Arquidiocese proíbe missa e fiéis protestam rezando na rua em Belo Horizonte

Cerca de 300 pessoas se reuniram neste domingo (2) em frente à Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Belo Horizonte, para protestar contra a suspensão das missas de frei Cláudio van Balen (foto: Carlos Eduardo Cherem/UOL)

Cerca de 300 pessoas se reuniram neste domingo (2) em frente à Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Belo Horizonte, para protestar contra a suspensão das missas de frei Cláudio van Balen (foto: Carlos Eduardo Cherem/UOL)

Carlos Eduardo Cherem, no UOL

Cerca de 300 católicos ligados à Igreja Nossa Senhora do Carmo, na zona sul de Belo Horizonte, rezaram na avenida de mesmo nome, em frente à entrada principal do templo, às 11h deste domingo (2), em protesto contra a decisão da Arquidiocese de Belo Horizonte e da Província Carmelita de Santo Elias em proibir as missas de frei Cláudio van Balen, 81, ex-pároco da igreja.

As duas entradas da igreja, uma das mais tradicionais da capital mineira, permaneceram fechadas neste domingo (2).

Os fiéis entoaram cantos católicos, rezaram a “Ave Maria”, leram um manifesto, deram-se as mãos e caminharam até o salão paroquial, na entrada detrás da igreja, na rua Grão Mogol, aplaudiram e gritaram o nome de frei Cláudio van Balen.

A reportagem do UOL tentou entrar em contato com os padres da Igreja Nossa Senhora do Carmo, mas o salão paroquial ficou fechado e os telefones não foram atendidos. A assessoria de imprensa da Arquidiocese Metropolitana de Belo Horizonte não foi encontrada para comentar o assunto. Frei Cláudio van Balen também não foi localizado.

No domingo passado, (26 de janeiro), frei Evaldo Xavier, 47, tentou realizar uma missa solene, em que celebrava a sua nomeação como prior provincial da Província Carmelita, e de frei Wilson Fernandes, 31, como novo pároco da Igreja Nossa Senhora do Carmo, às 11h, horário das missas de frei Cláudio van Balen, há quase cinco décadas. Mas não conseguiu. Frei Evaldo Xavier foi vaiado por cerca de mil pessoas, e teve de celebrar a missa no salão paroquial, para aproximadamente cem pessoas.

Ala progressista da Igreja

A decisão em fechar a igreja e proibir as missas de frei Cláudio van Balen, considerado uma pessoa avançada e aberta, ligado à ala mais progressista da Igreja Católica e defensor da Teologia da Libertação, e há cinco décadas à frente da paróquia, após o episódio, culminou no protesto.

“Fomos atraídos (pelo Frei Cláudio van Balen) por seu jeito direto, franco e amoroso de um pescador. Por seu testemunho, fé libertária e concepção de poder como serviço. Hoje, esse homem não tem mais espaço neste templo grandioso. (…) Se não há lugar aqui para o Frei Cláudio (van Balen), também não há lugar para nós”.

“Também não há lugar para nosso serviço, nossa disponibilidade, nosso tempo, nosso dinheiro”, afirmou o manifesto lido pela socióloga Glória Maria Arreguy Maia, 71, bancária aposentada. Ao fim da leitura, o texto foi aplaudido pelas pessoas que se aglomeravam em frente ao gradil do santuário. A assinatura dos presentes para um manifesto contra o afastamento do frei começou a ser recolhida. Algumas mulheres começaram a entoar cânticos católicos, a multidão acompanhou. As pessoas foram dando-se as mãos. Rezaram a “Ave Maria”. Diversos homens e mulheres choravam. As pessoas caminharam até o salão paroquial, após as homenagens e aplausos para o frei ausente, se dispersara.

Batizada na Igreja Católica, Glória Maia deixou a igreja quando fez faculdade, na faixa etária dos 20 anos. Voltou-se novamente para o catolicismo há 14 anos, após conhecer frei Cláudio. “Ele é a minha igreja. Se ele não voltar, eu também não volto.”

O engenheiro civil André Wolff, 45, estava inconformado. “Tinha vergonha e constrangimento de vir à igreja porque me separei há seis anos e casei novamente. Frei Cláudio me fez ver que não era isso. Que Cristo veio para incluir, que ele está de braços abertos para todos. Hoje frequento a Igreja por causa dele. Se ele (frei Cláudio) sair, eu, minha atual esposa (Adriana) e minha filhinha (Laura, cinco meses) deixaremos de frequentar a igreja. “Ele é a minha igreja. Se ele não voltar, eu também não volto”, afirmou Wolf.

“Ele (frei Cláudio) é o nosso reflexo. Ele é a nossa comunidade. Ele nos representa”, disse a fisioterapeuta Leopoldina Andrade, 41. Acompanhada do marido, o também fisioterapeuta Luiz Felipe Mindello, 47, e dos dois filhos Pedro, 16, e Rebeca, 10, ela diz que não volta à igreja, caso haja afastamento definitivo do frei. “Não vou voltar. Não tenho interesse nenhum”.

“Estou profundamente arrasado. Frei Cláudio é um homem iluminado, formado na teologia da libertação. Ele escreveu mais de 50 livros. É um intelectual”, afirmou o economista Murilo Carneiro Pereira, 73. Há 45 anos, o empresário frequenta as missas de frei Cláudio na Igreja Nossa Senhora do Carmo. “Ele é o catalisador da comunidade. Somos adultos, mas precisamos que ele esteja presente. Senão vamos nos dispersar”, disse o economista.

Irene Marques Pereira, 87, estava decepcionada. Ela já se esqueceu há quantos anos canta no coral da missa das 11h na igreja. “Desde pequena. Antes de mim, minha mãe, que já faleceu há muito tempo, já vinha à Igreja (Nossa Senhora) do Carmo”, afirmou Irene Pereira.

“Nunca passei uma coisa dessas. Na missa passada, saí correndo daqui. Já rezei em casa, mas agora vou ter de ir à missa às 16h30 na Igreja São José. Não tem jeito”, disse.

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