A ditadura que não vivi e a “ditadura” que vivo

passeata-1024x768Publicado por Fabricio Cunha

Tava conversando com a Ester hoje, na hora do almoço… Tentávamos fazer o exercício mental de imaginarmos como seríamos, como nos posicionaríamos, como interferiríamos ou seríamos “interferidos”, se vivêssemos em 1964.

Ficamos um bom tempo imaginando. Uma nostalgia estranha, daquilo que não vivemos. Mas, a verdade, é que é impossível saber o que passaram nossos irmãos que viveram de fato esse período de nossa história nacional.

Na verdade, viver mesmo, foram somente alguns poucos, diante do todo. A maioria, como meus pais, por exemplo, só existia nesse período. Os que o viveram de fato, trazem consigo marcas irreparáveis, memórias inesquecíveis e um gosto amargo. Gosto de sangue derramado.

Quem não conhece e reconhece seu passado, não tem condições de escrever um futuro minimamente positivo.

Vivemos num país pacato, de gente muito boa, o que é maravilhoso, mas nas horas de crise, onde se demanda um engajamento radical e consciente, essa maravilha toda nos entorpece e aliena, nos tendendo, enquanto povo de uma nação, ao apequenamento, ao amedrontamento e ao silêncio.

Eu queria dizer algo sobre isso. Engraçado… Geralmente quando eu quero dizer algo sobre alguma coisa, não consigo.

Então… Não consigo…

Eu assisti o “O que é isso, companheiro?!”, li “Batismo de Sangue”, vi o documentário sobre o Vlado, li matérias e mais matérias sobre a ditadura, o AI-5, o DOI-CODI, li a espetacular biografia do Marighella. Enfim…

Mas, pelo fato de não ter vivido tudo isso, me sinto inabilitado, ou melhor, um profano, pisando em solo sagrado, ao tentar emitir uma opinião sobre o tema.

Reservo-me às minhas pesquisas, à curiosidade que me transporta no tempo e me põe em silêncio, na presença dos 6.016 torturados pela mão de ferro do inescrúpulo militar. Silencio e pasmo, acompanhando o cortejo fúnebre dos 210 mortos nos porões escuros e escusos de nossa vergonha. E choro e grito e pergunto pelos 146 que desapareceram de nosso solo, feito pó, não dando aos seus queridos nem a chance de enterrá-los.

Que o nosso silêncio seja de reflexão e respeito, mas não de medo, nem de descaso, muito menos de anuência. “Quem cala sobre o teu corpo, consente na tua morte”, me disse o Milton.

O mais triste… Na mesma semana onde nos lembramos de nosso período recente mais sombrio, o IPEA veicula uma pesquisa na qual 65% dos entrevistados concordam que uma mulher que se veste de forma “provocante” merece ser atacada.

O mais triste é perceber que nossa sociedade parece ter mudado pouco.

A sociedade que apoiou os militares ontem, é a mesma que acha normal estuprar mulheres pelo que vestem, hoje.

Mudam-se os “comos”, permanecem os “porquês”.

 

Comentários

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2 Comentários

  1. Rafael disse:

    Quanta barbaridade … coitado do futuro do nosso país, coitado …

  2. jesiel disse:

    MEU CARO PAVARINI DESCULPE-ME OS ERROS DE PORTUGUES,EU VIVI NA TOMADA DE PODER PELOS MILITARES FORAM 20 ANOS SEM BAGUNÇA NOS TIAMOS ESCOLA SAUDE EDUCAÇAO E PRINCIPALMENTE SEGURANÇA, HOJE EM DIA VIVEMOS EM UMA DITADURA DEMOCRATICA QUE E PIOR DAS DITADURAS,HOJE EM DIA NAO TEMOS SEGURANÇA EM LUGAR NENHUM OS TRES PODERES ESTAO CORROMPIDOS, FELIZ E A NAÇAO CUJO DEUS SEJA A EDUCAÇAO A SAUDE E A SEGURANÇA.

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