Do proibidão ao ostentação, evangélico é um dos principais compositores de funk do Rio

Rafael Andery, no Serafina

Thiago não consegue decidir se quer ser praga ou santo. Batizado Thiago Jorge Rosa dos Santos, o carioca da favela Vila Cruzeiro é conhecido como Praga.

O apelido vem da infância. Na escola, Praga matava aulas, “perturbava geral” e assinava suas pichações com a alcunha.

Hoje, aos 28 anos, Santos é um cara tranquilo. Casado desde 2009, frequentador assíduo da Assembleia de Deus e planejando cursar uma faculdade de direito, fala com voz modulada, evita palavrões e está quase sempre sério.

Thiago Jorge Rosa dos Santos, ou Praga, o compositor do funk /Daryan Dornelles

Thiago Jorge Rosa dos Santos, ou Praga, o compositor do funk /Daryan Dornelles

Poderia ser só mais um pai de família da zona norte do Rio se não fosse, também, o autor de versos como: “Onde eu chego, eu paro tudo / A mulherada entra em pane / Meu cordão é um absurdo / Meu perfume é da Armani”. Ou ainda, em outra linha: “Nóis fecha nessa porra/ No claro e no escuro / Nóis rouba, nóis trafica / Nóis não gosta de andar duro”.

Mas Praga não é bandido e nem ostenta muito. Na entrevista, usava camisa polo Lacoste, calça jeans e tênis Adidas, praticamente a mesma roupa do repórter. Praga é, isso sim, um compositor de funk, o único do estilo a se dedicar exclusivamente à composição, dispensando a participação em shows e gravações. “Sou tímido, tímido, tímido. Para ser MC, o cara tem que gostar de tumulto”, diz. “Minha vocação é o lado chato, de ficar em casa, pensando, lendo, assistindo aos meus documentários, para, aí sim, fazer a minha crônica do dia a dia e transformar isso em música.”

Considerado por muitos do meio como o melhor na arte da escrita de funks, Praga já compôs para nomes como Mr. Catra, navega com naturalidade pelos diferentes estilos do ritmo, do “proibidão” ao “ostentação”, e tem três de suas músicas elencadas no livro “101 Funks Que Você Tem Que Ouvir Antes de Morrer” (de Julio Ludemir): “Visão de Cria”, “Vida Bandida” e “Vida Bandida 2”.

“Escrevi minha primeira música aos oito anos”, conta. “Meu irmão era MC e foi pra ele que eu dei a minha primeira rabiscada.” Seus primeiros sucessos foram interpretados pelo MC Smith. “Visão de Cria” e “Vida Bandida” são recheadas de referências ao tráfico de drogas e causaram polêmica no Rio. Smith, inclusive, chegou a ser preso por apologia ao crime ao lado de outros três funkeiros (todos amigos de Praga).

“Apologia ao crime não existe”, se defende o compositor. “A gente faz uma crônica do dia a dia. Se não houvesse o crime, nós não falaríamos disso. Já viu funk que fala de ET? Esse crime de apologia fere a liberdade de expressão.”

“Temos o dever de levar um funk com cunho político, que mostre essa situação, para fora da favela”, diz. “Mas você já viu algum funk desses na TV? Nunca. Lá só querem saber de Naldo e Anitta, ninguém quer levar o cara da Vila Cruzeiro que discute segurança pública. Nem as leis de incentivo à cultura nos ajudam. Se o projeto tiver funk no nome, pode esquecer.”

O futuro de Praga no funk, contudo, é incerto. Não pela questão financeira. Afinal, o carioca chega a cobrar R$ 5.000 por composição e detém os direitos autorais delas -apesar de ganhar uma merreca com isso. “Se dependesse do Ecad, meu Deus do céu. A fiscalização deles é muito deficiente e não é feita onde minhas músicas tocam”, lamenta.

A incerteza vem de questões menos mundanas. Evangélico, Thiago ainda não se tornou “membro efetivo” de sua congregação devido à natureza de seu ganha pão. “É um paradoxo. Gosto de uma religião completamente contrária ao meu trabalho”, diz. Praga ainda não se sente preparado para abdicar do funk, mudar seu comportamento e até o jeito de falar. “Acho que esse dia chegará, mas ainda não sei quando.”

Um dia, o funk perderá Praga, o melhor compositor do estilo. E a Assembleia de Deus ganhará de vez mais um devoto, Thiago dos Santos.

Comentários

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2 Comentários

  1. O Corneteiro disse:

    Esse cara é torturador dele mesmo!
    Como pode querer estar numa denominação tão conservadora, alienadora e castradora nos conceitos e costumes e ser um panfletário de crônicas de Funk onde existe até certas permissividades no dizer… é a própria ambiguidade esquizofrênica.

  2. MAURICIA MACIEL disse:

    Engraçado como ele se defende bem das letras que escreve. Ou seja, crônica. E enquanto isso milhares de jovens cantam nois rouba/nois trafica… e talvez a maioria deles não roubem nem traficam, mas naturalizam a questão.

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