Bandido e rei de mãos dadas

Jesucristo_e_o_bom_ladrao1Ricardo Gondim

Já estava escuro quando o assassino no corredor da morte ouviu vozes. Era uma zombaria. Soldados falavam alto. Pancadas e socos surdos vinham seguidos de provocação. Faça um milagre. Prove que é o Messias. Não está escrito que os anjos estariam ao seu dispor? Vamos ver, então. Mostre que seus exércitos são mais poderosos do que uma centúria”. Pontapés se sucederam. O barulho aumentou. Ensurdecedor. Além da condenação, sua última noite foi em claro.

Mal o dia iluminou as colinas que rodeiam a cidade, o sentenciado bebeu dois dedos d’água. Não demorou e quatro soldados o arrastaram pelos corredores da masmorra. Submetido a sopapos violentos, chegou ao lugar onde seria torturado. Lá, dois outros o esperavam já esmagados pelo meticuloso processo de espancamento que precedia a morte. O bandido supôs que o menos musculoso era o castigado da véspera.

Depois de receber as trinta e nove chicotadas no poste, ele se uniria aos outros. Cumpriria a sina de morrer pendurado numa cruz. A agonia era conhecida. Os estertores da crucificação aterrorizavam o mundo antigo. Agonizaria por dias. Cachorros lamberiam seus pés ensanguentados. Corvos comeriam seus olhos. Incharia. Federia.

Primeiro, obrigavam os condenados a caminhar até o Monte da Caveira, o lugar das execuções. O rito macabro começava com os trôpegos sendo exibidos pelas vielas de Jerusalém – mais tarde conhecidas como Via Dolorosa. Cada um carregava a sua própria trave, o vergão onde seria pendurado. Duzentos metros antes de cruzarem o portão da cidade, um dos ladrões perguntou ao castigado da madrugada. – Quem é você? O outro arfou. Mal conseguiu dizer o nome: – Jesus. A fatiga era extrema. Dois segundos depois, Jesus tomou ar e emendou: – Sou Jesus, de Nazaré.

Fora da cidade, o caminho complicou. A estrada, pavimentada com pedregulhos afiados, cortava os pés. Jesus não suportou e caiu. Ele parecia sem condições de seguir adiante. Os soldados se revezaram nos açoites. Depois de varejarem as costas do Nazareno, a marcha prosseguiu lentamente. Os soldados pareciam nervosos. Queriam encurtar a liturgia sinistra. Uma festa dos judeus se avizinhava e eles, romanos, poderiam descansar no feriado. Crucificar dava trabalho. Ninguém queria estragar o fim de semana.

O outro ladrão, o mais raivoso e obstinado, notou os soldados constrangendo um peregrino de Cirene. Eles colocaram o viajante debaixo da trave de Jesus, obrigando-o a carregar o lenho por ele. O centurião achou necessário fazer aquilo já que ele se mostrava visivelmente abatido, perigando morrer ali mesmo, no meio da rua.

Com a ajuda do estrangeiro, a procissão chegou ao monturo de lixo. Oito verdugos esperavam sentados em grandes rochas. Era homens rudes e se mostravam bem nervosos. Repetiam entre eles que nunca tinham visto condenados demorarem tanto. Rápidos com as marteladas, fixaram os pulsos dos três. Ressoou o barulho das estacas quando despencaram nos buracos recém cavados. Com cordas, levantaram os homens pregados nas traves. Os corpos pesavam. As mãos se esgarçaram rapidamente. Os dois ladrões falavam. Um, revoltado, parecia dizer palavrões. Apenas Jesus permanecia calado. Não restava mais nenhuma esperança. O fim estava selado.

A cena ganhou peculiaridades grotescas. Inclemente. O cheiro podre do lixo se misturava ao cenário e algumas pessoas, que assistiam, vomitaram. Os três corpos tremiam com espasmos involuntários. Sangue vazou das incontáveis feridas abertas por chicotes, tapas e chutes. Cordas amarradas aos pulsos deixaram a ponta dos dedos roxos. Os olhos dos três se embaçaram – mal se moviam nas órbitas semi cerradas pelo inchaço.

Uma pequena multidão gritava sem parar. Mas ninguém entendia direito o que a turba dizia. Choro, raiva e consternação, típicos do frenesi irracional, aumentavam a sensação de que aquele dia se tornaria exemplo mais exuberante da bestialidade humana.

Soube-se depois que um dos apenados se chamava Dimas; preso em flagrante, um assassino confesso.

A algazarra entre o povo fazia com que a sentença parecesse um linchamento. Alguns chegaram a apostar em quem morreria primeiro. Outros aproveitavam para repetir: César é rei benevolente. Outros reclamavam: A glória de Israel está em mãos estrangeiras. Na confusão, Dimas conseguiu fazer um último pedido: – Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino.

Passados séculos, a pergunta não perde força, não perde significado: O que Dimas viu para acreditar que Jesus era rei? Como ele conseguiu enxergar em um bagaço humano, traços de um imperador? Quando entrares em teu reino? Os monarcas se estabelecem devido ao poder, e neles reside a autoridade de comandar. O Nazareno estava reduzido a um caco. Como assim, No teu reino? Caso fosse rei de verdade, por que se tornou refém de uma soldadesca ordinária? O homicida delirava? Por que considerou o moribundo líder de algum reino?

Dimas percebeu algo extraordinário. Jesus era rei, mas de outra espécie. Destituído da ostentação que os soberanos desfrutam, Jesus impressionou seu companheiro de adversidade. Ele tinha uma grandeza diferente. Durante toda a tortura que antecedeu a crucificação, Dimas notou que Jesus nunca apelou para intervenção sobrenatural; jamais implorou por salvamento, nem precisou vingar a mensagem que pregou com demonstração de poder. A elegância de não revidar, somada à grandeza de perdoar, junto com a consciência de ser pacificador apesar do ódio, faziam dele um rei digno de ser seguido. O ladrão, que ficaria conhecido como o bom-ladrão, estava convicto: o Nazareno lidera um reino único.

Pensou: quem age como Jesus agiu na tribulação será sempre rei. Vale mais o reinado desse pobre condenado do que a glória dos imperadores. Não importa se entre crianças, perto dos mansos, junto dos que choram ou na vida de proscritos, ele é Senhor. Com certeza, Jesus nunca me rejeitaria. Dimas ousou participar dos seus domínios: Onde este homem estiver paz e justiça se beijam. Seu exemplo inspira respeito pelas cãs do ancião, gera fome e sede de justiça e amor pela vida. Ele viu em meio a muito sofrimento: O reino que Jesus inaugurou não terá fim; mesmo que me sobrem meros dois minutos de vida, desejo participar dele. Antes de expirar, Dimas escutou: Hoje, estarás comigo no paraíso.

Minutos depois, bandido e rei partiram de mãos dadas.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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