De Shai Linne a Switchfoot: existe uma arte cristã?

switchfoot_640x400“O cristão é alguém cuja imaginação deve voar além das estrelas” (Francis Schaeffer)

Nivea Lazaro, no Novos Diálogos

Imagine a seguinte situação: você acaba de chegar em casa após um dia cansativo de trabalho. Abre a geladeira, pega uma água gelada e, mesmo antes de jantar, liga o som. O que você vai ouvir? O que gostaria de ouvir? Nessa e em tantas outras cenas de nossas vidas, a música está presente. Mas agora, quero não segmentar, mas aproveitar as distinções que já existem em pensar no que seria uma “música cristã” (se é que há uma “música cristã”, por assim dizer).

Uma das inspirações para este artigo foi a fala de Shai Linne sobre “como os cristãos devem se relacionar com as artes”. Para Shai Linne, há uma arte da Igreja e uma arte para a Igreja. Arte da Igreja por se tratar de uma arte que seria proveniente do meio cristão, sendo que seu público alvo não seria necessariamente cristão. Uma arte para romper paredes e portas. A arte para Igreja já seria algo incluído na liturgia do culto ou uma arte cujo público alvo é da Igreja, ou seja, cristão.

Atualmente, o que temos em termos de mercado quando se refere à fé cristã é o rótulo de “música gospel” e vejo também despontando um novo, chamado “música cristã contemporânea”. O primeiro já é bem conhecido e divulgado. Vemos nos programas de TV e ouvimos nas rádios cristãs. O segundo trata-se de uma música da e para a Igreja cujos estilos musicais diferem muito do mainstream gospel. A MCC vem com estilos mais brasileiros e menos óbvios. Um ponto a ressaltar, “música gospel” tornou-se uma segmentação de mercado encarada por cristãos e não cristãos. Já a MCC, trata-se de uma marca nova que faz frente, por enquanto, somente no meio evangélico.

Mas onde entra Shai Linne com a música gospel, a MCC e o que acontece com nossos artistas?

Esta não é uma pergunta fácil de responder, por isso vou arriscar dizendo que sobre o assunto só posso registrar minhas impressões e reflexões.

Ao pensar nessa questão, lembro-me de uma banda que conheci recentemente: Switchfoot. Switchfoot não canta “músicas cristãs”, ainda que seus membros sejam cristãos. Em entrevista, o líder da banda responde por que não canta “músicas cristãs”. Na resposta, ele recorre a C.S.Lewis and Tolkien sobre o conteúdo “cristão” de suas obras. De fato, mesmo em Lewis com ricas alegorias e metáforas claramente ligadas ao evangelho, não há uso de expressões que aludam diretamente à Bíblia. Os dois, inclusive, usam muito do imaginário mitológico de suas culturas.

O que seria de Lewis e Tolkien se tentássemos encaixá-los em um termo como “literatura cristã”? Como teriam se sentido se tivessem de criar com as cartas do jogo já dadas, postas como únicas opções possíveis para usarem sua imaginação? O mesmo se aplica à música, à fotografia, ao cinema…

Arte, como escreveu Rookmaaker, não precisa de justificação. A arte, em princípio, fala do que é próprio do homem, de suas experiências. Por isso, um compositor, consequentemente, vai compor dentro de seu repertório de conhecimento.
A questão, como se vê pelo processo de criação, vai além dos rótulos do mercado musical. Estamos falando de processos criativos aos quais não nos cabem definir como ou com quais elementos devem acontecer (que é o que o mercado acaba fazendo com alguns artistas).

A pergunta a ser feita é: existe uma “música cristã”? Em termos mercadológicos, acredito que sim. Mas concretamente, não. Um artista cria. É o que ele faz. Se entendêssemos o quão criativo é nosso próprio Criador, entenderíamos que acrescentar mais amarras ao processo só nos afastaria mais do que Deus mesmo propôs em termos de arte. Olhemos sua criação, os salmos e a construção da arca (pra não citar outros exemplos).

O que existe é o artista cristão, o músico cristão. Este pode cantar tanto sobre a beleza da santidade de seu Criador quanto sobre a saudade de sua terra (novamente, como ilustram tantos salmos), sobre suas insatisfações, suas alegrias, enfim o que lhe é próprio. O importante aqui é saber, como está escrito em Lucas, que “o homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca.” (Lucas 6.45, grifo meu).

Inspiração:
“Um Precursor”: http://umprecursor.wordpress.com/2013/12/07/porque-switchfoot-nao-canta-musicas-cristas/
Switchfoot – ”This is home”: http://www.youtube.com/watch?v=N0ykm1v9xbU
“Shai Linne: como os cristãos deve se relacionar às artes?”: http://www.youtube.com/watch?v=sCgFsVaHJFg

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for De Shai Linne a Switchfoot: existe uma arte cristã?

Deixe o seu comentário