Da salvação e suas teorias

salvacaoEd René Kivitz

Uma casa se faz com tijolos, mas um amontoado de tijolos não é uma casa. Da mesma maneira, teologia (cristã) se faz com textos bíblicos, mas um amontoado de versículos não resulta necessariamente uma verdade bíblica.

Fazer teologia é buscar sentido. Simplesmente listar versículos, coisa que se pode fazer facilmente com uma boa concordância bíblica, não é suficiente para chegar ao entendimento do que a Bíblia ensina a respeito de um tema pesquisado. Mais do que as citações, é necessário discernir a lógica integral dos textos, isto é, como os textos se relacionam entre si, como se complementam, como se harmonizam em suas aparentes contradições, e como se aplicam em diferentes contextos históricos, culturais e sociais.

Afinal de contas, de acordo com 1Coríntios 11, as mulheres podem ou não podem falar nas igrejas, devem ou não devem usar véu nas reuniões públicas? Uma vez que aconselha o escravo fugitivo Onésimo se entregar ao seu senhor Filemon, podemos deduzir que o apóstolo Paulo era favor do trabalho escravo? Já que toda autoridade civil é estabelecida por Deus, conforme Romanos 13, os cristãos estão proibidos de votar na oposição, e também devem ficar de fora de todo e qualquer protesto e movimentos de reivindicação de direitos ou busca de avanços sociais, como a greve, por exemplo?

Esses poucos exemplos servem para demonstrar que juntar três ou quatro versículos não basta para um bom entendimento do que a Bíblia realmente ensina.

A respeito do tema da salvação ocorre o mesmo. Você pode fazer uma lista de versículos que levam a crer que Deus oferece a salvação para todas as pessoas, mas cada uma deve escolher se quer ser salva ou não quer, sendo que todo aquele que crê será salvo, e o que não crer já está condenado, como afirmou o apóstolo João. Mas você pode fazer outra lista de versículos que induzem a crer que Deus escolhe aqueles que serão salvos, e isso para demonstrar sua misericórdia após o fato de toda a humanidade, que estava incluída no primeiro casal, ter rejeitado o paraíso e quebrado a comunhão com o Criador. Mas isso não é tudo. Você pode fazer ainda uma terceira lista, e encontrar muitos versículos que sugerem que a obra de Jesus Cristo é suficiente para a salvação de toda a raça humana, pois assim como uma só transgressão resultou na condenação de todos os homens, assim também um só ato de justiça resultou na justificação que traz vida a todos os homens, como ensinou o apóstolo Paulo aos Romanos.

Em termos simples, você tem pelo menos três opções para construir sua teologia da salvação. As três grandes teorias teológicas a respeito da salvação (soteriologia) são o arminianismo, que defende o arbítrio humano como determinante para a salvação, o calvinismo, que advoga a soberania de Deus, detentor da prerrogativa de escolher ou eleger aqueles que serão salvos, e o universalismo, que acredita que a obra de Jesus Cristo, em sua morte e ressurreição, é suficiente para a redenção não apenas de toda a humanidade mas também de toda a criação.

Mas essas são apenas teorias, isto é, tentativas de explicar a relação entre Deus e sua criação, levando em conta o singular evento Jesus Cristo. Como bem disse C.S. Lewis, “as teorias sobre a morte de Cristo não são o Cristianismo, mas apenas uma explicação de como essa morte funciona”. Lewis acreditava que todos os cristãos estavam de acordo que “a redenção em si mesma é infinitamente mais importante do que todas as explicações a respeito dela que os teólogos tenham elaborado”. Além disso, também pensava que todos os cristãos “admitiriam sem hesitar que nenhuma explicação jamais chegaria a fazer justiça à realidade”. Por essa razão, acreditava que todas as teorias que se construam para explicar como Cristo, mediante sua morte e ressurreição, possibilita a redenção “são inteiramente secundárias: meras imagens ou diagramas que podem ser deixados de lado se não nos ajudarem, e que não devem ser confundidos com a realidade”.

Pessoalmente, das três principais opções: calvinismo, arminianismo e universalismo, tenho simpatia pela última. Mas não me atrevo a dizer que essa teologia é a correta e a única que pode ser sustentada biblicamente, até porque na história do pensamento cristão sempre foi a menos popular. Sempre que encontro um texto bíblico que me ajuda a defender o universalismo, encontro outros tantos que o negam. O mesmo ocorre com as outras teorias. Cada lista de versículos que fundamenta uma teologia deixa de fora textos bíblicos que apontam em outra direção.

Mas há algumas coisas a respeito das quais não há muita discussão, onde as três grandes teorias da salvação estão de acordo. Todas elas afirmam que qualquer que seja o destino eterno da humanidade, a morte e a ressurreição de Cristo são o critério divino de julgamento, e, nesse caso, todo aquele que estiver em Deus terá ganho esse direito porque a história conheceu a cruz do Calvário de Jesus e a ressurreição de Cristo que deixou vazio o túmulo no jardim de José de Arimatéia.

Outra coisa importante, é que todo aquele que ouve o evangelho deve responder a ele positivamente na forma de arrependimento e fé. A experiência do reino de Deus, já aqui e agora, implica não apenas perceber sua realidade como também o coração capaz de viver dentro de seus limites e imperativos.

As três grandes teorias da salvação se esforçam por conciliar duas dimensões aparentemente excludentes do caráter de Deus: justiça e amor. Um Deus justo não pode deixar de dar consequência ao pecado. Um Deus amor não pode abrir mão de sua criação. Foi o que aprendi desde minha mais remota infância, quando fui ensinado a cantar a respeito de Deus: “em ti concilia-se a santa justiça que não pode a culpa deixar sem castigo, com a compaixão que por graça recebe e exime de culpa o réu pecador”.

Finalmente, todas as teorias afirmam que a salvação é pela graça, e não se baseia em qualquer mérito humano – a criação e a redenção são expressões da absoluta auto-determinação de Deus, jamais afetada ou condicionada por qualquer decisão ou interferência humana.

Sigo, portanto, proclamando o evangelho do reino de Deus, o evangelho da graça de Deus, e convocando pessoas ao arrependimento e à fé: dizer “sim” ao convite/convocação de Jesus, que a todos interpela dizendo “segue-me”. Sigo fazendo discípulos, ensinando-os a guardar todas as coisas que Jesus nos ordenou. Sigo proclamando a velha história da cruz, o poder do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, e a esperança da ressurreição. E enquanto sigo, não apenas intercedo pelos homens, mas caminho alinhado ao coração de Deus, que “deseja que todos os homens se salvem”, e por isso espero, sim, encontrá-los a todos no céu.

Fonte: Facebook

Comentários

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2 Comentários

  1. Rafael disse:

    Também (obviamente) não sei qual das 3 teorias é a (mais?) correta, mas desejo que seja o universalismo.

  2. Brisa disse:

    O universalismo é a mais atrativa porque aparentemente consola, porém não pode ser a teoria correta porque não existe salvação sem fé em Jesus Cristo. Fico entre o arminianismo e o calvinismo. O ponto forte do calvinismo é, sem dúvidas, a soberania de Deus que nos faz refletir sobre a nossa pequenez e miséria.

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