Contentamento

contentamentoRicardo Gondim

Contentamento não resulta de posse ou de desempenho. Contentamento brota dentro da gente e vem da virtude de saber distinguir entre necessidade e desejo. Satisfação ou insatisfação tem a ver com a força da inveja. Desejo mimético, cobiça do que o outro é e possui, se tornará ou não responsável pela aflição do descontentamento. Daí o dicionário definir contentamento como a experiência de estar alegre e não desejar mais do que se tem. O contente carrega dentro de si uma paz parecida com a da lua quando descansa na lagoa, do sino que badala na capela da aldeia ou do ribeiro que se sabe destinado a morrer no oceano.

Quando há contentamento, o coração desiste de recuperar o passado que se foi e de antecipar o futuro que ainda não chegou. Na satisfação, passeios idealizadas à infância e viagens angustiadas ao porvir cedem à realidade do cotidiano.

Respeitar o presente pressupõe abandonar a frase assim que O salário, assim que for suficiente… A casa, assim que estiver terminada… Assim que terminar a faculdade… O casamento, assim que o primeiro filho chegar… O mundo idealizado tem força de gerar escravidão, basta que se torne ponto de fuga e não de mobilização. Felicidade encara os fatos e pode exigir renúncia, desobediência ou revolta. Mesmo que não tenha acontecido exatamente como sonhada, a vida vale cada segundo. O contente sabe: quando a existência não se desenrola como planejada, não é necessário que se redobrem os esforços de curvá-la a caprichos infantis.

O caminho para o contentamento passa, necessariamente, pela simplificação. Precisamos mesmo de 236 canais de televisão? Zapear aumenta em quê o nível de felicidade? Qual a alegria que o milésimo par de sapatos pode produzir? Existe diferença real entre um vinho de dois mil e um de seis mil dólares? Quando corpos esculpidos em academia de ginástica perderão o encanto?

Liévin, personagem de Anna Kariênina de Liev Tolstói, afirmou: eu me regozijo com o que tenho e não me atormento com o que não tenho. Depois de se dar conta de que não era correto pensar só em si, Liévin perguntou a Stiepan Arcadith sobre o desenrolar da vida. Arcadith se referiu à busca da felicidade na mulher ideal como uma conta matemática: Não sei que matemático falou que o prazer não estavam em descobrir a verdade, mas em procurá-la. Essa procura, entretanto, por não ser exata como uma equação, pode ser fatal. Basta que ela se perca tanto na subjetividade como na intensidade. Quem encarna o ideal? Daí a necessidade de se considerar com cuidado a energia gasta na busca da pessoa ou do objeto que trará uma satisfação plena. A maneira como os recursos existenciais se espalham na caça da alegria pode gerar o manipulador, o ganancioso e o eternamente infeliz.

Se aceitamos o que é sem idealizar o que está além, prosseguimos, passo a passo, na aventura de viver. E sempre que a realidade é respeitada, estamos no espaço divino onde habita o contente.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Comentários

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1 Comentário

  1. Vagner disse:

    Mais uma brilhante meditação do ilustre “herege” Ricardo Gondin. Obrigado por suas palavras calarem fundo…..

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