Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar

Capa_ChegueiBemATempo_3DMarlos Ferreira, no Underdot

O novo livro do jornalista Ricardo Alexandre, “Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar” (Arquipélago Editorial, 2013, 256 pgs, R$34,90), me acertou em cheio. Gosto muito de ler sobre música de maneira geral, não somente sobre rock (aliás, meu livro preferido sobre música é “Chega de Saudade”, de Ruy Castro, sobre Bossa Nova), mas no alto dos meus 35 anos este livro em especial aborda exatamente o período da formação do meu gosto musical, e por consequência disso, a própria formação da minha personalidade como adolescente e depois jovem/adulto, sem exageros.

Ricardo trata muito bem do período de ascensão e queda da indústria fonográfica brasileira. De como os milhões de discos vendidos se tornaram milhões de discos pirateados (e também vendidos, porque não?). Um período do qual minha geração sente saudade, pois especialmente nos anos 90 você ligava o rádio e ouvia Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden, Raimundos, U2, Oasis, Alice In Chains, Guns N’ Roses etc, porém Ricardo trata de quebrar um pouco esse romantismo e nos lembrar que no biênio 95-96 fomos infernizados por “Pimpolho”, do Art Popular, “Florentina”, de Tiririca, “Na Boquinha da garrafa”, da Companhia do Pagode, “Xô Satanás”, do Asa de Águia” e “Dança da cordinha” do É o Tchan.

Desde a construção da carreira do Skank, às expectativas frustradas (e hoje supervalorizadas) de Chico Science, do surgimento do Planet Hemp, Raimundos e O Rappa (e seu idealismo barato), à luta pela sobrevivência das bandas de médio porte em um mercado alternativo dentro de um estilo que nunca foi realmente de massa no Brasil, da explosão dos Mamonas Assassinas à reclusão dos Racionais MC’s, das características locais das cenas de Recife e Porto Alegre, ao surgimento dos festivais independentes em vários estados, do momento em que o Brasil se tornou a bola da vez para todas as grandes gravadoras multinacionais ao momento em que todo mundo se tornou independente, Ricardo vai documentando tudo com os olhos de quem viu por dentro, mesmo sentindo-se um estranho em diversas ocasiões. Dentro de estúdios, de escritórios de gravadoras, de redações de jornais e revistas de música, de bastidores de shows e festivais.

A importância da MTV em seus primeiros anos, os altos e baixos do

O jornalista Ricardo Alexandre

O jornalista Ricardo Alexandre

mercado fonográfico brasileiro, as estratégias das gravadoras, o jabá pago que as rádios toquem determinados artistas, a quebradeira das lojas de discos que começou justamente no momento de superaquecimento das vendas de CDs no Brasil, o impacto do surgimento da internet tanto para os artistas quanto para a imprensa e, principalmente, para as gravadoras, em capítulos curtos Ricardo nos apresenta vários recortes que se completam, ao mesmo tempo vai revelando os dilemas e motivações da construção da sua própria carreira como jornalista.

Todos os textos já haviam sido publicados anteriormente no blog do autor, mas juntos eles ganham mais coesão, mais sentido. Na medida em que avançamos os capítulos um tom de melancolia vai tomando conta. O rock vai perdendo sua importância e espaço, devorado pela extrema popularização que é o aparelho de respiração que ainda mantém a indústria fonográfica, a música torna-se apenas uma forma a mais de entretenimento. Com este esvaziamento de ideologias, não somente o mercado fonográfico sente o baque, mas toda uma indústria editorial vai tristemente se desmanchando, a MTV vai se descaracterizando, rádios-rock Brasil afora vão fechando (ou mudando seu público-alvo) revistas especializadas e cadernos dedicados à cultura pop vão sumindo das bancas e dos jornais, e este processo está documentado no livro. Várias páginas são dedicadas às idas e vindas da revista Bizz, da qual fui leitor, colecionador e da qual até hoje guardo alguns exemplares históricos.

Dois capítulos em especial tratam da relação do autor com o mercado gospel, e, porque não, da sua fé Cristã. Um episódio envolvendo a banda Catedral onde uma manchete mal intencionada causou dor de cabeça à banda e apresentou a Ricardo o mercado gospel, suas regras e sua hipocrisia, e um (no melhor capítulo do livro em minha opinião) a respeito de Rodolfo Abrantes, sua ruptura com os Raimundos, tudo que ele abriu mão, sua tentativa de falar com o público religioso e secular ao mesmo tempo, e a posterior guinada de Rodolfo para dentro da igreja.

Ricardo registra o último momento em que duas canções representativas e legítimas do rock fazem sucesso realmente grande no Brasil: Mulher de Fases (Raimundos) e Anna Julia (Los Hermanos) e lá se vão 14 anos. Para ser historicamente correto, Ricardo cita casos mais recentes como CPM22 e NXZero dentro de sua devida importância, ou seja, nenhuma, e guarda uma ponta de carinho e esperança para a baiana Pitty.

Está bem claro que o livro é apenas um parêntese, não trata da música brasileira como um todo, nem faz muitas referências ao passado (a década de 80 já está muito bem documentada em outro livro do mesmo autor: Dias de Luta), além do subtítulo (50 causos e memórias do rock brasileiro (1993-2008)), em algumas passagens do livro explicam a concentração do autor no rock e num período específico, ainda assim há omissões importantes, principalmente o Sepultura, e em certa altura do livro Ricardo concentra-se nas perturbadas relações da imprensa musical com o mercado editorial, o que pode interessar a (e colocar uma pulga atrás da orelha de) quem ainda pense em estudar Jornalismo, mas interessa menos ao fã de música. Porém, ajuda muito a entender os caminhos e descaminhos que este estilo percorreu no Brasil nas últimas décadas, e porque ele, após um considerável brilho nos anos 80 tenha se apagado quase que totalmente nos anos 2000. Onde foi que o rock brasileiro se perdeu? A resposta é: ele nunca se achou.

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