No RJ, o “rolezinho” na porta da Apple confirma que marca virou religião

Fila para entrar na primeira loja da Apple no Brasil no Shopping Village Mall na Barra da Tijuca (foto: Luciana Whitaker/Folhapress)

Fila para entrar na primeira loja da Apple no Brasil no Shopping Village Mall na Barra da Tijuca (foto: Luciana Whitaker/Folhapress)

Publicado por Leonardo Sakamoto

Quando, daqui a dois séculos, analisarem os sinais da derrocada da nossa civilização de consumo desvairado, certamente cenas protagonizadas nas portas de lojas da Apple serão resgatada pelos historiadores. Para marcar o momento em que a marca virou religião. In Jobs We Trust.

Mais de 1700 pessoas fizeram fila para a abertura da primeira loja da Apple no Brasil, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, na manhã deste sábado (15). Desses, 163 viraram a madrugada nas dependências do shopping para serem os primeiros a entrar. Segundo matéria da Folha de S.Paulo, houve momentos de jogo de futebol, com consumidores gritando “Apple, Apple, Apple!” e até volta olímpica de vendedores. Daria uma ótima esquete do Monty Python.

Quando passei a me entender por gente, havia quem acampava na fila para ser o primeiro a entrar em um show de rock – o que também, convenhamos, é uma esquisitice sem tamanho. Mas, vá lá, é rock. Agora, é para ter um produto.

Sempre me penitenciei ao ver as filas quilométricas que precedem jogos importantes de futebol por conta de um pensamento, um tanto quanto moralista, que surge espontâneo, mas, no fundo, demonstra a mais pura inveja: esse povo não trabalha, não? Inveja – vamos deixar bem claro – não de dormir na fila,  fazer xixi no potinho e comer macarrão instantâneo, mas de dar uma escapada do trabalho para fazer algo por mim, bem nonsense de preferência.

Adoro tecnologia e sou consumidor de produtos da marca (hipócrita, esquerdista caviar, ostentador, burguês mentiroso, mimimi!… Enfim, fala com a minha mãozinha, fala!), portanto não serei eu a criticar quem compra. O problema é fazer isso de forma acrítica. Sem contar que acho fascinante o comportamento de querer ser o primeiro a possuir determinada mercadoria ou a frequentar um templo de consumo.

Para alguns, um smartphone ou um notebook é um instrumento de trabalho ou diversão – muitas vezes desnecessário, é claro. Afinal de contas, me pergunto se estes aparelhinhos do meu lado trazem facilidades para minha vida diária, criam necessidades que nunca imaginei que tinha ou me escravizam aos seus caprichos.

Para outros, é um elemento que ajuda a dar sentido às coisas, contribui na formação da imagem que temos de nós mesmos e fornece um símbolo para que a comunidade reconheça o seu dono como um de seus membros. Praticamente uma carteira de identidade.

Lembram-me daqueles cabeças ocas usuários de iPhone que jorraram preconceito nas redes sociais quando o Instagram tornou-se acessível também aos usuários do Android? Reclamavam que a rede social de fotos iria virar coisa do populacho, uma vez que elas seriam as que possuem telefones com esse sistema operacional, normalmente mais acessíveis. Tem o mesmo DNA da frase “este aeroporto está virando uma rodoviária”.

São a versão moderna do sujeito que reclama que a calça de grife dele agora está em desconto, o que fará com que mais pessoas a tenham, perdendo – portanto – a exclusividade – razão final que o levou a adquirir tal peça. Não é a qualidade do produto que está em jogo, mas o que ele significa socialmente. O preço estipulado tem pouca relação nenhuma com custos de produção, mas serve para segregar.

Se não concorda, explica isso para a senhorinha boliviana escravizada que recebeu dois mangos para produzir uma saia vendida por setenta vezes esse preço.

O escritor Ferréz, que também é dono de uma marca de roupas na periferia de São Paulo, relatou que responsáveis por grifes caras que são objetos de desejo lhe perguntaram como fazer para que a rapaziada dos rolezinhos deixe de consumir essas marcas. A associação entre essa gente pobre e as grifes tem afetado a imagem diferenciada, sabe como é…

Marcas de eletrônicos, de refrigerantes, de carros não vendem eletrônicos, refrigerantes e carros mas, sim, estilos de vida. Do que somos. Do que gostaríamos de ser. Do que deveríamos ser – não em nossa opinião, necessariamente, mas de uma construção do que é bom e do que é ruim. Construção essa que vem, não raras vezes, de cima para baixo e não discutida de forma democrática.

Já comentei aqui antes que a busca pela felicidade passa cada vez mais pelo ato de comprar. E a satisfação está disponível na lojas a uma passada de cartão de distância. Muitos de nós ficamos tanto tempo trabalhando que nos tornamos compradores compulsivos de símbolos daquilo que não conseguiremos obter por vivência direta. Através desses objetos, enlatamos a felicidade – pronta para consumo, mas que dura pouco, o tempo de sua obsolescência programada.

Ao mesmo tempo, considerando que o acesso à cidadania no Brasil está se dando pelo aumento no poder de consumo, adquirir um produto de uma marca valorizada significa ser reconhecido como cidadão. Quando seria o acesso aos serviços básicos da pólis o que faria de mim e de você reais cidadãos.

Por fim, aos que consideram certas marcas como religião, e seus fundadores deuses, defendendo que consumidores não podem reclamar de produtos se optaram por sua compra, em um comportamento que lembra e muito a ditadura do “Ame-o ou Deixe-o”, pergunto: ao votar em alguém, você dá carta branca a essa pessoa ou adota um postura crítica? Por que com corporações tem que ser diferente?

Pois, melhor encarar o consumo como ato político, de escolha, responsabilidade e monitoramento, do que como ação religiosa, de entrega, devoção e fé.

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