Entre Thiagos e Lauras

Temos que criar caminhos para que a iniciativa privada seja tão pouco discriminatória quanto o concurso público

delegadaWilliam Douglas, em O Globo

“Delegado Thiago vira Laura e pode assumir Delegacia da Defesa da Mulher.” Quero abordar essa notícia sob o prisma do serviço público. Um servidor público que se submeteu a operação de mudança de sexo, passando de delegado Thiago para delegada Laura, pode assumir o comando de uma Delegacia de Mulheres?

Respondo: eu só quero saber se esta pessoa é competente e honesta. Sua raça, cor, sexo, mudança de sexo, orientação sexual, altura, peso, origem socioeconômica, posição política, religião… isso tudo é muito interessante, mas não é requisito, nem positivo nem negativo, para o exercício de cargo público, seja ele eletivo ou efetivo. Afinal, estamos em uma democracia e em uma sociedade que busca o respeito à diversidade. A Constituição diz que é objetivo da República “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

A sabedoria chinesa diz que “não interessa se o gato é branco ou preto, o que importa é que ele mate o rato”. Eu não quero saber se é Thiago ou Laura, branco ou preto, rico ou pobre… Eu quero saber se irá cumprir seus deveres e ser exemplo do modelo de servidor público que o Brasil anseia desesperadamente. Pessoas honestas, competentes, motivadas, dispostas a fazer o que precisa ser feito e a honrar e servir ao titular do poder, o povo. Martinho Lutero, líder religioso, disse com propriedade: “Prefiro ser governado por um turco sábio do que por um cristão tolo.” Ao se referir aos turcos, falava de sua religião predominante, o islamismo. Ele disse uma grande verdade: para governar, é melhor escolhermos alguém sábio, honesto, competente, bem-intencionado do que simplificar para uma escolha direcionada por preconceito (melhor diria, “burritizar”, pois tal simplificação é burra, ao contrário da maioria das simplificações, como ensinaram Leonardo da Vinci e Steve Jobs. A simplificação aqui deve ser outra: escolha a pessoa mais qualificada para o cargo). Isso vale para qualquer cargo no serviço público, não só providos por eleição.

Vale dizer mais: temos que criar caminhos para que a iniciativa privada seja tão pouco discriminatória quanto o concurso público. No Brasil de hoje, vemos poucas mulheres, negros e pardos em funções diretivas. As fashion weeks brasileiras têm mais louras que na Escandinávia, nem parece que estamos no Brasil! No mercado de trabalho, as mulheres ganham menos que os homens nas mesmas funções. Em suma, temos muito a caminhar. Mas caminhemos!

Quem quiser discutir o fato noticiado, que repare: há um assunto que é sobre Thiago e Laura e este é uma questão médica. Sobre a delegada de Polícia, temos uma questão político-administrativa. Não quero saber se é Thiago ou Laura, mas se cumpre com competência, dedicação e honestidade os deveres do cargo. Quem cumpre bem seus deveres, espero que esteja sempre bem e que seja valorizado. Quem não cumpre, que seja corrigido e até demitido. Espero que sempre que um político for votado e os servidores promovidos ou demitidos, que seja em decorrência do que fizerem enquanto servidores. Apenas isso. O servidor deve ser julgado pelo quanto age — pelo e para o povo — apenas isso.

Não quero saber se é Thiago ou Laura.

Comentários

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1 Comentário

  1. Vagner disse:

    Concordo em gênero , número e grau com tudo que foi escrito!!!!

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