Mineiro e evangélico, Tom Rodrigues assina os principais clipes do funk ostentação no Rio

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O diretor de 25 anos é casado e pai de dois filhos e já foi vidraceiro, servente e camelô

Roberto Kaz, em O Globo

RIO – O diálogo abaixo — entre um empresário de funk e um diretor de videoclipes — deve ser lido tendo em mente o seguinte cenário: uma casa, uma sala sem móveis, um painel de LED ocupando metade da sala sem móveis; dez mulheres (ou dez pares de perna), dez garrafas de vodca, 12 de espumante, uma penca de agregados; um homem descamisado, forte e depilado usando short e gravata borboleta.

— Quero ver se a gente pega o Porsche para filmar a Britney chegando na porta da casa — diz o empresário.

— E a Range Rover? — pergunta o diretor, com a câmera na mão.

— A Rover vou deixar para o clipe de amanhã. Mas enche o Porsche aí com as meninas.

A conversa ocorreu numa sexta-feira quente e ensolarada, dez dias atrás, num condomínio de luxo no Recreio dos Bandeirantes. O empresário era Eduardo Basílio — mais conhecido como DJ Napô —, que definia, em detalhes, como queria o clipe de “Na casa do Seu Zé”, última aposta sua para a cantora MC Britney. Já o diretor era Washington Rodrigues — ou apenas Tom — que, em cinco anos de trabalho, filmou mais de 200 clipes de funk ostentação. Sua página no YouTube, seguida por 1,2 milhão de pessoas, já foi visitada 220 milhões de vezes. Aos 25 anos, ele é o grande nome do ramo no Rio de Janeiro.

Casado, evangélico, pai de dois filhos, Tom tem a fala mansa de quem nasceu e foi criado em Minas Gerais. Estudou até a sétima série. Trabalhou como vidraceiro, servente e chaveiro até conseguir um emprego no camelódromo de Santa Luzia (que está, para Belo Horizonte, como o da Uruguaiana para o Rio). Começou vendendo tênis. Depois, já dono de sua própria banquinha, migrou para o comércio de DVDs.

Foi então que conheceu os MCs Michel e Tucano. A dupla — que durante o dia vendia celular na banca vizinha e à noite se apresentava em bailes da periferia — queria lançar seu próprio vídeo. Tom foi incumbido de gravar e editar.

— Nem tinha câmera — ele lembra. — Tirei foto com o meu celular, um Nokia N73. Deu resultado, e aí eu montei um segundo DVD com vários funks conhecidos de Belo Horizonte. Se a letra falava de sangue, morte, eu buscava imagem disso no Google e montava. Tinha feito um curso de computação de seis meses. Usava o (software) Nero ainda.

Entrada no Rio se deu há dois anos

O disco, que fez relativo sucesso, foi pirateado e acabou por virar seu cartão de visitas. Tom criou uma firma — a Tom Produções — e uma página no YouTube. Depois, com a ajuda da mãe, comprou uma câmera Sony de R$ 1.100 “dividida em 12 vezes”, como faz questão de frisar. Passou a filmar outros funkeiros de Minas Gerais até ser procurado, dois anos atrás, por um empresário do Rio. O primeiro clipe que fez na cidade — “Amor proibido”, do MC Fininho — chegou a 11 milhões de visualizações. Como se diz no dialeto do funk, Tom bombou, formou o bonde, esquentou a chapa, abalou as estruturas.

Dali em diante, filmou e editou vídeos do Mr. Catra, do Menor do Chapa e do grupo os Lelek. O clipe “Os caras do momento”, do Nego do Borel, foi visto 27 milhões de vezes. “Bigode grosso”, da MC Marcelly, 13 milhões. “Aquecimento das maravilhas”, do Bonde das Maravilhas, 11 milhões (a título de comparação, o sucesso “Beijinho no ombro”, de Valesca Popozuda, está com quatro milhões de views no YouTube).

Tom ainda mora em Barreiro, bairro onde foi criado em Belo Horizonte. Hoje é dono orgulhoso de duas câmeras T3I (R$ 4 mil), uma 6D (R$ 7 mil) e outra 7D (R$ 8 mil), todas da Canon. Vem ao Rio de mês em mês; cobra entre R$ 2 mil e R$ 5 mil por dia de filmagem. Edita e posta no YouTube por conta própria. Para filmar, tem auxílio de um primo.

De relógio dourado no pulso e corrente igualmente dourada no pescoço, o DJ Napô — que empresaria a MC Britney e o Bonde das Maravilhas — diz escolher Tom “pela amizade e pelo canal no YouTube’’.

— Em time que está ganhando não se mexe — explica. — O primeiro clipe da Britney, bem básico, teve seis milhões de visualizações. Nesse eu investi mais. Tem painel de LED, um monte de menina, até um transexual.

Corrigiu-se:

— Quer dizer, não chega a ser transexual. É menino que gosta de menino.

Nascido na Baixada Santista e aprimorado na cidade de São Paulo, o funk ostentação é, a grosso modo, um “proibidão” carioca com uma letra que, em vez de exaltar o crime, faz loas ao consumo. Um clipe típico deve incluir cinco elementos: carro, bebida, dinheiro, mansão e, principalmente, mulher. O expoente do gênero é o cantor MC Guimé, autor de “Plaquê de cem”, filmado pelo diretor Konrad Dantas, visto por 42 milhões de pessoas no YouTube. Aos 21 anos, ele faz 40 shows e chega a ganhar R$ 1 milhão por mês. Seu último clipe, “País do futebol”, tem patrocínio de uma marca de energético e participação do jogador Neymar.

Originalmente restrito à periferia, o funk ostentação veio à tona, no último mês, com a onda de rolezinhos que assolou a capital paulista. A razão: os primeiros rolés, organizados pela internet, surgiram justamente para que os ídolos do gênero pudessem ser abordados por fãs em shopping centers. No Rio, o principal nome da área é o MC Nego do Borel, autor de “Os caras do momento” (“E o bonde de Tommy, Lacoste e de Oakley / Tem a Lamborghini e a Land Rover”). Com o dinheiro ganho na música, o funkeiro trocou o barraco por um casarão, erguido no alto do próprio morro que o batiza.

Tom — que leva o nome da mãe tatuado num braço, e o da produtora no outro — também mudou de vida. Já filmou em São Paulo, Porto Alegre e Vitória. Está produzindo um show com 18 artistas, em Belo Horizonte, para a gravação de um DVD. Na última vinda ao Rio, com a filha, ficou uma semana e fez quatro videoclipes. Ainda que a produção fosse simples (mansão e Porsche emprestados pelo dono de uma marca de boné; uísque, vodca e espumante cedidos por um colecionador de garrafas gigantes), o resultado não deve ser. Houve cenas filmadas numa lancha na Marina da Glória e num helicóptero sobre o Recreio. A edição deve ficar pronta em um mês.

Religioso, Tom diz que a exaltação à riqueza e à luxúria que retrata em seus vídeos são apenas trabalho.

— Não perguntei para o pastor se pode. Melhor não saber — ri.

 

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