A virgindade de Michael Jackson

A tese do jornalista Randall Sullivan revoltou os fãs do Rei do Pop. Mas não é tão absurda quanto parece

Luís Antônio Giron, na Época

Michael Jackson, em março de 2009 (Foto: Tim Whitby/Getty Images)

Michael Jackson, em março de 2009 (Foto: Tim Whitby/Getty Images)

As redes sociais mescladas às redes de fãs-clubes manifestaram no final do ano passado indignação pelo livro Intocável – a estranha vida e a trágica morte de Michael Jackson, do jornalista americano e ex-editor da revista musical Randall Sullivan, agora lançado no Brasil (Companhia das Letras 912 páginas, livro: R$ 54; ebook: R$ 39,90). Isso porque Sullivan afirma que o cantor e compositor Michael Jackson (1958-2009) morreu virgem. Não se trata da tese principal de Sullivan, que narra a vida do Rei do Pop como uma luta de um menino frágil e talentoso para se libertar da família, interesseira e predatória. Outro detalhe que revoltou os fãs (fãs são as criaturas que mais se revoltam por qualquer motivo, fãs se revoltam mais que os povos) foi que Sullivan firmou que Jackson usava cremes de branqueamento, perdeu o nariz por causa das várias plásticas que realizou e sua cabeleira negra artificial ocultava uma particularidade impensável: Michael Jackson morreu calvo. Sua peruca era presa por escassos fios de cabelo branco das têmporas.

42151555A leitura da obra é altamente recomendável, até porque os aspectos escatológicos e sensacionalistas não ofuscam o brilho de uma pesquisa realizada com fontes primárias e pesquisa em arquivos. E é uma história tão bem narrada, que a família de Jackson está processando Sullivan. Biografias não-oficiais implicam trabalho árduo dos autores. Não permitem zonas de conforto. Além de tudo, as biografias não-oficiais são mais divertidas.

O que chama atenção no episódio dos fãs revoltados é a ascensão de uma nova modalidade de tabu: o do repúdio à virgindade. Não o tabu antigo, o da proibição do sexo antes do casamento, que gerava o estigma público à mulher jovem que perdia o hímen, mas sua inversão: o tabu da repulsa ao fato de alguém não fazer sexo. No que concerne a Michael Jackson, o escândalo é duplo: ele não teria morrido virgem e, portanto, não teria sido nem um homossexual ativo nem um pedófilo, apesar de processos que ele perdeu na justiça, movido por pais de jovens que disseram ter sido molestados sexualmente pelo astro.

Mas voltemos à virgindade. Não me parece tão absurda a hipótese de que Michael Jackson tenha vivido como assexuado, mesmo que tenha se casado com Lisa Maria Presley e tido namoricos com atrizes. Sullivan também diz que ele nem mesmo doou o sêmen que gerou seus filhos Paris e Prince. Teria recorrido a doadores que depois revelaram que eram os pais biológicos das crianças. Michael se projetava no personagem infantojuvenil Peter Pan – ele batizou sua propriedade na Califórnia de Terra do Nunca (Neverland), o país de Peter Pan. E há uma estátua de Peter Pan até hoje no local, que pode virar em breve um parque temático. Assim, vida de Michael Jackson teria sido um hino à pureza. Teria sido o protesto de um menino assediado por uma família sedenta de dinheiro.

Para sustentar a veracidade da afirmação de Sullivan, há muitos exemplos de pessoas que talvez tenham morrido sem ter feito sexo, até mesmo artistas do sexo masculino.  O cantor brasileiro Mario Reis (1907-1981) é um deles. Escrevi a biografia desse grande intérprete, mas até hoje não encontrei evidências de que tenha conhecido homem ou mulher, como se dizia antigamente. Quem lançou a hipótese foi o cineasta Julio Bressane (diretor do filme O Mandarim, sobre Mario Reis), que evocou o testemunho do legista de Reis (muito embora o médico tenha me dito que não há como provar que Reis tenha morrido sem ter feito sexo). A teoria da virgindade costuma ser aplicada a homens com sexualidade ambígua, como Reis.

Na literatura, um caso famoso é o do escritor americano Henry James (1843-1916). Ele teria morrido não apenas acreditando que era Napoleão Bonaparte (ele disse isso em cartas) como em odor de santidade. Uma lesão na virilha sofrida na infância lhe teria tirado o desejo sexual. Muitos teóricos literários afirmam que o poeta romântico Álvares de Azevedo (1831-1852) morreu virgem, apesar de seus poemas e contos serem ensopados de carnalidade. É possível, pois a tuberculose o levou muito jovem. E há os artistas que teriam se mantido impolutos até a velhice extrema, como o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw (1856-1950).

Talvez não seja da conta de ninguém vasculhar a intimidade dos ídolos. Por isso mesmo, todo mundo gosta disso. A humanidade chegou a um ponto radical de inversão de valores, que permite considerar a ausência de sexo um fator a ser condenado ou visto com horror. Se, por exemplo, Michael Jackson morreu virgem, esse fato é a prova de que a experiência não conta tanto para a arte, pois suas canções formam uma vasta coleção de menções ao ato amoroso. O estado virginal de Michael Jackson nos levaria a supor que toda a sua obra oculta o martírio da castração. Como Abelardo, o monge medieval que se castrou para tentar evitar o amor a Heloísa, Jackson seria o santo de nossos dias. Merecia a fogueira.

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