Tenho vontade, mas não tenho desejo de escrever

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Publicado por Sóstenes Lima

Às vezes experimento um paradoxo terrível: sinto vontade de escrever, mas não tenho desejo. Neste momento, estou sob o efeito desconcertante desse paradoxo.

Muitos tratam vontade e desejo como sinônimos. Tenho boas razões para acreditar que, embora sejam palavras semanticamente próximas, denotam coisas bem diferentes. Costumo pensar a vontade como a sensação do querere o desejo como a ação do querer.

Quase sempre vontade e desejo caminham juntos. Experimentamos asensação do querer e logo em seguida somos impelidos à ação do querer. Mas há casos em que nos sobrevém apenas a sensação. Sentimos que queremos alguma coisa, mas o corpo e alma não dão boas-vindas a essa vontade. Então, ela reluta até ser vencida.

Na maior parte das vezes, não damos muita bola para às vontades que vêm sem desejo. Apenas esboçamos um lamento desbotado (ou seria embotado?): “Depois eu faço. Acho que eu não queria muito fazer isso”.

Como acontece com muitas pessoas, às vezes sinto que deveria ler um determinado texto, mas logo a vontade vai embora, restando apenas uma queixa suave: “Que pena que não me animei a ler aquele texto. Talvez outro dia eu me animo”.

Mas há certas disjunções entre vontade e desejo que me inquietam. Uma delas é especial: fico muito embaraçado quanto tenho vontade de escrever, mas não tenho desejo. Às vezes passo dias incomodado com a sensação de querer escrever algo, mas o texto não chega. Não há força para fazer a vontade virar texto. O desejo fica inerte.

Penso que a ausência de desejo textual está fundamentalmente associada à falta de uma causa textual, à falta de uma pauta textual que seja urgente. Diz-se que o desejo nos move. Então, isso significa que se estamos inertes é porque não há nada afetando o desejo, não há roteiro para sua ação.

Considero as pautas do desejo como um conjunto de objetos e demandas que, vindos dos lugares mais secretos e desconhecidos de nossa interioridade, saltam violentamente na consciência, fazendo-a romper a quietude e o silêncio. Quando uma pauta irrompe no pensamento, significa que o texto já está pronto, estocado na alma, aguardando uma tela em branco para ser grafado e distribuído.

Há textos que irrompem com muita violência; exigem ser escritos (distribuídos) imediatamente. Há outros que chegam de forma mais suave. Esperam pacientemente um dia, uma semana, um mês, um ano ou até uma vida.

O paradoxo de querer escrever e não desejar escrever me perturba porque significa que, no momento, minha alma se encontra erma, desabitada. Não há pauta, não há texto pedindo pra sair. Parece que quando tudo está arrefecido e sereno dentro de nós alguma coisa está errada. Silêncio e inércia parecem indicar turbulências logo à frente.

Gosto muito da vontade de escrever. Hoje, depois de várias recusas, decidi que iria honrá-la. Não terminaria o dia sem escrever um texto, independentemente da pauta. Constrangi o desejo a agir; coloquei-o contra a parede e o fiz falar. Como não havia nenhuma demanda, provoquei-o com a pergunta: “Por que você está inerte?” Ele me respondeu com duas perguntas: “Por que você não busca descobrir? Por que você não escreve para tentar me decifrar?”. Disso resultou este texto. A vontade de escrever foi finalmente honrada. Querendo ou não o desejo teve de atuar.

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