A guitarra Fender Stratocaster faz 60 anos como o maior ícone do rock

Com design e sonoridade únicos, o instrumento foi imortalizado por superastros como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Jeff Beck, David Gilmour, Stevie Ray Vaughan, Ritchie Blackmore e The Edge

Carlos Albuquerque, em O Globo

Eric Clapton posa com a Fender Stratocaster de 1956 que usou nos discos “Just one night”, “Backless” e “Slowhand”, durante um leilão beneficente em Nova York, em 1999 (foto: AFP)

Eric Clapton posa com a Fender Stratocaster de 1956 que usou nos discos “Just one night”, “Backless” e “Slowhand”, durante um leilão beneficente em Nova York, em 1999 (foto: AFP)

Nile Rodgers quase perdeu o rebolado. Em outubro do ano passado, o mitológico guitarrista do grupo disco Chic — de sucessos como “Good times”, “Everybody dance” e, mais recentemente, “Get lucky”, com o Daft Punk — pegou um trem em Nova York, onde mora, rumo a Connecticut, onde tem um estúdio. No percurso, recebeu uma ligação de um amigo, que luta contra um câncer. Distraído com a conversa, quase perdeu a sua parada. Afobado, desceu do vagão e pegou um táxi. Assim que sentou, sentiu falta de algo: havia deixado para trás sua Fender Stratocaster — a igualmente mitológica guitarra, que está completando 60 anos. O músico sentiu medo, um medo devastador. “Não consigo pensar na vida sem aquele instrumento, que me acompanhou em tantos shows e tantas gravações”, contou ele em seu blog. Desesperado, à beira de um ataque de nervos, voltou à estação e durante horas tentou, em vão, encontrar a guitarra. Até que um policial sugeriu que ele fosse ao depósito do metrô, onde são guardadas as coisas esquecidas nos trens. “E lá estava ela, ao lado de um skate, no seu estojo, intocada. Meu coração se encheu de júbilo, de alegria, de felicidade”, relatou. Rodgers tinha encontrado a guitarra que chama, carinhosa e apropriadamente, de The Hitmaker (algo como A Criadora de Hits).

A história, que repercutiu imensamente nas redes sociais, mostra o tipo de paixão que a Stratocaster desperta entre os músicos e a curiosidade que atrai no público em geral. Criado pelo americano Leo Fender em 1954, o instrumento se tornou, ao longo dos anos, o maior ícone do rock, graças ao seu uso por superastros como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Jeff Beck, David Gilmour, Stevie Ray Vaughan, Ritchie Blackmore e The Edge, entre muitos outros.

Celebrada graças ao seu design cheio de estilo e à sua sonoridade única, a Fender Stratocaster — amada no Brasil por craques como Lulu Santos e Roberto Frejat — tem sua importância resumida numa declaração do próprio Clapton: “Se pudesse voltar no tempo e encontrar Leo Fender, diria a ele: ‘Você realmente criou algo que é insuperável’”.

— O fato de celebrarmos a importância da Stratocaster em 2014 mostra como ela venceu, brilhantemente, a barreira do tempo. Trata-se, sem dúvida, de um dos instrumentos mais marcantes da História — afirma o jornalista Tom Wheeler, ex-editor da revista “Guitar Player” e autor de um compêndio sobre o instrumento, o livro “The Stratocaster chronicles”, lançado em 2004 e em cuja apresentação Clapton deu a declaração acima. — Sua construção, seus recursos e sua sonoridade revelam um momento único de inspiração.Mas quando foi vista pela primeira vez em público, durante uma apresentação de Buddy Holly, no programa de televisão de Ed Sullivan, em dezembro de 1957, a Fender Stratocaster parecia algo do outro mundo. Numa época em que a concorrência oferecia instrumentos que, em sua maioria, pareciam nada mais do que violões elétricos, alguns detalhes causaram espanto e até dúvida se aquilo era mesmo uma guitarra, como seu desenho único (com um recorte duplo), sem buracos, a fixação dos captadores, as tarraxas só de um lado do braço, e a alavanca de vibrato, para “torcer” as cordas.

— Até ali, todas as guitarras repetiam o formato de um violão. A Stratocaster, não. Ela causou espanto quando surgiu porque tinha uma coisa futurista, já representando toda a modernidade que o instrumento poderia trazer — conta Frejat, que tem quatro exemplares em casa. — Sua versatilidade permite que cada músico demonstre nela a sua individualidade, a sua voz. Foi por isso que ela se tornou o maior ícone do rock. Se eu só puder levar uma coisa para uma ilha deserta, levo uma Stratocaster.

E, de 1954 para cá, não faltaram individualidades ao corpo da Strato. Foi o som dela que marcou a surf music dos Beach Boys e de Dick Dale, no começo dos anos 1960. Foi empunhando uma que Bob Dylan fez sua famosa virada elétrica, no festival de Newport, em 1965. Foi com um modelo desses que Hendrix subverteu o hino americano, no festival de Woodstock, em 1969, Clapton gravou o clássico “Layla”, em 1970, e Ritchie Blackmore fez o imortal riff de “Smoke on the water”, em 1971. E, num pulo no tempo, foi com uma Stratocaster que John Frusciante, dos Red Hot Chili Peppers, brilhou em “Californication”, em 1999, e John Mayer tocou no funeral de Michael Jackson, em 2009.

— Nada foi igual ao Hendrix tocando com uma Stratocaster. Ele apontou os caminhos pelos quais todos os outros passariam – afirma Lulu Santos, que aparece com uma na capa do seu clássico álbum “O ritmo do momento”, de 1983. — É um instrumento incrível, que te dá uma grande flexibilidade.

— Comecei minha carreira tocando uma Fender Stratocaster, e o primeiro sucesso dos Titãs, “Sonífera ilha”, tem um som bastante marcante dessa guitarra — conta o músico e colunista do GLOBO Tony Bellotto. — Quando meus filhos decidiram aprender a tocar, não hesitei em presenteá-los com Stratos, pois o som delas é inigualável.

Já o guitarrista e produtor Sérgio Diab, que toca com Tony Platão, não teve dúvidas: chamou seu recém-lançado disco de estreia de “Stratoman” e no encarte faz um agradecimento a Leo Fender por criar o que chama de “fiel escudeira”.

— Não me sinto confortável com nenhuma outra guitarra. A Stratocaster é como parte do meu corpo. Ela é a minha voz — resume.

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