O espírito natalino que não canta ‘Jingle Bells’

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Por Julio Maria, no Estadão

O Natal feliz do AC/DC tem três mulheres que só chegam à noite, vestidas de vermelho, tocando sinos e incendiando os solos da guitarra de Angus Young. O de Eric Clapton tem uma só, menos objeto, mais sensível, que resolve partir pela noite chuvosa antes mesmo da entrega dos presentes, deixando uma dor que faz suas cordas arderem de solidão. BB King está bem melhor. Sua Christmas Baby lhe cobriu de beijos e colocou um anel de diamantes em seu dedo dias antes da ceia. Ele canta e sola como se o mundo pudesse acabar ali mesmo, naquele 25 de dezembro de algum ano em que todos eram jovens.

Quando todos eram jovens e Simone ainda não havia nascido no calendário cristão, o Natal vinha com peru e boa música. Ainda é assim, sobretudo nos Estados Unidos, onde os artistas jamais sentiram vergonha de receberem o espírito natalino. Frank Sinatra, Tony Bennet, Jackson Five, Rod Stewart, Elvis Presley, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Harry Connick Jr, U2, Diana Krall, o próprio BB King – todos lançaram, ou permitiram que suas gravadoras lançassem, discos pensados especialmente para a data. A discografia do blues, do jazz e do rock and roll é generosamente inspirada por uma festa que, no Brasil, jamais rendeu nada além de canções folclóricas e anacrônicas.

Natal por lá é Please, Come Home For Christmas, que o pianista Charles Brown lançou em 1960, meio blues, meio rock, adotada como um hino para seu País. Uma canção com força para ser regravada por mais de 60 artistas, incluindo as versões consideradas definitivas do Eagles e do demônio albino das seis cordas do blues texano chamado Johnny Wynter. Natal por lá é Happy Christmas, o hino pacifista anti guerra do Vietnã que John Lennon lançou em 1971 com sua Plastic Ono Band. Uma canção com força o suficiente para fazer com que todos se esquecessem da existência de Yoko Ono, que ainda ardia na fogueira alimentada pelo fim dos Beatles.

Aos que confundem Charlie Brown com James Brown, o soulman, nenhum problema. James também fez seu fogo de artifício para ser disparado em noites natalinas quando gravou Soulful Christmas. Nada de tiradas espirituosas ou hinos dobrando. Nada de corais infantis do Harlem louvando o nascimento do menino Jesus. Brown enfiou foi uma linha de walking bass, o baixo caminhante de Bootsy Collins, no groove recortado pela caixa do batera Clyde Stubblefield, chamou os metais para a briga e cantou seu Jingle Bells de bordel: “Feliz Natal, feliz Ano Novo / Quero que você seja feliz / Eu te amo / James Brown te ama / Sua sorte é grande / Estou sentindo sua falta…” E por aí vai em sua abordagem sexual natalina.

Natal por lá rende um cascalho a mais que pode ajudar povos em apuros no mundo com um Papai Noel sem barba chamado Bono. Pois seu U2 cantou em 2008 I Believe in Father Christmas (Eu Acredito no Papai Noel) para pedir contribuições pela internet a uma campanha que combate a AIDS no continente africano. Música de Natal em contexto mais apropriado, impossível.

Os ingleses levam a data tão a sério que os Beatles, mesmo depois de já serem os Beatles, passaram um tempo gravando mensagens de amor e prosperidade e canções inéditas para serem tocadas em dezembro. Uma delas, Christmas Time is Here Again, de 1965, só veio à tona em 1995, quando foi lançado o álbum Free as a Bird.

Natal por aqui começa com Simone. Não é culpa da baiana que a versão 25 de Março deHappy Christmas esteja alojada sob sua epiderme desde 1995 (em um ano serão 20 Natais com a mesma trilha). Então é Natal parece ter engolido seus 50 anos de carreira, mesmo tendo ela voz e substância para ser mais que isso.

Natal por aqui é Noite Feliz, versão de uma canção austríaca de 1818, gravada em 45 idiomas, e outro reflexo do hábito regional de se hastear bobagens em patrimônios da humanidade. Por aqui, Noite Feliz foi gravada por Patricia Marx, Sandy & Junior, Xuxa Meneghel e pela cantora gospel Aline Barros.

Houve uma vez por aqui, talvez a única, em que um trenó surgiu nos céus do Brasil, conduzido por uns garotos punks de Mauá, vindos do ABC paulista. Chegavam com sangue nos olhos para derrubar o capitalismo selvagem. O anti-Natal dos Garotos Podres deixou o que talvez seja a segunda música mais lembrada na discografia natalina nacional, depois de Simone, claro. O título da canção original era Papai Noel F.D.P (se hoje o jornal não pode escrever o termo, imagine em 1984). Para não serem pegos pela censura, mudaram para Papai Noel Velho Batuta, mas não aliviaram a vida do velhinho: “Papai Noel, velho batuta / Rejeita os miseráveis / Eu quero matá-lo / Aquele porco capitalista / Presenteia os ricos / E cospe nos pobres.”

A alta patente da MPB quer mais é distância do espírito natalino. Nada consta nos top 10, 20 ou 30 de Gil, Caetano, Djavan, Chico Buarque ou Milton Nascimento que esbarre em um trenó. Por outro lado, mesmo sem cantar uma grande canção natalina, Roberto Carlos virou ele próprio uma música de Natal. Há 40 anos faz o mesmo especial na Globo para ser servido com chester no final de dezembro.

Explicações ainda são chutes quando se tenta entender o fenômeno: afinal, o que faz com que duas culturas musicais tão ricas se comportem de formas tão antagônicas diante do espírito natalino? Se o Natal existe para espalhar o amor ao próximo, o que o faz ser rejeitado por artistas que sustentam suas carreiras justamente com canções de amor? Talvez, amor ao próximo por aqui não seja um tema tão inspirador.

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