Meu dissabor é com o país, que não tem prioridades, diz Bernardinho

Marcel Merguizo, na Folha de S.Paulo

Bernardinho, 54, não relaxa. É preciso convencê-lo a se sentar na quadra para conversar. Ele prefere ficar em pé, agitado, como nos jogos.

Segundo ele, nem dormir tem conseguido devido às preocupações com a seleção, com o vôlei e com o Brasil.

Por cerca de 25 minutos, sentado no piso do Maracanãzinho, no Rio, o treinador falou à Folha e criticou a falta de planejamento do Brasil na organização da Copa e das Olimpíadas, disse que o país vive uma crise de valores morais e éticos e que, no futuro, pode entrar para a política.

Muitas vezes, nem espera o fim da pergunta para começar a respondê-la. Às vésperas de sua décima final seguida de Superliga, podendo ganhar, à frente do Rio, seu nono título, contra o Sesi, no domingo, Bernardinho demonstra que suas preocupações vão além das quadras.

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Daniel Marenco/Folhapress
Bernardinho dá entrevista no ginásio do Maracanãzinho, no Rio
Bernardinho dá entrevista no ginásio do Maracanãzinho, no Rio

Folha- Você chega à décima final consecutiva de Superliga…
Bernardinho -Claro que quando você faz um projeto para um time de alto rendimento é para vencer. Mas o projeto iniciou há 17 anos e tem um objetivo maior: usar o voleibol como um elemento de transformação. E tem duas jogadoras nesta final que começaram no projeto em Curitiba. Suelle, lá no Sesi, e Robert, aqui. Isso é o que dá consistência. Não é o resultado pelo resultado em si. Talvez seja a parceria mais duradoura do esporte mundial.

Vai continuar na seleção masculina e com a equipe do Rio?
Me dá tanto prazer e tanto orgulho que é difícil deixar. Só vou deixar a Unilever quando ela me deixar.

O técnico José Roberto Guimarães acabou de deixar Campinas para ficar apenas com a seleção feminina. Você pretende fazer o mesmo?
Passa pela cabeça. Tenho o Rubinho, meu assistente direto na seleção, que está o tempo todo me monitorando de informação. Fico 24 horas por dia pensando em uma coisa e na outra. Ontem [quarta-feira], por exemplo, estava em contato com alguns jogadores estudando coisas de seleção, na véspera da decisão da Superliga. Entendo que é um problema enorme, ainda mais no caso da seleção masculina, na qual temos um problema muito mais sério de renovação, uma equipe que não tem a força da feminina no voleibol mundial. Por isso, tenho que ir com calma para avaliar que decisão tomar: vou conseguir transformar a seleção ou vamos perder força neste grande projeto? Uma coisa é certa: vou me dedicar mais tempo à seleção, conseguindo um pouco mais de liberdade, que já tenho, com um pouco menos de assiduidade na Unilever. Estou pensando em um formato para ser correto.

Essa mudança vai acontecer já no meio deste ano?
Sim. Acaba aqui e vamos mergulhar pensando na Liga Mundial e no Mundial. Infelizmente, é em cima. O calendário continua irracional e mal feito, por que não há uma conjugação correta entre seleção e clube. Jogadores saem dos clubes em meados de maio e uma semana depois começa a Liga Mundial. Nos últimos seis anos não tive pré-temporada nenhuma com a seleção. E o que nos diferenciava muitas vezes dos adversários era a preparação. E perdemos esse diferencial. Deveria ter uma parada para preparação. Mas a questão de ter mais tempo para a seleção já está sendo pensada. Domingo tem a final e segunda-feira já estarei em Saquarema, não com a seleção completa ainda, o que também é muito ruim para nós.

Qual sua opinião sobre a formação da Associação de Clubes?
A associação é uma iniciativa muito bem-vinda. Não fui convidado para opinar em um primeiro momento. Mas há de haver uma conversa com a Confederação. Personagens históricos têm que estar presente. Não que o momento é esse e temos que fazer. O momento dos clubes é quando os clubes quiserem que seja. Não é agora porque a CBV passou por uma crise muito séria de gestão. A ideia da nova gestão da CBV -e falo isso por conhecer o Renan, que é uma das pessoas que está ali- é dar mais espaço e poder para os clubes. Todos nós queremos isso, que os clubes tenham mais condições do ponto de vista comercial e de marketing, o que não acontecia na gestão anterior. Se for o caso de bater de frente com a CBV, que seja com argumentos. Ainda não houve essa conversa entre CBV e a Associação. Na minha visão, ela foi feita de forma apressada. Mais gente deve estar na mesa para debater. Nosso clube pode entrar, mas depois de um diálogo mais amplo, não na correria.

Você gostaria de ter um cargo mais gerencial na associação?
Não. Colaborar, participar, sim.

Se tivesse que sugerir algo, o que seria?
Um diálogo mais amplo com atletas, treinadores e confederação.

Associação com direito a voto na CBV?
Com certeza. E acho que esse é o caminho que a CBV está tomando. Conversando com Renan, que é meu interlocutor, essa é a ideia deles, que os clubes tenham mais participação. Não que uma liga independente seja uma ideia ruim, não é. Mas da forma correta, não às pressas.

Seria viável a CBV cuidar apenas das seleções e uma liga independente da Superliga?
Poder ser um caminho, um futuro. Até porque tem clubes inadimplentes, que não poderiam participar. E que bandeira vão levantar se sequer cumpriram compromissos anteriores?

As denúncias contra a CBV ocorreram há quase três meses. Já houve alguma mudança na confederação?
As mudanças estão acontecendo, claramente. Acompanho de perto. Talvez não na velocidade que nós gostaríamos. Mudanças estão em curso. Práticas do passado não acontecem mais.

Algum exemplo?
O caso da auditoria independente ter sido chamada, abrir uma concorrência para a área de comunicação, que, segundo as denúncias, eram elevadas demais. Debates com parceiros, em relação a interrupção de contratos que foram colocados em dúvidas. Aí a Justiça vai julgar a legalidade de tudo.

Você disse anteriormente que ou as coisas mudavam ou você estaria fora.
Sem dúvida.

Ou seja, você não está fora?
Não. Se eu acredito nas pessoas, eu continuo. Quando eu disse que me senti traído, era claramente o sentimento que se apoderou de mim. Porque fiz alguns alertas para a gestão anterior de coisas que eu via que não estava muito corretas. E não deram qualquer importância às minhas opiniões.

Fez isso muitas vezes, há quanto tempo?
Há alguns anos. Uma ou duas vezes em que imaginei ou não entendia o porquê daquilo. Fiz alerta e nenhuma reação aconteceu. Foi em relação à formação de uma empresa, e fizeram alguma justificativa, eu ouvi, não concordava, mas segui em frente.

Qual seu papel daqui para frente?
Estão estabelecendo uma série de padrões de controle que talvez nos dê mais tranquilidade em relação à transparência maior. É o mais importante. Não quero ser o responsável. Sou apenas um elemento dessa comunidade, um treinador. Quero continuar sendo treinador com confiança nas práticas que estão acontecendo ali dentro. Se coisas erradas acontecerem ou se voltarmos às práticas que não estão em conformidade com o que acreditamos que são as formas corretas de acontecer, sinceramente, eu cheguei ao meu limite. É inaceitável e inadmissível. É um esporte lindo de pessoas que se dedicam, que suam e se matam aqui dentro.

E os jogadores…
Os jogadores às vezes me cobram, como muitas vezes eu cobrava deles uma postura. Dizia que eles estavam pleiteando prêmio demais ou algo dessa natureza que eu debatia com os jogadores. E eles me cobram: “pô, Bernardo, você brigava com a gente por causa da postura e agora essas coisas acontecendo”. Desculpa, eu brigava por coisas que eu achava que eram certas. Não porque imaginava que tivesse mais dinheiro para lá ou para cá. Eu não tinha ideia disso. Sou quase um prestador de serviço, nunca fui convidado a participar mais ativamente da gestão.

Não?
No gabinete do presidente estive apenas uma vez na gestão anterior. Na sede da CBV na Barra, umas dez vezes em 20 anos. Tinha pouca participação no dia a dia. Minha questão era com voleibol mesmo.

Falou com Ary Graça nos últimos meses?
Não.

E com Laranjeiras, o novo presidente?
Algumas vezes. Recentemente, não. Mas na época das mudanças tivemos várias reuniões.

Ele é mais aberto?
Não que o Ary não fosse, mas não falávamos de gestão. Só de seleção, convocação. Agora, com a crise, com as acusações, e todas fundamentadas… Aliás, até surgiram coisas em torno que me desagradaram. Atribuíram a mim coisas que eu não tinha. Leviandade de alguns. Dizer que o Bernardinho é o homem por trás [das denúncias] é de uma irresponsabilidade única. Eu soube de uma única coisa, eu fui lá disse o que tinha para dizer e ponto final. Depois vieram coisas que eu desconhecia.

Você também é bem crítico ao esporte olímpico no Rio.
Sem dúvida.

Como você avalia a atual situação da cidade olímpica?
A crítica é muito mais ampla do que à cidade olímpica ou o país da Olimpíada. É um país sem prioridades, é um país sem planejamento, onde nada é respeitado. Orçamentos não são respeitados, os prazos não são respeitados e não há prioridade. Meu dissabor e minha frustração é com o país, não especificamente com uma coisa que para mim é muito importante mas quando pensamos em país ela é quase irrelevante. Temos coisas sérias e importante a criticar e tentar mudar.

Como o quê, por exemplo?
Primeiramente no que diz respeito à ética, valores morais e éticos são a crise maior que a gente vive. Segundo é estabelecer prioridades e trabalhar por elas. Aqui tudo é possível. A permissividade é absoluta. A Copa está a 50 dias e temos o que temos, a Olimpíada a dois anos e é aquela história de dar um jeito depois. Um projeto onde você tem todos os níveis de governos mais a iniciativa privada é algo que, no nosso país, é quase que inadministrável. Difícil você conseguir organizar isso tudo, não é simples o processo, me preocupo com isso mas me preocupo com o país. É um país que precisa dar uma guinada no que diz respeito ao seu futuro. Se não, vai continuar essa história de futuro, futuro, futuro e o futuro não acontece. A gente vê as coisas se degenerando em todas as áreas.

A organização da Copa e da Olimpíada…
São reflexos do país que nós vivemos. Mal organizado de cima a baixo. E se de cima você não tem o exemplo, debaixo você não tem a resposta correta.

É isso que fez você entrar na política?
Tive esse convite. Nunca pensei ou imaginei. Um projeto, algo que eu possa participar no executivo, no sentido de ajudar naquilo que eu tenho conhecimento: OK. Claro, às vezes as pessoas, no momento que vive o Brasil, buscam um salvador. Longe de eu ser salvador ou ter conhecimento político para transformar o país. Mas precisamos de pessoas do bem, pessoas competentes que vejo por aí e poderiam mergulhar um pouco mais nisso e transformar. Mas as pessoas vão se afastando porque é um ambiente onde não há conforto e tranquilidade para trabalhar. O ambiente político, hoje, não inspira as pessoas. Não confio em rótulos, mas em pessoas. E temos que tentar dar forças para elas para termos representantes legítimos. Não sei se não tenho a coragem ou a capacidade para estar lá. Me faltou um pouco disso tudo para realmente abraçar essa história quando o convite foi feito. No futuro, me preparando um pouco mais, em uma oportunidade mais adequada, eu poderei pensar com mais calma.

Você vai apoiar publicamente candidatos ao governo e à presidência? Já está decidido?
Pretendo, no momento correto vou a público dizer. Como cidadão, apoio uma mudança. Vou apoiar claramente as pessoas. Governador não tenho candidato ainda. Vamos aguardar o que virá pelo Rio de Janeiro. Para presidente, muito claramente vou apoiar o Aécio [Neves]. Sou um liberal, acredito que as coisas possam caminhar por aí.

O PSDB deve ter candidato próprio no Rio?
Sou um leigo na política, absolutamente. Conheço muito pouco. Não sei como as coisas acontecem, se seria mais conveniente. Independentemente de ser PSDB ou Aécio, vou apoiar esse alguém se for uma pessoa que eu confie, acredite, que possa somar para o Rio de Janeiro.

Você mostrou preocupação com o time de vôlei, com a seleção, com a política, com a Olimpíada, a Copa, o país. Você dorme bem?
Não.

Você dorme quantas horas por dia?
Depende. Cinco, três. Nenhuma. Estava doente anteontem [terça-feira], tomei um remédio e dormi um pouco mais. Uma infecção intestinal terrível.

Quando você não dorme, qual o motivo?
Eu penso muito. Hoje me preocupo com o futuro da minha cidade, do meu país, das minhas filhas pequenas [Júlia, 12, e Vitória, 4]. Olha a violência na nossa cidade, a falta de perspectiva.

Você sonha ou tem pesadelos?
Sonho com coisas muito reais. Acordo preocupado. Misto de sonho e pensamento, desde a seleção até o convite para a política, quando fiquei em dúvida realmente. Tinha momentos de angústia na madrugada.

Daniel Marenco/Folhapress
Bernardinho, que disputa sua 10ª final da Superliga, durante entrevista no Rio
Bernardinho, que disputa sua 10ª final da Superliga, durante entrevista no Rio

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