Quanto vale uma obra de arte?

O beijo (original em alemão: Der Kuss), quadro do pintor austríaco Gustav Klimt.

O beijo (original em alemão: Der Kuss), quadro do pintor austríaco Gustav Klimt.

Contardo Calligaris, na Folha de S.Paulo

Um jornalista perguntou a Marcel Duchamp: se você estivesse no museu do Louvre no meio de um incêndio e pudesse salvar só um quadro, qual obra você salvaria?

Duchamp tinha a (merecida) reputação de ser um provocador, e o jornalista talvez esperasse levá-lo a confessar algum amor envergonhado por uma obra clássica. Mas Duchamp respondeu à altura de sua reputação; ele disse, sem hesitar: “Salvaria o quadro que está mais próximo da saída”.

Era também um jeito de dizer que nenhuma obra, para ele, justificaria que alguém se expusesse ao risco de perder a vida. Não é surpreendente, vindo de um artista que passou a segunda e maior parte de sua existência sem produzir obra alguma e tentando transformar sua própria vida numa obra de arte.

De qualquer forma, será que eu, se estivesse num hipotético incêndio, tentaria salvar um Duchamp? Pensei em duas obras que talvez valessem o esforço, “O Grande Vidro” e o “Nu Descendo a Escada”. O “Nu”, de 1912, é um quadro cubista, e eu não sou muito fã do cubismo (se fosse um Cézanne pré-cubista, já seria outra história).

“O Grande Vidro” tem o problema de ser, justamente, grande e de vidro -péssimo para transporte apressado em caso de incêndio. Os quadros que Duchamp pintou antes de 1912 são respeitáveis, mas só isso. E, quanto aos “ready-mades” (a roda de bicicleta, o urinol etc., que ele genialmente assinou e transformou em arte), o que importa é o ato, o conceito. Será que vou arriscar a vida por um urinol industrial, só porque ele foi assinado por Duchamp? Mesmo se o urinol fosse destruído, o ato de Duchamp não seria perdido; bastaria que alguém o relatasse e o interpretasse direito.

Nessa perspectiva, obras de arte conceitual ou de arte póvera, por exemplo, não valeriam o sacrifício de ninguém, nunca. Mas melhor não generalizar. (Nota. A pergunta é muito útil como quiz na hora de selecionar um casal: você encararia o incêndio para um Jackson Pollock? E para um Carpaccio?)

O filme “Caçadores de Obras-Primas”, de George Clooney, é baseado em três livros de Robert M. Edsel, “Caçadores de Obras-Primas, Salvando a Arte Ocidental da Pilhagem Nazista” (Rocco) e também “Saving Italy” e “Rescuing Da Vinci” (com uma copiosa documentação fotográfica).

Edsel conta a história dos “Monuments Men”, mais de 300 homens e mulheres de diferentes países que, durante a Segunda Guerra Mundial, no teatro de operações europeu, foram encarregados de salvar o patrimônio cultural da destruição e do saque. Eram diretores de museus, curadores, historiadores da arte etc.

A questão levantada pelo filme de Clooney não sai facilmente da cabeça: faz sentido colocar vidas humanas em perigo para salvar obras-primas?

Engraçado. Em geral, achamos aceitável morrer por dinheiro (muitos topariam correr riscos extremos numa grande caça ao tesouro). Também entendemos que alguém se sacrifique pelos princípios fundamentais nos quais ele acredita. E consideramos meritório morrer para salvar outras vidas. Mas para salvar uma obra de arte?

O filme de Clooney, que apresenta um verdadeiro dilema moral, responde mais ou menos assim: as obras de arte do passado (longínquo ou não) nos representam e nos definem.
Sobreviver não é suficiente, é preciso preservar o patrimônio que nos lembra quem somos.

Concordo, mas a questão é complexa. As grandes obras do nosso passado, o políptico dos Van Eyck em Ghent ou a madona de Michelangelo em Bruges, são patrimônio de nossa cultura.

Ora, somos todos filhos dessa mesma cultura, tanto nós, que nos identificamos com a cavalaria dos aliados, quanto os outros, que tentaram destinar a Europa à barbárie totalitária.

Os Van Eyck e Michelangelo são, em suma, antepassados de todos, de quem inventou os campos e de quem morreu neles: as obras são o passado de nossa civilização -e nossa civilização inclui nossa barbárie.

Outra complexidade vem do fato de que a ideia do valor insubstituível de cada vida humana é um achado recente. Até 200 anos atrás, havia pletora de coisas que pareciam valer mais do que a vida: a honra, a palavra dada, a fé… Por que não uma obra de arte?

Antes de negar com indignação, um teste. Você acha intolerável a troca de uma obra pela vida de um homem? Entendo. Mas imagine o pacto mágico seguinte: você poderia salvar da destruição “O Beijo”, de Klimt, à condição de desejar que o pastor Feliciano contraia uma pneumonia grave. Sem hipocrisia, ok?

Comentários

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2 Comentários

  1. Vagner disse:

    Meu Deus , que questão absurda é levantada!!! A vida humana é em si uma verdadeira obra de arte por mais torpe que ela seja!!! Seria a coisificação máxima da existência preocupar-se em salvar um bem material , por maior valor intelectual ou estético que possua ,arriscando queimar-se até uma das pestanas por obra de arte maravilhosa que seja. Mais vale um fio de cabelo da minha cabeça pecaminosa do que um quadro de Modigliani!!!!

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