Meninas criam app para ajudar vítimas de exposição sexual na web

Larrisa (atrás, à direita) e as participantes do For You / Foto: Arquivo pessoal

Larrisa (atrás, à direita) e as participantes do For You / Foto: Arquivo pessoal

Idealizado por cinco jovens paulistas, projeto oferece informação e conforto a vítimas de vazamento de fotos íntimas pelo celular. Aplicativo concorre a prêmio de US$ 10 mil em concurso internacional apoiado pelo Google

Thiago Jansen, em O Globo

RIO – Diante da ocorrência de um grande número de casos de constrangimento a meninas após o vazamento de fotos íntimas na internet em Santos, São Paulo, cinco jovens entre 16 e 18 anos decidiram usar a própria tecnologia que possibilita o abuso contra ele. Juntas, as amigas de colégio Camila Ziron, Estela Machado, Larissa Arruda, Letícia Santos e Hadassa Mussi idealizaram um aplicativo para servir como espaço seguro para que jovens alvo da prática possam entrar em contato com outras vítimas, buscar informações e discutir temas relativos à pornografia de vingança. Com um protótipo já pronto, o aplicativo brasileiro For You participa do concurso internacional Technovation Challenge e concorre a US$ 10 mil para o seu financiamento.

— A tecnologia é um suporte para um futuro promissor, e percebemos que criar um aplicativo seria uma grande experiência. Assim, resolvemos encarar esse desafio diante dos casos cada vez mais frequentes em Santos — afirma Larissa Arruda. — A importância do aplicativo é mostrar que, se os homens criam ou usam apps para humilhar a nós, mulheres, também podemos revidar e usar esses serviços para nos empoderar.

Em um vídeo disponibilizado na página do projeto no Facebook, Larissa e suas amigas explicam que pretendem, por meio da ferramenta, distribuir informações para que as vítimas da pornografia de vingança possam aprender a se proteger legalmente desse tipo de abuso. Além de servir como uma ponte virtual entre jovens traumatizadas pela prática, o aplicativo também visa a estimular a organização de grupos de discussão presenciais para combater práticas como bullying e misoginia entre jovens, por meio de embaixadoras locais.

— As meninas poderão usar o aplicativo para dividir suas histórias, anonimamente ou não, porque ouvir histórias das outras ajuda a saber que você não é a única vítima. Elas deverão preencher um formulário com o nome e a idade dos agressores para que isso vire uma denúncia futura. — detalham elas no vídeo. — O aplicativo também serve como ferramenta de emergência para meninas que estejam sofrendo bullying e precisem conversar com alguém

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Com a popularização de smartphones e o uso cada vez mais intenso das redes sociais e aplicativos de troca de fotos e mensagens instantâneas, como o WhatsApp, práticas como a pornografia de vingança têm se tornado questões preocupantes entre pais, educadores e os próprios jovens.

Em novembro de 2013, o caso da jovem Júlia Rebeca, do Piauí, intensificou a discussão sobre esse tipo de abuso: após ter um vídeo íntimo compartilhado na internet, a adolescente de 17 anos foi encontrada morta em seu quarto, vítima de suicídio. Horas antes, a jovem se despediu em seu perfil no Twitter.

Segundo levantamento recente da ONG Safernet Brasil, que atende a vítimas da pornografia de vingança, os casos desse tipo de abuso mais que dobraram nos últimos anos no país: em 2013, a organização atendeu 101 vítimas, número 110% maior do que o de atendidos em 2012. A maioria dos pedidos de ajuda (77%) vem de mulheres, entre 13 e 15 anos.

Também no final do ano passado, o caso da estudante de Letras da USP Thamiris Sato, de 21 anos, movimentou as redes sociais: sensibilizada com o caso de Júlia, ela decidiu denunciar publicamente o ex-namorado, também estudante da USP, por ameaçá-la e publicar imagens íntimas suas nas redes sociais. Em entrevistas, Thamiris disse também ter pensado em suicídio devido à vergonha que teve diante do abuso que sofreu .

Nenhuma das criadoras do For You já foi vítima da pornografia de vingança. No entanto, Larissa afirma que durante o desenvolvimento da aplicação ela e as amigas tiveram contato com algumas meninas que já passaram por essa experiência, o que as incentivou a avançar no projeto:

— Ao saberem da nossa iniciativa, elas nos procuraram para contar suas histórias de maneira anônima. Foi incrível poder lhes dar apoio, mesmo antes de o serviço estar totalmente pronto.

Na iniciativa, as cinco amigas de Santos estão sendo orientadas por Juliana Monteiro, que trabalha em uma plataforma para facilitar a mobilização feminista autônoma com a diretora nacional do concurso Technovation Challenge, Camila Achutti.

CONCORRÊNCIA COM 842 EQUIPES

Criada pela organização Iridescent, a competição tem o apoio de gigantes da tecnologia, como o Media Lab, a Google e o Twitter, e coloca meninas estudantes do ensino médio de diversos países para desenvolver apps móveis que solucionem problemas das comunidades onde vivem. Na atual edição do concurso, o grupo de Larissa concorre com outras 842 equipes espalhadas pelo mundo — no Brasil, participam 350 meninas.

Após a conclusão dos protótipos participantes, os apps serão avaliados por um corpo de jurados especializados, e os melhores times participarão da competição final em São Francisco, na Califórnia, no dia 18 de junho. Se escolhido vencedor, o For You então receberá US$ 10 mil de suporte para o desenvolvimento de sua versão final, ganhando, enfim, vida.

Finalistas pelo Estado de São Paulo no Technovation Challenge, as jovens apresentam a proposta do seu app neste sábado, no Teatro Coliseu, em Santos, junto com mais outros nove projetos.

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