Fundo do poço: leitor defende que amarrar pobre em poste é revolucionário

infratorPublicado por Leonardo Sakamoto

De todas as vergonhas alheias a que alguns leitores deste blog me obrigam a sentir, talvez uma das piores é aquela em que você percebe que a pessoa cabulou todas as aulas de história para jogar truco ou videogame.

Desde que a classe média, por mimetismo e ignorância, passou a amarrar jovens infratores em postes como hobby, tenho lido – com frequência – pessoas autointituladas “de bem” em debates na rede usando o seguinte argumento: “Você não defende o Che Guevara? Por que é contra, então, que façamos Justiça com as próprias mãos?”

Como ele se repete ad nauseam, alguém deve ter criado a pérola, transformada em mantra dos zumbis comedores de cérebro.

E como o poço nunca tem fundo, colhi este aqui também mais de uma vez: “Por que se organizar para se defender desses bandidos é diferente do que o seu povo fez na Revolução Russa e na Revolução Francesa?”

O mais legal é que a expressão “seu povo”, que deve ter passado despercebida, já coloca as coisas na perspectiva real.

Porque o sujeito que é amarrado no poste estaria, provavelmente, do lado de quem depôs o governo e você, que escreveu essa frase, estaria ao lado de quem foi deposto…

Gente. Juro. Não sei nem pode onde começar. Talvez indo tomar satisfações com as pessoas que ensinaram história a esse povo usando como material didático textos do Tea Party. Ou com os pais delas que as criaram em um porão, não deixando que fossem à escola. Fazer um protesto na frente de uma secretaria de educação, resolve? Sei lá.

Você percebe pelo texto ortograficamente e gramaticalmente impecável que não se trata de alguém que, coitado, não conseguiu estudar por algum motivo. É de propósito mesmo! A pessoa realmente acredita que está mudando a história, tal qual Che ou Lenin (que o fizeram para bem ou para mal, dependendo do ponto de vista), ao prender alguém pelo pescoço em um poste. Não, não está. Pois isso não é tentativa de melhorar a humanidade, mas de negar tudo o que ela representa e a caminhada que nos trouxe até aqui.

Olha, deixa colocar de outra forma: quando você, através de atos e palavras, defende a manutenção do status quo em uma sociedade como a nossa, racista, machista, homofóbica, transfóbica, que discrimina pelo tamanho da conta bancária, que usa trabalho escravo, trabalho infantil, que rouba terra de índio, de ribeirinho, de quilombola, que mantém pessoas sem-teto e sem-terra, que espanca manifestante e jornalista, que atenta contra a liberdade de expressão e não garante uma Justiça igual para todos, você não está “mudando a história”.

Está, simplesmente, impedindo que ela seja feita, bobinho. Ou seja, ser um neomiliciano de classe média não é a vanguarda da mudança, mas do atraso.

Por fim, se você tem a intenção de, algum dia, procriar, por favor, não repita mais isso não, ok? #ficadica

E vá ler um livro.

Comentários

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1 Comentário

  1. Marivaldo disse:

    Meu Deus tenha misericórdia de Robert Zchaber, pois ele não sabe o que faz. Mesmo após dois mil anos da vinda de Jesus Cristo, ele continua como aqueles que gritavam: “Crucifiquem-no, crucifiquem-no!”

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