‘Sou guardião de um anjo’, diz Marcos Mion sobre filho especial

Marcos Mion com o filho Romeo, 8, que tem distúrbio de desenvolvimento: "Crianças como ele estão aqui para nos ensinar. Sou guardião de um anjo. Somos os escolhidos" (foto: arquivo pessoal)

Marcos Mion com o filho Romeo, 8, que tem distúrbio de desenvolvimento: “Crianças como ele estão aqui para nos ensinar. Sou guardião de um anjo. Somos os escolhidos” (foto: arquivo pessoal)

Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo

“Deus me deu um presente. Fui um dos escolhidos”, foi assim que o apresentador Marcos Mion, 34, iniciou um texto em seu perfil no Facebook na quarta. “Quem somos nós? Famílias abençoadas com uma criança especial.”

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Trata-se de Romeo, 8. A revelação de que um dos seus filhos -é pai ainda de Donatella, 5, e Stefano, 3- tem um distúrbio de desenvolvimento que não se encaixa 100% no diagnóstico de autismo repercutiu e gerou apoio. A seguir, o depoimento do apresentador de “Legendários” (Record) à coluna:

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“A primeira palavra que o Romeo falou foi mamãe, no dia do aniversário dele de um ano. Estava dentro dos padrões, mas bebê é tudo igual. Meus pais são médicos e minha mãe percebeu logo cedo a demora dele em desenvolver a fala e começou a conversar comigo e com minha mulher, Suzana [Gullo].

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A gente visitou inúmeros especialistas no Brasil e no exterior. Todos dizem que ele não é autista. O espectro do autismo é amplo. Envolve comunicação, interação social e padrões comportamentais estereotipados. Como Romeo apresenta menos de seis sintomas, ele foi diagnosticado com um distúrbio de desenvolvimento definido como ‘invasivo e sem outras especificações’.

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Um estudo de 2007 mostra que uma em cada 150 pessoas tem genes autistas. Existem graus severos, em que a criança não suporta o toque nem se comunica. Mas, mesmo assim, ela pode evoluir.

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Nunca tivemos um momento de desespero, de falar: ‘Meu Deus, e agora?’. Romeo é uma bênção. Aprendemos todos os dias ao conviver com uma criança que é amor puro. Você coloca os pés na terra dos valores reais. É um privilégio.

Com estímulo correto, amor e apoio, elas respondem constantemente. Foi por isso que resolvi contar a nossa história. Foi emocionante ler mensagens do tipo: eu tenho um irmão, um filho assim. Existem milhares como ele. O retorno foi maravilhoso, por termos dado uma luz na vida de pais que procuram entender o que o filho tem. No Brasil, as pessoas têm pouca informação. Recebi mensagens de pais contando que o filho foi diagnosticado autista com um ano e meio, dois anos. Isso é crime.

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Sei que um monte de especialistas vai me crucificar, mas ficar preso ao diagnóstico é a maneira mais fácil de limitar a pessoa. Ouvi histórias de médicos que dizem para as famílias: ‘Se preparem para cuidar dessa criança a vida inteira, economizem’.

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Quando se coloca esse carimbo, os pais podem perder a esperança e deixar de dar os estímulos de que o filho precisa. E tem o preconceito. Por isso falo que essas crianças estão dentro de um espectro com muitas variáveis.

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O caminho delas é ilimitado. A evolução do Romeo tem sido constante. Foi tudo muito orgânico. Após muita pesquisa, levamos ele, aos 3 anos, para Miami, onde encontramos uma clínica, um lugar mágico. Nos identificamos com a metodologia. Passamos um ano e meio lá, direto. A família inteira, um intensivo.

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Eu viajava para Miami toda semana. Agora, vão entender a minha motivação para um gasto e uma disposição tão grandes. Os profissionais são importantes, mas os pais são fundamentais. Duas vezes por semana, eu dormia no avião. Na ida, ia do aeroporto direto para a clínica. Na volta, ia direto para o estúdio.

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A última vez que voltamos à clínica foi no ano passado. Ele e os irmãos amam ir para lá. Não quero falar o nome nem dar detalhes do método, pois cada família tem que encontrar seu caminho. Não existem duas crianças iguais, com os mesmos sintomas.

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Romeo é totalmente voltado para arte e tecnologia. É muito sensível. Crianças como ele estão aqui para nos ensinar. Sou guardião de um anjo. Somos os escolhidos.

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Ele é bom aluno. Estuda numa escola bilíngue e fala inglês e português. É o popular da classe. Aprende no ritmo dele. Pesquisamos muitas escolas e escolhemos aquela que abraçou nossa família e nos deu oportunidade de ficar próximos. Permitiu que colocássemos uma profissional para estar com ele lá.

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Além da professora, conta com outra especializada em inclusão. Tem aulas que faz com a classe, outras só com ela, naquelas matérias em que não consegue ter a mesma eficiência. Faz natação, fonoaudióloga. Vai ao clube e à casa dos avós e primos.

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Quando ele tinha dificuldades maiores, nós o protegemos até ele ter uma base para um desenvolvimento firme. Hoje, em Miami, ele já fica sozinho com outros meninos no parque. O coração fica na mão ao vê-lo no escorregador, mas a gente deixa, e ele se joga.

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Eu sempre quis ser pai. Gosto de prover, de cuidar. Romeo é o elo mais forte da nossa família. A minha maior motivação para ser uma pessoa melhor é por ele e para ele. Sou eternamente grato a ele por ter escolhido a Suzana e a mim e ter abençoado nossa vida.”

Comentários

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2 Comentários

  1. Vagner disse:

    Estou realmente emocionado com o relato do Marcos Mion. Ele é um verdadeiro pai na Acepção da palavra. O ideal seria que famílias que passam pelo mesmo drama e fatalmente não tem as mesmas condições financeiras e sociais pudessem também cuidar de suas crianças com a mesma dignidade de Mion. E aí eu fico completamente revoltado com a ausência do Estado no auxílio a essas famílias que não podem ter esse direito concretizado em suas vidas….. Parabéns , Marcos , por expressar sua paternidade de forma tão plena!!!

  2. Ronaldo disse:

    Felicidades para o Romeu, Marcos.
    Minha filha acaba de adotar um menino com alterações significativas do aparelho cognitivo. Está internado e ela está sempre ao seu lado. Vc, Mion, e minha filha são pessoas do bem. Desculpem o elogio de um pai que admira tal ato de amor. Vida longa a todos que possuem esses “anjos” em suas vidas.

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