Que país? É este

bandeira-do-brasilPaulo Brabo

Em 2010, querendo me desiludir da Itália, um amigo italiano me mandou o link de um vídeo, feito dois anos antes, num comício na cidade de Treviso. O vídeo mostrava um discurso de Giancarlo Gentilini, naquela ocasião prefeito da cidade, em que o sujeito escarra opiniões de um ódio racial assombroso e recebe o aplauso unânime da multidão.

Lembro de ter pensado: isso nunca aconteceria no Brasil.

– Quero a revolução contra os acampamentos dos nômades e dos ciganos! – exige Gentilini no vídeo do comício. – Dois desses acampamentos aqui em Treviso foram destruídos por mim, e agora não resta nenhum. Quero eliminar os filhos dos ciganos, que vêm roubar os nossos anciãos.

Aquele quero eliminar os filhos dos ciganos, seguido da sua onda de aplausos, cortou-me verdadeiramente metade das ilusões, não só a respeito da Itália, mas do ser humano.

E o discurso corria inteiro por essa linha.

A respeito dos imigrantes ilegais, Gentilini disse: “seria o caso de vesti-los de lebre, para fazer pim pim pim com o fuzil”. Famosamente, o político escolheu ainda a expressão “limpeza étnica” para fomentar a expulsão dos homossexuais da sua cidade. Sobre os que se aproveitam de tumultos para depredar a propriedade alheia, sentenciou: “nenhuma piedade; deveriam vir fuzilados como no tempo da guerra.”

Enquanto eu via Gentilini dizer esse tipo de coisas em seu discurso, lembro de ter pensado (e dito): isso nunca aconteceria no Brasil. Mesmo se um político pensasse desse modo, não seria estúpido de dizer num comício, em praça pública. Não com gente filmando.

É claro, isso foi em outra vida, em 2010. É raro que eu me engane, mas quando acontece é da forma espetacular que você está vendo. Passados quatro anos, o Brasil tratou de eliminar a metade restante das minhas ilusões.

Ruralistas, linchadores de rua, matadores de índios, expulsadores de sem-terra, comentaristas de tv, articulistas da Veja, deputados, fan pages do Facebook – o Brasil de 2014 ecoa com o tom de voz e o discurso fascista do Giancarlo Gentilini: aquele mesmo discurso que eu cria que o público brasileiro, obcecado que somos com a cordialidade e o bom-mocismo, não estaria jamais disposto a engolir. “Bandido bom é bandido morto” é coisa que se dizia entre um comício e outro. Em 2014, leigos e políticos brasileiros abandonaram esse recato.

Não é que o Brasil tenha em poucos anos mergulhado em trevas; aconteceu apenas que a nossa face fascista veio para a luz.

* * *

Lembro que depois de assistir ao vídeo do comício em Treviso perguntei ao meu amigo italiano como era possível existir gente caindo no discurso fascista em pleno século vinte e um. Como não ver a semelhança entre as exaltações de Gentilini e as de Mussolini? Entre as suas soluções e as soluções de Hitler?

Na Itália a crise econômica e o desemprego tem acentuado as tensões raciais ao longo da última década. Os imigrantes (especialmente africanos, chineses e muçulmanos) são muitas vezes vistos como os caras que vem de fora para roubar os empregos dos nacionais, comprar propriedades que sempre pertenceram a boa gente italiana, manchar a cultura com a sua desreligião e mamar nas tetas do Estado.

Não são nem de longe todos os italianos que veem as coisas desse modo, mas os fascistas nunca foram conhecidos por falar pouco, com pouco entusiasmo ou em voz baixa. Giancarlo Gentilini é um dos líderes do movimento separatista Lega Nord/Liga Norte, que propõe a independência do norte da Itália: uma versão mais organizada daquele ideal reacionário brasileiro que sonha com a independência do sul produtivo porque está convicto de que um nordeste de aproveitadores puxa o país continuamente para baixo.

A verdade é que os admiradores de Giancarlo Gentilini não ignoram a semelhança entre o seu discurso e o de Mussolini. Eles na verdade o admiram precisamente por causa disso: exatamente como os brasileiros que falam com nostalgia dos anos da ditadura porque “naquele tempo pelo menos havia ordem nas ruas”.

Foi essencialmente a crise econômica que fez o fascismo mostrar a sua cara de verme, como se fosse coisa aceitável, na Itália contemporânea. Se o neofascismo brasileiro encontrou ocasião para fazer a mesma coisa, provavelmente foi devido ao efeito acumulado de três mandatos presidenciais do PT.

O governo do PT, apesar de inúmeras falhas de projeto e de execução, acabou trazendo para o centro da discussão nacional tensões que existiram por séculos à margem das discussões oficiais: a desigualdade na distribuição de renda e de terras, os direitos dos índios, o desequilíbrio racial, a tendência do livre-mercado a produzir a oligarquia, o direito de propriedade a recursos universais, o círculo vicioso da pobreza e da exclusão.

Como todos os governos com viés de esquerda, o PT tomou por missão criar ferramentas que lembrassem a todos que ninguém é melhor do que ninguém. Uma missão quixotesca, não há como negar, tornada ainda mais embaraçosa quando assumida por uma instituição ou um governo, mas por outro lado todas as causas bem-intencionadas parecem utópicas e ridículas até produzirem alguma transformação.

Porém treze anos da ênfase ninguém é melhor do que ninguém o fascista que há nos brasileiros não foi capaz suportar em silêncio. O discurso fascista – seja o de Hitler, o de Mussolini, o de Giancarlo Gentilini ou o dos ruralistas brasileiros – insiste no oposto. Alguns são melhores do que os outros! Há uma tremenda diferença entre nós e eles! – berram os fascistas de todas as eras. Nós somos gente de bem; eles são uma ameaça aos nossos valores e devem por isso ser eliminados.

“Nós” somos sempre nós, os fascistas/gente de bem que estamos falando. Os “eles” a serem eliminados são escolhidos de acordo com a demanda local. Para Hitler eram os judeus. Para Giancarlo Gentilini são imigrantes, ciganos, africanos e muçulmanos. Para os neofascistas brasileiros são os índios, negros, homossexuais, nordestinos, sem-terra. A letra muda, a música é fúnebre e é a mesma.

* * *

Se você admira um canalha como Gentilini ou como seus correligionários brasileiros, meu amigo, que posso te dizer.

Há um certo fascínio em ver alguém reconhecer publicamente a sua mesquinheza e seu desprezo pelo próximo, e assinar o seu testemunho com a notícia de que não está disposto a mudar e não vai. O canalha deliberado e esclarecido é uma visão infernal mas justamente por isso irresistível; não é inconcebível que sua feiura responda pelos seus convertidos. O que o fascista acha necessário dizer continuamente é: “e daí? Eu sou uma caricatura e assumo; nego a minha humanidade e a do próximo, o que você tem com isso”.

Não tenho nada com isso, além do inferno que você quer fazer vazar da sua vida para a minha e para a dos outros. Um lado mesquinho todos temos, mas o inferno é como o lixo: cada um deveria conter o avanço do seu.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Que país? É este

1 Comentário

  1. Vagner disse:

    Essa reação dos neofascistas brasileiros exige a união de todos os verdadeiros democratas desse país , independente de opção partidária, credo religioso ou opção filosófica.

Deixe o seu comentário