Lavagem de roupa suja

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Publicado por Piero Barbacovi

Dizem para eu me calar quando falo que Deus é frágil. Sim, no amor, ele é. E isso não o diminui, pelo contrário, apenas descreve sua grandeza: o poder mais maravilhoso do universo não usa da coerção para nos atrair. Não precisamos de mais do mesmo. Devemos ter coragem de enfrentar o mundo real, que não conta com grandes intromissões. Precisamos de amor, não de milagres.

Dizem para eu me calar quando afirmo que Cristo não veio nos salvar apenas para o post mortem. Essa visão empobrece a mensagem do Mestre e joga para o depois do fim o processo que deveria salvar as pessoas ainda dentro da história. Ricardo Gondim já falava:

“A alvissareira mensagem do evangelho anuncia que não basta salvar os indivíduos de si mesmos, eles precisam ser salvos para o próximo; não basta salvar os indivíduos do diabo, eles precisam ser salvos para não demonizar as relações sociais; não basta salvar os indivíduos do mundo, eles precisam ser salvos para voltar ao mundo e salgá-lo”.

Dizem para eu me calar quando falo que o determinismo diante da vida não faz sentido. Se fizesse, seus apoiadores levariam suas crenças até as últimas consequências. Porém, quando se trata de terrorismo, estupros, desgraças, favelas, diante da incongruência de seus raciocínios,  o que se vê são abacaxis de responsabilidade sendo jogados para cima de Deus, que, para financiar a história, orquestra horrores como etapas necessárias para cumprir uma vontade soberana. Um deus permissivo, cínico, cruel e maquiavélico não merece ser adorado.

Dizem para eu me calar quando falo que pressupostos doutrinários tidos como verdades absolutas, e sem reflexão crítica, devem ser repensados. Nossos religiosos escolheram compreender Deus a partir da onipotência. Se tivessem prestado mais atenção ao que a revelação do amor indica, com certeza teríamos menos pessoas destrocadas pela fé. Caso assim seja, estou com Marx: “a religião é o ópio do povo”, uma vez que incentiva a inoperância e a indiferença do homem diante da vida, dos seus problemas e de suas injustiças. Usando o fatalismo como bengala, instiga à acomodação.

Dizem para eu me calar quando digo que alguns religiosos são antiéticos, egoístas e exploradores, que só pensam no sucesso de suas empresas (igrejas), mercadejando milagres. Cético, não acredito mais em depoimentos de curas veiculados pela TV. Se fossem assim, tão cheios do Espírito Santo, estariam nos corredores superlotados dos hospitais, ajudando nosso Governo na sua patética tarefa de cuidar da saúde.

Não vou me calar, pois sei do poder transformador que cada um tem dentro de si e porque sempre fui adepto ao trabalho de formiguinha: se cada um faz sua parte, as coisas dão certo. Podem me chamar de ingênuo, mas vou continuar protestando por menores salários de deputados, por melhor aplicação dos impostos em saúde e segurança, por ciclovias, melhores transportes públicos e maior acessibilidade, e, em qualquer circunstância, pela educação (sem ela, todas as outras coisas perdem sentido).

Não vou me calar diante da espiritualidade morta e inoperante, que tenta tirar dos ombros a nossa responsabilidade de mudar a realidade; diante de religiões que começam e terminam em si mesmas; diante de doutrinas, teorias ou dogmas que sirvam para enganar pessoas, enriquecer a poucos e asfixiar muitos.

Não vou me calar. Vou sujar minhas mãos um pouco. Podem até me chamar de sonhador, esquerdista, betésdico ou o que for, mas sei que todos estamos com a faca e o queijo na mão. Tem pra todo mundo. Vou cortar o meu pedaço.

Comentários

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1 Comentário

  1. Vagner disse:

    Belo desabafo sobre esse descalabro teológico em que vivemos.

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