Nas UPPs, uma geração em busca do tempo perdido

UPP do São Carlos é uma das 36 na cidade do Rio Agência O Globo / Luiz Ackermann

UPP do São Carlos é uma das 36 na cidade do Rio Agência O Globo / Luiz Ackermann

Ludmilla de Lima em O Globo

RIO – Eles são a geração UPP, mas ainda não deixaram de ser “Nem-Nem”. Mais de um quarto dos jovens de favelas pacificadas do Rio — entre 15 e 29 anos — nem estuda nem trabalha. E, à medida que a idade avança, a situação piora. Entre os que têm de 18 a 29 anos, esse total pula para 34%, como mostra a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) na pesquisa “Somos os jovens das UPPs”. No levantamento, foram entrevistados 1.652 moradores (de 15 a 29 anos), de junho a novembro deste ano, das comunidades de Vidigal; Coroa, Fallet e Fogueteiro (do complexo do Cosme Velho), Prazeres e Escondidinho (em Santa Teresa); São Carlos; Manguinhos e Mangueira.

Como foi dividida em faixas etárias, a pesquisa revela uma trajetória comum a muitos moradores de favelas: a dos adolescentes que não conseguem manter um vínculo com a escola e, sem formação adequada nem projeto de carreira, acabam não se firmando no mercado de trabalho. Há casos também em que, no meio do caminho, eles abrem mão da vida escolar e da possibilidade de uma profissão por causa da chegada precoce de um filho. A Firjan constatou que as meninas formam a maioria da geração “Nem-Nem”, como já identificara o IBGE: 36% de todas as entrevistadas não têm emprego nem estão nos bancos escolares, enquanto o percentual de garotos que se encaixam nesse perfil é de 16%.

Grande parte das jovens mulheres (48%) que interromperam os estudos alega que o motivo foi o nascimento de um filho. No caso dos meninos, apenas 5,2% dão a mesma justificativa. Eles dizem ter deixado a escola, principalmente, por ter decidido trabalhar (48,5%). Já para elas, o trabalho aparece em segundo lugar (com 24,1%) entre as razões.

Moradora do Cantagalo, Ana Cristina de Jesus é um caso clássico de adolescente que engravidou e acabou trocando o caderno e os livros pelas fraldas e mamadeiras. Aos 26 anos e mãe de quatro meninas, ela tenta recuperar o tempo perdido e concluir o ensino médio.

— Quando tive meu primeiro filho precisei parar de estudar. Eu era muito nova, tinha 13 anos, e ela nasceu prematura. Preferi não deixar a neném aos cuidados de outras pessoas, mesmo sendo da família. Eu gostava de estudar, tirava notas boas, tinha passado para a 6ª série. Depois tive outra filha e fiquei um bom tempo sem estudar — lembra Ana Cristina, que só pôde terminar o ensino fundamental aos 21 anos, após a terceira filha.

Agora com a quarta filha, de 2 anos, ela resolveu voltar para os bancos escolares porque hoje, reconhece, qualquer emprego exige o ensino médio. Ana Cristina ainda faz um curso particular para auxiliar de dentista. Sem emprego formal, ela trabalha por conta própria, a domicílio, como manicure e depiladora.

Educação e emprego como objetos de desejo

A gerente de pesquisas do Sistema Firjan, Hilda Alves, diz que a pesquisa ajuda a explicar a dificuldade de moradores de favela com o mercado de trabalho, diretamente relacionada à trajetória instável no campo da educação.

— Aos 15 anos, esses jovens estão estudando, mas já pararam algumas vezes ou repetiram de ano. Há dificuldades para levar a escola adiante — afirma Hilda.

A evasão escolar detectada não significa que os jovens dessas comunidades tenham total desinteresse pelo aprendizado. O discurso é favorável à escola, o que é provado em números: 94% valorizam a conclusão do ensino médio, 74% dizem que a chegada a essa etapa representa mais conhecimento e 41% acreditam que o colégio prepara para o trabalho. Por outro lado, 51% sentem a falta de um curso profissionalizante. Fazer uma faculdade é um sonho de 49%.

Apesar do retrato preocupante mostrado pela Firjan, também há avanços. Em comparação com o histórico escolar dos pais, os jovens pesquisados mostram que foram além da geração anterior. A parcela de maiores de 21 anos com ensino médio completo é de 48%, enquanto somente 14% dos pais e 16% da mães chegaram até lá. Outro dado otimista é em relação aos que conseguiram entrar para a faculdade: se apenas 3% dos pais pisaram numa universidade, 12% dos entrevistados maiores de 21 anos conquistaram uma vaga no ensino superior.

84% esperam ganhos maiores

Ana Cristina de Jesus é uma que pode dizer que avançou em relação aos pais. A mãe é analfabeta e o pai foi até a 3ª série. Dividindo-se entre marido, quatro filhas, o trabalho e os estudos, a moradora do Cantagalo imagina um futuro melhor:

— Ainda não parei para pensar no que vou fazer. Posso fazer uma faculdade na área odontológica, que gosto muito. Obstáculos sempre existirão em tudo, mas basta querer. Tenho muita força de vontade e acredito que o ensino é importante.

As ideias dela refletem o clima geral de esperança entre os jovens. Nada menos que 84% têm expectativas de uma vida melhor do que a de seus pais.

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