3 mitos que bloqueiam o progresso dos pobres

Um número crescent da países na África estão criando sistemas comunitários de saúde que têm um excelente nível de custo-benefício (Accra, Ghana, 2013).

Um número crescente da países na África estão criando sistemas comunitários de saúde que têm um excelente nível de custo-benefício (Accra, Ghana, 2013).

Publicado por Bill Gates

Quase todos os indicadores apontam para um mundo melhor do que nunca. As pessoas têm vidas mais longas e saudáveis. Muitos países que recebiam assistência hoje são autossuficientes. Poderíamos pensar que esse progresso impressionante seria amplamente celebrado, mas, na realidade, Melinda e eu ficamos impressionados com a quantidade de gente que acha que o mundo está ficando pior. A percepção de que o mundo não pode resolver as questões de pobreza extrema e doenças não apenas é errada – também é prejudicial. É por isso que, na carta deste ano, desmontamos alguns dos mitos que entravam o trabalho. Esperamos que façam o mesmo da próxima vez que ouvirem esses mitos.

MITO 1

Países pobres estão condenados a continuar pobres

Tenho ouvido esse mito citado em muitos lugares, a maioria na África. Uma breve busca na Internet produz dezenas de manchetes e títulos de livros: “Como os países ricos ficaram ricos e os países pobres continuam como estão”, “Por que os pobres permanecem pobres”, etc.

Felizmente esses livros não são best-sellers, pois a premissa básica é falsa. O fato é que rendas e outros indicadores de bem-estar humano estão aumentando em quase toda a parte, inclusive na África.Então por que esse mito está tão arraigado?

Passaremos à África daqui a pouco, mas examinemos a tendência mais ampla em todo o mundo há meio século. Há cinquenta anos o mundo estava dividido em três partes: Estados Unidos e nossos aliados ocidentais; a União Soviética e seus aliados; e todos os demais. Nasci em 1955 e cresci aprendendo que o chamado Primeiro Mundo estava bem de vida ou “desenvolvido”. Quase todos no Primeiro Mundo iam à escola e tinham vidas longas. Não sabíamos exatamente como era a vida atrás da Cortina de Ferro, mas parecia ser um lugar assustador. E havia o chamado Terceiro Mundo – basicamente todos os demais. Pelo que sabíamos, estava cheio de gente pobre que não ia muito à escola e morria jovem. O pior é que estavam encurralados na pobreza, sem esperança de melhorar.

As estatísticas confirmam essas impressões. Em 1960, quase toda a economia global estava no Ocidente. A renda per capita nos Estados Unidos era de cerca de US$ 15.000 por ano. (Trata-se de renda por pessoa e, portanto, US$ 60.000 por ano para uma família de 4 pessoas). Na Ásia, África e América Latina, as rendas por pessoa eram muito mais baixas. Brasil: US$ 1.982. China: US$ 928. Botsuana: US$ 383. E assim por diante.

Anos depois, ao viajar, eu veria essa disparidade pessoalmente. Melinda e eu visitamos a Cidade do México em 1987 e ficamos surpresos com a pobreza. Não havia água corrente na maior parte das casas e as pessoas se deslocavam longas distâncias de bicicleta ou a pé para encher garrafas com água. Parecia com o que tínhamos visto em áreas rurais da África. O diretor do escritório da Microsoft na Cidade do México enviava seus filhos aos EUA para fazer exames médicos e verificar se a poluição estava afetando sua saúde.Hoje, a cidade é tremendamente diferente. O ar é limpo como em Los Angeles (que não é grande coisa, mas certamente melhor do que em 1987). Há arranha-céus, novas estradas e pontes modernas. Ainda há favelas e bolsões de pobreza, mas agora, em geral, quando visito a cidade, tenho outra impressão: “Uau, a maioria dos moradores aqui é de classe média. Que milagre.”

Vejam esta foto da Cidade do México em 1980 e compare com uma de hoje em dia:

CIDADE DO MÉXICO 1980, 2011 ©Corbis, Keith Dannemiller

CIDADE DO MÉXICO 1980, 2011 ©Corbis, Keith Dannemiller

Transformações semelhantes podem ser vistas nestas fotos de “antes e depois” de Nairóbi e Xangai.

NAIRÓBI 1969, 2009 ©Getty Images National Geographic

NAIRÓBI 1969, 2009 ©Getty Images National Geographic

XANGAI 1978, 2012 ©Corbis, Dean Conger

XANGAI 1978, 2012 ©Corbis, Dean Conger

Essas fotos ilustram uma história poderosa: o quadro global da pobreza foi modificado completamente no decorrer de minha vida. As rendas por pessoa na Turquia e no Chile estão no nível dos Estados Unidos em 1960. A Malásia está quase lá e o Gabão também. E aquela terra de ninguém entre países ricos e pobres foi preenchida pela China, Índia, Brasil e outros. Desde 1960 a renda real por pessoa da China aumentou oito vezes. A da Índia quadruplicou, a do Brasil quase quintuplicou e Botsuana, um país pequeno com uma gestão inteligente de seus recursos minerais, registrou um aumento de 30 vezes. Há uma categoria de países no meio que mal existia há 50 anos e nela se encontra mais da metade da população mundial.Eis outra forma de ver a transição: contando pessoas em vez de países:

Myth1Info1_Curves_Final_portuguese_0122Portanto, a melhor maneira de se responder ao mito de que países pobres estão condenados a continuar pobres é destacar um fato: eles não continuam pobres. Muitos – mas certamente não todos – os países que chamávamos de pobres hoje têm economias vibrantes. E a percentagem de pessoas muito pobres reduziu-se por mais da metade desde 1990.Ainda não chegou a hora de comemorar, pois ainda há mais de um bilhão de pessoas em pobreza extrema. Mas seria justo dizer que o mundo mudou e que os termos “países em desenvolvimento” e “países desenvolvidos” perderam sua pertinência.

Qualquer categoria que junte a China e a República Democrática do Congo confunde mais do que esclarece. Alguns dos chamados países em desenvolvimento avançaram tanto que seria justo dizer que se desenvolveram. Alguns estados falidos não estão se desenvolvendo nem um pouco. A maioria dos países fica em algum ponto no meio. Por isso é mais instrutivo pensar em termos de países de baixa, média e alta renda. (Alguns especialistas chegam mesmo a dividir os países de renda média em duas subcategorias: baixa-média e alta-média).

Com isso em mente, voltemos à versão mais específica e perniciosa desse mito: “Certamente os tigres da Ásia estão bem, mas a vida na África nunca melhora nem vai melhorar.”“Primeiramente, não deixe ninguém dizer que a África está pior hoje do que há 50 anos. Na realidade, a renda por pessoa aumentou na África ao sul do Saara nesse período – e bastante em alguns países. Houve uma queda acentuada durante a crise da dívida da década de 1980, mas aumentou em dois terços desde 1998, passando de pouco mais de US$ 1.300 para quase US$ 2.200. Hoje, um número crescente de países está entrando em um desenvolvimento forte e sustentável e outros mais seguirão pelo mesmo caminho. Sete das dez economias de maior crescimento nos últimos 5 anos estão na África.

A África também teve grande avanço em saúde e educação. Desde 1960, a duração da vida das mulheres ao sul do Saara aumentou de 41 para 57 anos, apesar da epidemia de HIV. Sem HIV seria de 61 anos. A percentagem de crianças matriculadas nas escolas passou de pouco mais de 40% para mais de 75% desde 1970. Menos pessoas passam fome e mais gente tem boa nutrição. Se ter comida suficiente, ir à escola e viver mais são medidas de uma vida boa, então a vida certamente está melhorando na África. Essas melhoras não são o fim da história; são a base para mais progresso.

É claro que essas médias regionais encobrem grandes diferenças entre países. Na Etiópia, a renda é de apenas US$ 800 por ano por pessoa. Em Botsuana é de quase US$ 12.000. Essa enorme diferença também ocorre dentro dos países. A vida em uma área urbana importante como Nairóbi não se parece em nada com a vida em um vilarejo rural do Quênia. Deve-se duvidar de quem trata todo o continente como se fosse uma massa indiferenciada de pobreza e doença.Conclusão: Os países pobres não estão condenados a continuar pobres. Alguns dos chamados países em desenvolvimento na verdade já se desenvolveram. Muitos mais estão a caminho. Os que ainda buscam seu caminho não estão tentam algo sem precedentes. Há bons exemplos a seguir.

Sinto um otimismo suficiente para fazer uma previsão. Até 2035, quase não haverá mais países pobres no mundo. (isto é, de acordo com nossa definição atual de pobreza.)2  Quase todos os países serão o que hoje chamamos de renda baixa-média ou até mais ricos. Os países aprenderão com seus vizinhos mais produtivos e se beneficiarão de inovações como novas vacinas, melhores sementes e a revolução digital. Suas forças de trabalho, estimuladas pela expansão da educação, atrairão novos investimentos.

Alguns países ficarão para trás devido a guerras, política (Coréia do Norte, salvo se houver mudanças importantes) ou geografia (países sem acesso ao mar no centro da África. Vai persistir o problema da desigualdade: haverá pobres em cada região.No entanto, a maior parte estará em países autossuficientes. Cada país da América do Sul, Ásia e América Central (com a possível exceção do Haiti), e a maioria nas costas da África terão entrado para a categoria dos países de renda média. Mais de 70% dos países terão uma renda por pessoa maior do que a China hoje em dia. Quase 90% terão renda maior do que a Índia atualmente.

Será uma realização notável. Quando nasci, a maioria dos países do mundo era pobre. Nas duas décadas seguintes, os países em pobreza extrema passarão a ser exceção em vez de norma. Bilhões de pessoas terão saído da pobreza extrema. A ideia de que isso ocorrerá durante minha vida é simplesmente surpreendente para mim.

Alguns dirão que ajudar quase todos os países a se desenvolver até o nível de renda média não vai resolver todos os problemas do mundo e até mesmo agravará alguns. De fato precisaremos desenvolver fontes mais baratas e limpas de energia para evitar que todo esse crescimento agrave o clima e o meio ambiente. Também teremos de resolver os problemas gerados pela prosperidade, como taxas mais elevadas de diabetes. Mas, à medida em que as pessoas se educarem mais, elas contribuirão para resolver tais problemas. Levar a agenda de desenvolvimento à sua quase plenitude será mais importante para melhorar a vida humana do que qualquer outra ação.

dica do Sidnei Carvalho de Souza

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