Os selfies enriquecem a vida

Os autorretratos por smartphone ensinam que a mesmice não existe – e oferecem uma jornada de autoconhecimento

Autorretrato de Rembrandt, ainda jovem (Foto: Divulgação)

Autorretrato de Rembrandt, ainda jovem
(Foto: Divulgação)

Luís Antônio Giron, na Época

Não há gesto intelectualmente mais correto que criticar os selfies, como são conhecidos os autorretratos via smartphones que se popularizaram com a disseminação dos celulares com recursos avançados de captação de imagem. Hipsters e acadêmicos se ocupam em associar as fotos em que modelo e fotógrafo se confundem com o fenômeno do narcisismo da era das celebridades. Os selfies são a abreviatura em inglês que surgiu do diminutivo de self-portrait. São os autorretratinhos e, por extensão, poderiam ser vertidos para o neologismo em português “autinhos” – ou melhor ainda, “mesminhos”.  Os selfies seriam uma chaga contemporânea, o sintoma da decadência dos valores da humildade e da decência.

Seriam mesmo? O estigma aos selfies tornou-se uma caça às bruxas da egolatria. Mas essa nova cruzada parece mais ingênua e pervertida que a própria prática que as pessoas adotaram de tirar fotos de si próprias. Atire a primeira farpa quem nunca fez um selfie. Ou selfie do selfie, posando diante de um espelho para criar um abismo infinito. Até intelectuais raivosos que atacam selfies fazem selfies, mesmo que seja porque são tímidos e não têm outra opção que se autofotografar. Porque os selfies consistem em um fato universal, inevitável, útil e até gostoso. Talvez menos interessantes para quem vê do que para quem clica. Mas são o que são.

Entendo quem odeia os selfies – como entendo quem se odeia a si próprio. Aparentemente, trata-se de uma moda irritante. Primeiro as atrizes faziam fotos sensuais de si próprias que, sabe-se lá como, vazavam pelas redes sociais, com grande sucesso. Depois a apresentadora de televisão Ellen DeGeneres tuíta um selfie dos colegas durante a cerimônia do Oscar, um flagrante que se torna viral na internet. Finalmente surge agora a moda dos selfies de casais que se retratam depois do sexo, exibindo expressões de saciedade beatífica. Sim, é irritante ver a felicidade alheia, a cara de tonto dos outros, eu sei. Mas talvez haja uma ponta de inveja em quem critica os selfies do depois do sexo alheio. É a inveja da felicidade dos outros.

Não há nada de errado com o narcisismo. Freud dizia que era uma manifestação saudável na evolução da consciência do indivíduo em relação a si mesmo. Se levarmos Freud a sério, os selfies podem ser entendidos como etapas que as pessoas devem experimentar e superar no seu processo de educação. O selfie seria assim um estágio necessário da evolução humana rumo à autoconsciência. Eu sempre odiei ver fotos minhas. Fazer selfies me ensinou que eu não era tão repugnante assim e me ajudou a entender quem eu era para mim próprio. Descobri que o melhor fotógrafo de mim era eu.

Autorretrato de Rembrandt, quando ele tinha 63 anos (Foto: Divulgação / The National Gallery)

Autorretrato de Rembrandt, quando
ele tinha 63 anos
(Foto: Divulgação / The National Gallery)

Ora, a nova prática tão disseminada me faz lembrar os selfies do passado, hoje considerados obras de arte. O caso mais célebre é o do pintor holandês Rembrandt (1606-1669). Ele fez autorretratos em todas as etapas da vida, dos 20 aos 60 anos. Os selfies de Rembrandt representam a busca da autocompreensão em torno dos efeitos da passagem do tempo na vida de um indivíduo. Seus selfies compõem a autobiografia de um artista – no caso, um grande artista. Não há nada mais emocionante que observar a passagem do tempo e a crescente amargura nos selfies de Rembrandt.. Ao longo dos anos, a imagem do jovem orgulhoso e seguro de si vai mudando, até que seu olhar se torna melancólico diante de si mesmo. De tela a tela, ele nos dá um testemunho da própria decadência, que não deixa de ser a decadência de todos nós, caso tenhamos sorte de vivê-la. Rembrandt era exibicionista no melhor sentido do termo.

Os selfies são as manifestações atuais do autorretrato. Eles a princípio visam ao exibicionismo, mas seu efeito final é outro. Permitem que nos miremos não com narcisismo, mas com resignação e tolerância em relação a nós mesmos. Os selfies são os mesminhos que alteram a mesmice da vida em um mundo cada vez mais automatizado. Cada mesminho capta um rosto que, em comparação com outros registros dele em selfies sucessivos, revela que ele sofreu uma leve e quase imperceptível alteração. Nessa operação, os selfies se tornam educativos porque ensinam que o mesminho mais mesmo nunca é o mesmo, nunca é igual ao anterior, ainda que captado um milésimo de segundo atrás pelo disparador automático do smartphone. Os mesminhos jamais são os mesmos. A mesmice, portanto, não existe.

Por isso, aqueles que condenam autorretratos manifestam um julgamento moralista, conservador e insensível em relação a um gesto autodidata, a uma tentativa de busca de si mesmo por parte de quem se fotografa. Minha conclusão é um truísmo. Selfies podem ser tão desprezíveis como belos. Tudo depende de quem os produz. Pena que ainda não apareceu um novo Rembrandt do selfie.

Comentários

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1 Comentário

  1. Rosana Sayuri disse:

    Pava, não sei se já pediram antes mas poderia ter aquele botão maroto pra enviar os posts pro Kindle, não? Seria muito bom ^^

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