‘Senti-me acolhido pelos detentos’, diz ator preso por engano no Rio

O ator e vendedor Vinícius Romão de Souza foi solto agora no começo da tarde desta quarta-feira / Gabriel de Paiva/Agência O Globo

O ator e vendedor Vinícius Romão de Souza foi solto agora no começo da tarde desta quarta-feira / Gabriel de Paiva/Agência O Globo

Bruno Calixto, na Folha de S.Paulo

O ator Vinícius Romão, 27, que ficou preso por 16 dias após uma identificação falsa, recebeu a imprensa em seu apartamento na tarde desta quarta-feira e contou como foi esse tempo na Casa de Detenção Patricia Acioli. “Há muitos Vinícius lá dentro, e me senti acolhido pelos detentos”, afirmou.

Romão foi solto por volta das 13h de hoje e foi direto para o apartamento onde mora sozinho no Méier, zona norte do Rio, acompanhado pelo pai, Jair Romão, e pelo advogado Rubens Nogueira. No apartamento, foi recebido por cerca de 50 amigos, vizinhos e jornalistas.

Pálido e aparentemente mais magro, Romão chorou e cumprimentou um a um antes de falar com a imprensa. Ele disse que não guarda mágoas ou rancor da mulher que o acusou. “Ela foi vítima”, resumiu. Já sobre a atuação da polícia, ele preferiu não comentar, designando ao advogado a informação.

PRESÍDIO

“Quando cheguei no presídio, rasparam a minha cabeça e perguntaram sobre qual facção eu pertencia, e eu respondi que era neutro”, relatou Romão.

Na cela em que ficou até ontem, quando foi expedido seu mandato de soltura, ele ficou com presos por crimes de tráfico de drogas e agressão doméstica. De ontem para hoje, ele detalha, passou a noite com outros 14 homens numa cela onde havia três beliches.

“Dormi no chão sobre papelão. O líder chegou a me sugerir pedir a declaração da faculdade para eu ser transferido para uma cela especial, mas preferi ficar aonde estava para não ficar sozinho”, contou.

O ator descreveu que, na unidade prisional, tinha direito a três refeições (café da manhã, almoço e jantar) e quatro banhos de dez minutos cada. No banho, como ele ressaltou, eles aproveitavam para encher recipientes com água do chuveiro para tomarem.

“Lá eu li ‘Poliana’ e a maior lição disso tudo é aproveitar cada minuto da vida”, disse. “No uniforme vem escrito ‘Seap – Ressocialização’, só que não acredito que quem está lá possa sair melhor que entrou, pois falta recursos, oficinas, palestras, algo para fazer. Muitos se apegam à palavra de Deus.”

“Há muitos Vinícius lá dentro, e me senti acolhido pelos detentos. Quando me mudaram de cela ontem, não me avisaram que ia ser solto, mas falaram que a minha prisão estava repercutindo em todo país, e esta foi a informação que eu precisava para manter a calma e a única coisa que não poderia esquecer, a esperança.”

PRISÃO

Vinícius Romão relatou que na noite em que foi preso um policial o abordou no momento em que voltava a pé para casa. Ele estava de camisa preta, com celular preso ao braço ouvindo música e sem mochila ou bolsa no corpo, o que poderia sustentar a suspeita do roubo.

“Eram dois caras e a mulher. Um deles pediu para eu virar e apontou uma arma para as minhas costas. Eu disse ‘braço (gíria para designar alguém forte), não sou eu quem vocês estão procurando. Não entenderam”, explicou Romão sobre o fato de a polícia ter dito que o acusado estaria escondendo a bolsa roubada ao braço.

Vinícius Romão negou ter sido vítima de racismo mas contou que não teve seus direitos preservados. “Muito tem que ser revisto. As condições de higiene são desumanas. Só pude ligar para o meu pai no dia seguinte.”

Recém-formado em Psicologia, Romão anunciou que, após descansar, pretende retomar seu cargo de vendedor de roupas na unidade da loja Toulon instalada no Norte Shopping. Com relação à carreira de ator, ele, que atuou na novela “Lado a lado”, da TV Globo, sutilmente, deixou clara sua vontade em fazer um curso de formação.

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