Pobre menino rico

Publicado no Conversando com Bernardo

O menino nasce na melhor maternidade do Estado. Sua mãe se recupera da cirurgia enquanto seus familiares e amigos celebram a chegada do herdeiro com champanhe e coquetel. Enquanto isso, o menino fica no berçário, exposto em uma vitrine com a sua melhor roupinha.

Em casa, seu quarto de capa de revista o aguarda. Berço e cama da babá com enxoval personalizado, com o seu nome bordado em dourado. Babá eletrônica de última geração, para os pais acompanharem com atenção os cuidados da babá com o maior tesouro da família.

Depois de algumas semanas, mamadeiras e chupetas ortodônticas importadas substituem o peito materno, porque a mãe tem pouco leite. Mas não faz mal, o menino vai se consultar com o melhor pediatra que irá lhe receitar o melhor leite artificial do mercado.

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Durante o dia, mãe e babá levam o menino para passear em seu carrinho de bebê importado. Frequentam os melhores clubes e shoppings da cidade. Enquanto a mãe compra as melhores roupinhas para o menino, a babá o distrai empurrando o carrinho. Em casa, os melhores brinquedos, com sons educativos, o mantêm entretido.

À noite, o menino chora. Quando colocado no berço, o berreiro é certo. A mãe se surpreende:
– A fralda está limpa! Não tem fome! Não tem frio! Parece que o berço tem espinho!
– É manha, alguém decreta.
– Deixa chorar que ele precisa aprender a dormir no berço, outro responde. Insegura, a mãe enfim concorda.

Quando completa um ano de idade, o menino comemora o aniversário no melhor buffet. 300 convidados o pegam no colo para o fotógrafo fazer o registro. O melhor fotógrafo da cidade, é claro. Depois da festa, o menino chega em casa e se depara com centenas de presentes em seu quarto. E ele se distrai mais com os embrulhos do que com os brinquedos.

Agora o menino já anda e quer explorar o mundo por conta própria. Mas, mesmo no parque, precisa ficar no carrinho para não sujar as suas roupas caras. Praia, nem pensar! A areia e o mar são imundos e podem passar doenças. Em casa, é montada um linda brinquedoteca, com piso emborrachado. É ali que ele deve brincar, em segurança.

Os pais viajam com freqüência, mas nunca levam o menino.
– Ele ainda não tem idade para aproveitar, diz o pai.
– Sim, ficará melhor em casa com a babá, seguindo a sua rotina, concorda a mãe.

Começa a falar e, quando chama a babá de “mamãe”, estranha que no dia seguinte aparece outra babá para o trabalho. Mal convive com o pai, que durante a semana chega do trabalho quando o menino já está dormindo. Afinal, precisa trabalhar bastante para garantir as melhores coisas para o menino: o apartamento no melhor condomínio, a melhor babá, o melhor clube, a melhor escolinha.

Aos finais de semana, o pai precisa relaxar. Sai com a mãe para festas e jantares com amigos. Como os ambientes não são apropriados para crianças, o menino fica em casa com a babá.

Perto dos dois anos de idade, o menino já não é mais tão bonzinho. Faz birra, faz malcriação, numa tentativa desesperada de chamar a atenção. Dão bronca, dão castigos, gritam:
– Menino ingrato! Tem tudo! Mimado!
Mas todos os brinquedos que tem não conseguem preencher o vazio que parece aumentar em seu pequeno peito.

O menino cresce mais um pouco e lhe enchem de atividades. Além da escola bilíngüe, inglês, mandarim, natação e tênis. Precisa se preparar desde já para o mercado profissional. O menino ainda tenta explicar que prefere jogar bola quando não está na escola, mas não lhe dão ouvidos.

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Com o tempo, o menino desiste. A birra dá lugar à apatia. Passa o tempo livre na frente da TV, do computador, do videogame. Numa última tentativa de fugir da realidade.

Até que os pais percebem que tem algo errado.
– Esse menino não se interessa por nada, não ri! Deve ter algum problema… Como isso é possível? Nós sempre lhe demos tudo!

Levam o menino a um psiquiatra, o melhor da cidade. É diagnosticado com TDAh ou qualquer outro distúrbio comportamental. Os pais respiram aliviados.

– Eu sabia que ele tinha algum problema! E voltam para casa, satisfeitos, com a caixinha do remédio que o médico receitou.

Pobre menino rico.

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“Pobre menino rico” é um texto de ficção. Mas poderia não ser. Infelizmente, as situações descritas são muito comuns nos dias de hoje, em que pais têm filhos apenas para atender o chamado da sociedade. Pais que nunca tiveram, realmente, vontade, disposição e desprendimento para o exercício pleno do papel.

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