Musa punk dos anos 80, Nina Hagen agora berra ensinamentos da Bíblia

Nina Reza é a personagem da música "Linda Garota de Berlim", do Supla / Jim Rakete

Nina Reza é a personagem da música “Linda Garota de Berlim”, do Supla / Jim Rakete

Chico Felitti, na Serafina

“Raaalô!” Ouvir a saudação telefônica de Nina Hagen é música para os ouvidos: deve ser mais fácil falar com a premiê alemã, Angela Merkel, do que com a musa do punk europeu. É a quarta vez em dez dias que ela marca um horário para falar com a Serafina –e a primeira em que o cumpre.

Nas anteriores, a cantora alemã de 58 anos teve “dor de dente”, “imprevisto de família” ou simplesmente não atendeu. Agora, a musa, que dividiu com Supla os vocais de “Garota de Berlim” nos anos 1980, está na linha. Depois de berrar a saudação, pede “uno momentito” para buscar um copo d’água. Volta gargarejando, engole e começa a falar. Não para por uma hora e meia.

Começa elogiando os protestos que tomaram as ruas brasileiras neste ano. “É lindo. Impensável pra Alemanha.” Quem responder que o país, carro-chefe da economia europeia, não tem problemas dignos de piquete leva um grito com timbre de soprano na orelha.

“Mais de 200 mil pessoas são colocadas em hospícios por ano contra a vontade delas no meu país”, explica, séria. Está militando em uma ONG do movimento antimanicomial há três anos.

Não só porque “uma dessas pessoas poderia ser eu”. Mas porque o pai, agnóstico de ascendência judaica, foi capturado e torturado por nazistas. “É a mesma coisa que estamos fazendo com essas pessoas. Nossa família.”

E a cantora é uma pessoa família. Vai passar a virada do ano trabalhando com eles: em um show em formato de cabaré. O repertório que cantará, com a filha e com a mãe, será retirado de textos de Bertolt Brecht, dramaturgo e diretor cujas frases ela gostava de musicar na década de 1980.

Por que fará um Réveillon burlesco, sem guitarras, gritos e cuspe? Porque Nina Hagen não é punk. “Eu não era punk. Nunca fui. Eu era artista. Sou humana, não punk.” Diz que sempre cantou o que viesse: reggae, ópera, música clássica, gospel e cabaré. “A imprensa tentou me colocar num cercadinho punk. Não conseguiu!”

Tampouco logrou restringir a morena (tingida, pois nasceu loira) a manter seus olhos expressivos na Europa. Nina morou nos EUA, no começo da década de 1980. Lá, se apaixonou por Frank Sinatra e por Malibu (“Eu adoro praia!”).

Em 1987, voltou a Berlim e fez um show na rua para celebrar. “Neonazistas me bateram e quebraram meu nariz durante essa apresentação.” Decidiu sair de novo da Alemanha.
“Não era mais o meu país.” Foi morar em Ibiza, ilha na Espanha cercada de baladas por todos os lados.

Depois, foi para Paris, onde teve o filho Otis, e tornou a morar nos EUA. No ano passado, participou de um documentário mostrando a terra do Tio Sam (com direito a cena de compras no Walmart).

No cinema, fez “7 Zwerge” (2004), versão de Branca de Neve em que interpreta a bruxa má. A protagonista da história é vivida por sua filha, que ganhou o nome de Cosma Shiva Hagen, num momento em que Nina pareceu se inspirar em Baby do Brasil.

Apesar de dar à filha um nome de divindade hindu e de dedicar a refeição a Krishna antes de comer, ela foi para a Índia como jesuíta. “Visitei o país com a Bíblia nas mãos.” Lá, conheceu um guru que se dizia a encarnação de Deus. “O anticristo é muito esperto. Não são muitas as pessoas que conseguem se livrar dele.”

Ela foi uma das que escapou. E conta o segredo num livro que lançou em 2012. Não é uma biografia.

“É sobre como encontrei Deus aos 17 anos, quando eu era triste.” A epifania veio puxada por uma dose de LSD. “Era Deus. Era Jesus. E era amor.”

LADY QUEM?!

Seu álbum de 2010 se chama “Personal Jesus”, “sem ironia nenhuma. Nem brincadeira”. O último disco, “Volksbeat”, é declaradamente gospel. Mas não foi o único conduzido pela fé. “Toda a minha música foi influenciada pelo encontro espiritual.”

Então a garota que berrava no palco “Por que tenho que fazer meus deveres de mulher? Quero vomitar!” era uma carola? “Não mudei. Quer dizer, eu mudei em muitos jeitos, mas minha fonte de inspiração é a mesma: Deus.”

Agora, trabalha num disco de rock com músicos da banda de Herman Brood, espécie de Elvis da Holanda -só que viciado em heroína em vez de barbitúricos e que se matou, em 2001, pulando do telhado do hotel Hilton.

Recentemente, Nina foi elogiada por Lady Gaga, maior produto do pop e com quem costuma ser comparada. O que ela acha? “Eu não conheço essa Lady Quem! Ela nunca me mandou um cartão-postal, então não faço ideia de quem seja. Nem quero.” E desliga o telefone, meio brava. Há três anos, Nina disse que Gaga era uma “prostituta a serviço do pop”.

Dois dias depois da entrevista, aparece um e-mail de Nina Hagen na minha caixa de spam. É ela mesma, avisando que voltará a falar com Supla, que definiu seu olhar como febril em “Garota de Berlim”, para um dueto em terras brasileiras. “Me espere que estou chegaaando, Brasil!”. A Bíblia vem na mala.

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