Na Cracolândia há 6 meses, ex-aluno da Faap duvida de nova operação

Usuários de crack participam da Operação Braços Abertos na região da Cracolândia, em São Paulo. Uniformizados com roupas entregues pela administração municipal, os dependentes químicos farão o trabalho de zeladoria da região, principalmente na limpeza de ruas, calçadas e praças (Foto: Thiago Tufano / Terra)

Usuários de crack participam da Operação Braços Abertos na região da Cracolândia, em São Paulo. Uniformizados com roupas entregues pela administração municipal, os dependentes químicos farão o trabalho de zeladoria da região, principalmente na limpeza de ruas, calçadas e praças
(Foto: Thiago Tufano / Terra)

Thiago Tufano, no Terra

Com inglês fluente, embora enferrujado, e curso técnico em mecânica de precisão no Senai, F.R.S., 38 anos, vive na Cracolândia há cerca de 6 meses. O “ex-pequeno burguês”, como ele mesmo se nomeou, estudou em colégios como Porto Seguro e Pio XVII, apesar de ter sido expulso, além de ter passado por grandes universidades como Mackenzie e Faap, conhecidas pelo alto valor de suas mensalidades e pelo público de classe média alta que as frequenta. Usuário de drogas desde os 12 anos, ele afirmou ao Terra que não acredita na nova operação que está sendo realizada na Cracolândia desde o início da semana. Segundo o paulistano, o “pseudo-projeto” não terá êxito.

A “Operação Braços Abertos”, como foi nomeada pela prefeitura, consiste em derrubar os barracos montados pelos dependentes químicos na rua Helvetia e alameda Dino Bueno e levar essas pessoas para hotéis do próprio centro de São Paulo. Além disso, os cerca de 300 dependentes químicos inseridos no programa terão direito a alimentação, emprego na zeladoria da cidade – principalmente limpeza pública – e R$ 15 por dia, além de duas horas de cursos de capacitação. As secretarias da Saúde, Trabalho, Assistência Social e Segurança Urbana são os responsáveis pela operação.

“Esse lance do Open Arms (Braços Abertos) seria cômico se não fosse trágico”, disse F.R.S. aos risos. “Isso me apareceu como uma luz. Pensei: está aí uma rotina que eu precisava. Acordar, tomar café da manhã, trabalhar, estudar, etc. Mas fui falar com uma das pessoas do projeto e quero ver o que ele quer me propor, porque não quero que seja desse jeito. Disseram pra eu continuar indo na tenda (montada na Helvetia) porque primeiro iam alocar as pessoas que estavam cadastradas e depois a gente. Mas aí me deram essa notícia de que está lotado e que agora vão colocar a gente em galpões. Isso é um campo Brasil nazista e esse subemprego não me interessa”, desabafou o usuário de crack.

F.R.S. afirmou que os cerca de 300 dependentes químicos que aderiram ao programa estão bastante empolgados, mas explicou o motivo. Segundo ele, é a primeira vez na história que acontece uma operação na Cracolândia sem que haja força bruta.

“Eles estão empolgados porque é a primeira vez na história da Cracolândia que o processo não é truculento, de embate com a polícia e com as autoridades. Dessa vez foi um processo de conversa. Eles estão empolgados porque é a primeira vez que eles têm a chave (mesmo que do hotel) de algum lugar para ficar, mesmo que acanho. Pode até ser que no começo mude a cabeça do usuário, mas é muito pouco para uma pessoa que está há 20 anos vivendo de uma droga que é destruidora, num circulo vicioso e num ritmo de vida frenético. Eles têm que ter acompanhamento psicológico, formação profissional. Não pensaram que eles não tem uma roupa para vestir? Não pensaram que como qualquer ser humano eles têm que ter cultura, lazer, educação, leitura, arte. A gente não quer só comida, quer comida diversão e arte”, disse, lembrando a música dos Titãs.

O usuário de crack criticou principalmente a maneira com que está sendo feita a operação. Segundo ele, não se pode tirar o dependente químico da rua, onde está sujeito a ter uma recaída praticamente certa, e colocá-lo em um hotel na mesma região, onde continuará tendo contato com os traficantes da Cracolândia.

“Eles querem tirar o cara desse círculo vicioso, mas vão colocar ele na mesma esquina que ele estava. Isso já soa como jogo perdido desde o apito inicial. Você vai tirar ele da rotina do tabaco e colocar em frente à fábrica da Souza Cruz”, comparou. “O que se fez foi tirar ele da rotina do ser visto pela sociedade. A rotina da sociedade de não poder transitar nas ruas da região, etc. Você aglomerou todos os usuários que estavam dispersos precariamente em seu barraco, colocando em prédios.

F.R.S. disse ainda que, assim como ele, existem dezenas de pessoas com um vasto histórico profissional e intelectual dentro da Cracolândia. Ele questionou o trabalho de limpeza pública que essas pessoas capacitadas terão que fazer.

“De que emprego a gente está falando? Um trampo de limpeza pública, que ao meio dia todo mundo já parou. Isso não existe. Não quero desmerecer o trabalho, mas quem faz esse trampo são os garis. Do montante que eles estão assistindo apenas 33% vai ter trabalho e o resto? E que curso de capacitação é esse? Desses 300, metade tem um histórico profissional. Recolocar no mercado de trabalho mesmo é pegar esse designer gráfico, traçar um perfil dele, ver quais são as aptidões, fazer um currículo. Em cima disso buscar ou tentar buscar uma inserção dele no mercado, fazer convênio com indústrias, comércio, falar com o Senai, Senac. Então isso tudo é balela”, criticou.

O “ex-pequeno burguês” reclamou também do tratamento psiquiátrico dado aos dependentes nesse programa. Com conhecimento de causa, segundo ele por sua mãe ter sido psicoterapeuta, ele afirmou ser impossível fazer terapia em um ambiente como a Cracolândia.

“Para ter acompanhamento psiquiátrico, você tem que ter um ambiente propício para isso, com técnicas direcionadas para fazer um acompanhamento. Mas fazer isso em uma tenda, com uma gritaria de gente que acabou de fumar. A psiquiatra já está de saco cheio de falar com viciados e nem gosta do trabalho dela. O sonho dela era ter um consultório, ter um divã de couro de jacaré, mas ela vem trabalhar no sistema de saúde da prefeitura. Ela não está afim”, disse.

F.R.S. foi parar na Cracolândia no ano passado, após ficar quase oito anos preso por assalto. Apesar da infância tranquila estudando em colégios particulares, ele não sabe explicar como entrou para o mundo do crime logo após se formar no colegial técnico do Senai.

“Olhava para minha história e não sabia o motivo. Não tem aquela história que o coração tem razões que a própria razão desconhece. No meu caso é o contrário. Hoje me faço essas perguntas do motivo de ter virado assaltante, mas não sei responder porque fui para o mundo do crime. Se eu soubesse não estaria aqui hoje. Não sei se é carma. Se eu fosse espírita diria que estou pagando por outras vidas. Mas aconteceu”, disse, conformado com a atual situação.

O usuário conta que só fazia assaltos “grandes” e apenas três ou quatro vezes por ano, roubando bancos, caixas e donos de empresas que se locomoviam com os salários de seus funcionários. De “cinco dígitos para cima”, como ele mesmo disse. Apesar disso, decidiu prestar vestibular no Mackenzie para propaganda e marketing após uma aposta com seu pai, que duvidava que ele entraria em uma faculdade conceituada. “Eu sempre fui inteligente e passei em 13º lugar. Mas fiquei no Mackenzie apenas um semestre. Eu fumava muita maconha, cheirava muita cocaína, mas eu curtia a droga”.

Após a morte de sua mãe, em 2006, um casal de amigos o levou para o Rio de Janeiro, pois, segundo o próprio usuário, “estava em um processo mais destrutivo do que hoje em dia”. Na capital fluminense, F.R.S. conseguiu um emprego em um quiosque na praia de Ipanema e, com seu inglês fluente, teve sucesso com os turistas da região. Mas dois clientes mudariam a história de sua vida.

“Em 17 de novembro, lembro como se fosse hoje, montei a tenda e quando voltei vi dois integrantes do PCC com suas mulheres passando fim de semana no Rio. Eu conhecia os caras. Passaram o dia lá bebendo e conversando. Lá pelas 16h eles fecharam a conta e quando pagaram me deram um cartão deles. Coloquei o cartão dentro da minha pochete. No fim do dia comecei a tirar as coisas da pochete, no que vi atrás do cartão do cara estava escrito: ‘R$ 170 mil. Se você quiser, me liga’. Sabe aquele desenho do anjinho e o capeta? O capeta matou o anjinho. Isso foi num domingo, na terça-feira fui para São Paulo”.

Era um assalto a um dono de empresa que saía com o pagamento de seus funcionários. “O cara saiu com uma sacola de papel com R$ 170 mil na mão. Um outro cara ficou na esquina de moto e eu fui lá e peguei o dinheiro. Quando estava saindo da rua, olhei para o outro lado e vi a viatura do Garra. Isso foi em 2006, fiquei em cana até ano passado”, lembrou.

Dentro da penitenciária de Assis, F.R.S. conheceu um senhor, no qual não quis mencionar o nome, que o apresentou o Código Penal e a Jurisprudência. “Ele dizia que eu era muito inteligente e que podia ajudar”.

“Ele me viu escrevendo com caligrafia técnica e pediu para eu ajudar. Comecei a escrever, ler e isso foi tomando forma e virou meu dia a dia. Do fim de 2008 até fim de 2013 me dediquei a isso. Escrevia habeas corpus, apelações, pedidos de condicional, semiaberto. Mas o direito é podre e não quero me misturar com isso. Penso sim em trabalhar com e pela causa e faço isso, mas de novembro pra cá foi complicado, vim para o centro e chamado do crack foi maior”, disse.

Quando questionado se gostaria de sair da Cracolândia, F.R.S. sorriu: “óbvio que quero. Prometi para mim mesmo que não vou roubar mais. Pelo menos isso de bom eu vou tirar daqui. Quero muito sair, mas nunca estive aqui de verdade, não faço parte disso. Não vou ser hipócrita e dizer que nunca mais vou fumar, mas eu consigo sentar, fumar, levantar e ir embora, mas se eu continuar aqui eu vou perder isso e perder minha vida”.

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