependo de colegas que suportem o baque de minhas inadequações. E que sejam teimosos em me querer bem.

Quero ser amigo e não apenas aliado. Ao longo dos anos, preguei em igrejas em que o pastor, depois da programação, se despediu de mim na calçada do aeroporto e nunca mais tive notícias dele. Nutri amizades de mão única. Hoje, recuso-me a emprestar o nome para conferências ou congressos que só me querem para publicidade. Não reforçarei eventos que objetivam engrandecer pessoas ou instituições. Não perco mais tempo, agora escasso, com religiosos profissionais que mal sabem valorizar vínculos de carinho.

Já não aguento abraços coreografados. Me enfado com manifestações artificiais de coleguismo. Acho ridículo ouvir: somos uma só família em Cristo e depois testemunhar punhaladas venenosas entre irmãos.

Amizades certinhas, alimentadas por pieguismo e textos doce enjoativos com power-point, não me dizem quase nada. Preguiça e descuido se escondem nas entrelinhas dos cartões de aniversário que chegam com frases prontas. Verdadeiros amigos sabem o quanto um sentimento é valioso e como é difícil ser sincero na hora de expressá-lo. Amizades superficiais parecem ser mais danosas do que inimizades explícitas.

Quero ser amigo de quem não sente necessidade de parecer justo demais. Não tolero conviver com quem nunca tropeça nos próprios cadarços. Detesto o moralismo que não admite sequer ter sonhos eróticos. Ando cauteloso com os que se arvoram de ter controle absoluto sobre tudo o que pensam e dizem. Vez por outra preciso relaxar perto de gente espirituosa para rir do passado e sonhar maluquices pro futuro. Também gosto de jogar conversa fora, de conversar trivialidade.

Necessito de amigos que não estranham ouvir a mesma música duas vezes. Como é bom perceber as sutilezas de uma poesia depois que o outro notou o que não vimos –  riso ou lágrima que brota da poesia não tem preço. Desejo reencontrar camaradas e comentar sobre o filme que acabei de assistir. Adoro partilhar trechos do livro que estou lendo. Legal sentar numa roda em que a mesma conversa elogia e espinafra: políticos, pastores, atores. E resolve os problemas do mundo – inclusive do futebol.

Mesmo desacreditando as ideologias, os sistemas econômicos e as instituições religiosas, pretendo terminar os dias sem negligenciar a maior fortuna de um homem: os bons amigos. Eis porque insisto em procurá-los.

Soli Deo Gloria

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Insisto em procurar amigos

1 Comentário

  1. tito monteiro disse:

    Eu tive um amigo,amigo que sabia dos meus gostos literários e compartilhava suas frustrações denominacionais – ele morreu jovem e até hoje não encontrei um igual ou semelhante. Andei com um que eu era seu admirador, andamos juntos por um tempo, convidava para orar comigo e ele vinha ,mas a nossa comunhão era interrompida por alguém que o chamava no celular,até que um dia ele se “livrou” de mim dizendo que não me queria mais como seu ‘amigo de oração’, pois o tempo dele não permitia investir em nossa amizade. Desapontado, estou até hoje tb procurando um amigo que me entenda e que queira andar e comer 100 gramas de sal comigo. Tá difícil de encontrar,mesmo convidando para tomar café em minha casa,eles não vem, e são “amigos virtuais” sem nenhum compromisso, então Gondim continuem procurando ,quem sabe que vai encontrar um neste mundo? O pastor John Maxwell escreveu em um dos seus livros que ele fez uma pesquisa entre pastores que teve o seguinte resultado: 73% disseram que não tinham amigos – e nós não somos diferentes,eu tenho alguns ‘amigos’ fora da igreja,tá?
    tito from brasília,com abraço.

Deixe o seu comentário