Fahrenheit 451 e o rolezinho

Geovane Moraes, no Facebookfah

Assistindo às reportagens deste final de semana sobre o combate empreendido ao “Rolezinho”e as repercussões que estas reportagens geraram nas redes sociais, automaticamente me lembrei de uma obra magistral, de autoria do escritor norte-americano Ray Bradbury, falecido em 2012, intitulada Fahrenheit 451.

Nela, Bradbury descreve um estado totalitário de um futuro próximo, onde toda forma de leitura é proibida e os bombeiros possuem por missão principal encontrar e queimar livros, de preferência às vistas de todos. Inclusive, o título refere-se à temperatura em que o papel incendeia e começa a queimar. As informações chegam até a população através da televisão e são criadas de forma a evitar qualquer tipo de reflexão ou questionamento.

Em um dos diálogos do livro, o Capitão que comanda a guarnição dos bombeiros em que trabalha o personagem Montag, o chama e pergunta o que ele faz no seu dia de folga.

Montag responde: “Nada de mais meu capitão. Corto a grama”.

O capitão indaga: “E se a lei o proibir?”

– “Vejo-a crescer, meu capitão”

Esta semana, um determinado centro de compras de produtos de luxo em São Paulo, obteve uma liminar que o autorizava, dentre outras coisas, a fazer uma triagem prévia nas suas entradas e selecionar os jovens que poderiam entrar ou não, mediante pretexto de tentar evitar a realização de um “rolezinho”, marcado para acontecer no sábado próximo passado e denominado de ROLEVAUM NO SHOPPIM”(SIC).

Para quem nunca ouviu falar no “rolezinho”, trata-se de um movimento articulado através das redes sociais (notadamente o Facebook) por jovens, na sua maioria, residentes em áreas de periferia dos grandes centros urbanos, que marcam para se encontrar na praça de alimentação de grandes estabelecimentos de compras. Alguns destes encontros chegaram a reunir mais de mil pessoas.

Grande parte destes jovens pertencem à famílias cuja renda mensal não ultrapassa a faixa de dois salários-mínimos e residem em áreas que possuem pouca ou nenhuma estrutura urbana para oferecer opções de lazer. Pelas fotos divulgadas na internet pelos próprios participantes, pode-se perceber que, em regra, trajam roupas simples, normalmente falsificações grosseiras de marcas conhecidas e, quando muito, consomem um lanche no McDonald’s.

No último final de semana, ao chegarem no local marcado em São Paulo, depararam-se com uma barreira de policias e seguranças fazendo a triagem de quem podia ou não entrar no centro de compras e um cartaz afixado em todas as portas de entrada ameaçando de multa, no valor de R$ 10.000,00, quem insistisse em participar do evento.

A partir disso me pus a pensar sobre duas coisas.

Primeiramente, quais seriam os critérios de triagem utilizados para selecionar quais jovens poderiam ou não entrar no estabelecimento comercial?

Rapaz usando camisa Armani Exchange e trazendo Iphone 5S na mão entra?

Moça com bolsa Michael Kors e roupa Abercrombie também entra?

E os demais, que usam roupas compradas no bairro do Brás e celulares Xing Ling da 25 de Março? Será que estes foram barrados?

A segunda coisa foi sobre o efeito pedagógico que ameaçar com uma multa de R$ 10.000,00 teria sobre estes jovens. Este valor representa quase que um prêmio de loteria para algum deles. Não faz parte do conjunto de valores cotidiano, mensurável dentro da realidade em que vivem. Seria como ameaçar mandar para lua ou determinar que um meteoro os atingissem. Simplesmente não faz sentido.

E como já ensinava Eduardo de Lasloissas: “impor punições que nunca teriam como ser executadas é criar uma farsa burlesca que reduz o direito a um mero ato de escárnio” .

E é claro que, ao serem barrados, alguns deles refrataram. O que era de se esperar: que eles ficassem vendo “a grama crescer”, como o personagem criado por Bradbury?

Foram proibidos de entrar mediante alegação que poderiam causar baderna, distúrbios, algazarra. Evidentemente que isso poderia acontecer, como poderia acontecer também em baladas frequentadas por jovens que usam Armani, Abercrombie e que chegam a pagar até R$ 1.000,00 por ingresso.

Mas também poderiam ter realizado o encontro, brincado, falado alto, trocado alguns beijos, postado fotos no Face ou Instagram e ido para casa em paz. Como saber?

Receberam como cartão de visitas uma postura autoritária, segregacionista e violenta, nem tanto pela força, que marca o corpo, mas principalmente pela mensagem, que revolta o espírito: “vocês são pobres; não os queremos aqui”.
E ao perceberem que a língua a ser falada naquela dia era a da violência – física e moral – discursaram utilizando os mesmos argumentos com que foram recepcionados.

….

E o que isso tem a ver com o livro FAHRENHEIT 451?

Em minha opinião tudo.

Os meios de comunicação, que mostraram jovens atacando seguranças e tentando quebrar vidraças, tinham feito reportagens há alguns meses tecendo loas à realização de Flash Mob – movimentos de mesma origem e objetivo dos “rolezinhos”- só que realizado por jovens oriundos de classes sociais mais abastadas e contando, algumas vezes, com o patrocínio de grandes empresas.

O centro de compras que barrou os jovens neste final de semana foi palco, em abril de 2013, de um Flash Mob, patrocinado pelo Samsung Galaxy S4, em frente à loja da Gucci. E ninguém se sentiu ameaçado.

Parece que, quando o movimento é realizado por jovens de famílias ricas, a reportagem é sobre comportamento e estilo de vida. Quando os integrantes são pobres, a reportagem é de cunho policial.

Mas, assim como no livro, não devemos pensar e refletir; afinal, “tudo que precisamos saber nos será informado, no tempo devido e na forma mais adequada”. Só precisamos deixar a televisão sempre ligada.

Mas em uma coisa o autor Ray Bradbury estava equivocado. Não é necessário aquecer os livros até 451 graus Fahrenheit para destruí-los e evitar que as pessoas leiam.

Para muitos, basta que o texto seja longo como este. Eis a queima sem chamas.

dica do Thiago Costa Lima

Comentários

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1 Comentário

  1. Marcos disse:

    Me desculpe, mas sou um jovem de classe média-alta, e já fui expulso de shopping com amigos nível social mais alto que o meu, todos “brancos e bem vestidos”. Motivo: desordem. O motivo dos “flash mob’s” não estarem na página policial? Ordem, autorização, conhecimento da administração do shopping e lojas afetadas.

    Não diga que só por estar com data e local marcado é organizado, pois o crime é muito mais organizado do que isso, mas nem por isso é legal ou admissível.

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