Descubra alguns motivos do ódio de paulistanos pela Copa do Mundo

Ativista Marina Mattar, durante protesto organizado pelo Comitê Popular da Copa, do qual é membro.

Ativista Marina Mattar, durante protesto organizado pelo Comitê Popular da Copa, do qual é membro.

Rafael Andery, na Folha de S.Paulo

Apesar de 1958. Apesar de 1962. De 1970 e 1994. De 2002. Apesar de Pelé e Garrincha, de Bebeto e Romário, de Ronaldo e Rivaldo. Apesar da “pátria de chuteiras” e de Nelson Rodrigues. De Neymar e de todos os outros pesares, muitos paulistanos não estão nem um pouco preocupados com o desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo.

Os motivos do descaso variam. Do preço do aluguel até o desprezo pela mercantilização do futebol, passando pela aversão ao esporte ou aos gastos impostos pela organização do evento, a verdade é que, a pouco menos de um mês da abertura da Copa, no Itaquerão, na zona leste, a competição não parece criar tanta expectativa quanto suas edições anteriores (exceto pelo álbum da Copa, que é um sucesso).

De fato, andando pela região próxima ao estádio do jogo inaugural, entre Brasil e Croácia, não se veem bandeirinhas balançando nas portas dos carros, ruas pintadas com a bandeira do Brasil ou bandeirões estendidos para fora das janelas. A menos de 3 km do Itaquerão, em frente ao parque do Carmo, contudo, finalmente uma referência ao mundial. E enorme.

Trata-se da Copa do Povo, uma ocupação de 7.800 pessoas espalhadas por um terreno de 150 mil m². Organizada pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), o acampamento teve o nome escolhido pelos invasores do terreno. O grupo era maioria no protesto anti-Copa da quinta-feira (22), que reuniu 15 mil pessoas, segundo a PM.

COPA DO POVO

Em uma das muitas barracas da ocupação, espremem-se em dois colchões Rita de Cássia, 35, seu filho Jefferson Melo, 15, Márcia Maria, 42, sua filha Ruth Emanuele, 2, e Luciana de Souza, 35, a dona da barraca.

Luciana é mãe de santo e faz bicos como segurança. Rita e Márcia costumavam frequentar o seu terreiro. As duas também têm barracas no local, mas todas dormem juntas para enfrentar o frio durante as noites.

“Eu costumava morar no centro de Itaquera, mas, de dois anos para cá, o meu aluguel passou de R$ 300 para R$ 700”, conta Luciana. “Aí não tive mais como ficar na minha casa.”

O mesmo aconteceu com Rita. “Esse pedaço de Itaquera era esquecido, aí foram inventar uma Copa, construíram um estádio do tamanho do mundo e tudo supervalorizou”, reclama a técnica em enfermagem, a única a não passar as noites na ocupação, já que trabalha como cuidadora de um idoso de 82 anos que sofre de Alzheimer.

“O que as pessoas esquecem é que a Copa só vai durar um mês”, diz. “Depois quero ver quem vai querer morar do lado do Corinthians X Palmeiras”, afirma Rita, são-paulina fanática, que não se conforma com o fato de Rogério Ceni ter sido deixado de fora da seleção.

“Agora pense, gastaram R$ 35 bilhões com essa Copa. Será que não dava para fazer moradia digna para bastante gente?” questiona, supervalorizando o custo total do evento, que gira em torno de R$ 26 bilhões.

“A gente não quer transformar isso aqui numa favela e não queremos nada de graça. Queremos que o governo ceda o terreno e então pagamos as moradias em prestações”, reivindica, sugerindo um modelo próximo ao utilizado pelo Corinthians na construção do estádio.

Apesar das reclamações, o sentimento geral das invasoras diante da Copa do Mundo é mais de indiferença do que de animosidade. “Quando a Copa era fora do Brasil todo mundo via os jogos na TV, e hoje vai continuar assim. A única diferença é que a gente vai ver os ônibus chegando”, diz Luciana. “Se bem que aqui nem eletricidade tem, então vai ser pelo celular e olhe lá.”

Manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto na Ponte Estaiada, na Marginal Pinheiros.

Manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto na Ponte Estaiada, na Marginal Pinheiros.

#NÃOVAITERCOPA

Quem não vai ver a Copa nem pelo celular é a ativista Marina Mattar, 24. Ela faz parte do Comitê Popular da Copa, responsável pela articulação do protesto do dia 15 de maio, na avenida Paulista, que acabou em confusão com a polícia e depredação de uma concessionária da Hyundai, uma das patrocinadoras do evento.

O grito “não vai ter Copa”, contudo, não faz muito sentido para Marina. Apesar de ser a palavra de ordem sensação dos protestos anti-Mundial, a ativista faz ressalvas. “A Copa já aconteceu. Vai dizer para as pessoas que foram removidas de suas casas que ela não aconteceu. Os jogos são só a cereja em cima do bolo”, afirma.

Para ela, o objetivo do grupo não é cancelar o evento: “Pedimos indenização para as famílias removidas, direito de trabalhar para os ambulantes e garantias de direito de manifestação”, argumenta. E admite que talvez exista um legado para a coisa toda. “O Brasil mostrará para a Fifa que as pessoas estão revoltadas com o modo como o evento é organizado e com a maneira como o futebol é tratado.”

AUTÔNOMOS FC

Quem também não está satisfeito com o modo como o futebol vem sendo tratado pela Fifa é o professor de geografia Kadj Oman, 31, o Mandioca. Kadj é tão corintiano quanto se pode ser. Ele usa a camiseta do clube em sua foto no RG e assina o documento como “Corinthians”.

“O futebol de hoje em dia transmite valores opostos àqueles que eu aprendi quando comecei a acompanhar o esporte”, diz. “Alguns atletas são tecnicamente bons, mas não transmitem paixão, transmitem individualismo. O cara perde um jogo importante e horas depois posta no Twitter uma foto feliz e sorridente jantando com a namorada.”

Nem mesmo a construção de um estádio novo para o Corinthians amansa as suas críticas. Muito pelo contrário. “O estádio não foi pensado primeiro para o clube, foi pensado primeiro para a Fifa. Apesar de ser confortável, ele é praticamente o oposto de um estádio de futebol. É um shopping center. Me sinto muito mais confortável no Pacaembu.”

Apesar de tudo, Mandioca, um dos fundadores do Autônomos, um clube de várzea criado por punks e anarquistas, “com ideal autogestionário, antirracista, antifascista e contra o futebol mercadoria”, admite sofrer com conflitos internos. “Sei que é contraditório, mas, quando eu não estiver na rua, quando não houver protesto, pretendo assistir aos jogos. Ainda sou apaixonado por futebol.”

‘I’M NOT GOING’

Quem faz questão de acompanhar a Copa de perto é a cineasta Carla Dauden, 24. Em junho do ano passado, Carla publicou no YouTube um vídeo intitulado “No, I’m Not Going to the World Cup” (assim, em inglês mesmo), estrelado por ela própria.

O filmete de seis minutos elencava motivos pelos quais as pessoas (e a própria Carla) não deveriam vir ao Brasil para assistir à Copa. Publicado em meio à efervescência dos protestos de junho, em dois dias o vídeo alcançou 2 milhões de visualizações. Hoje, ele tem pouco mais de 4 milhões.

Onze meses depois, contudo, Carla desembarcou em São Paulo vinda de Los Angeles, nos EUA, onde morou nos últimos seis anos. “Não vim para ver a Copa, vim para falar dela”, afirma a cineasta, que está filmando um documentário narrando “a história de pessoas comuns afetadas pelo evento”. “A Copa nunca mais vai ser a mesma para os brasileiros”, diz Carla. “As pessoas não vão se esquecer do que acontecerá por aqui.”

ABAIXO, ASSISTA AO VÍDEO “NO, I’M NOT GOING TO THE WORLD CUP”:

 

Comentários

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1 Comentário

  1. Marco disse:

    Glauco, boa tarde.
    Ao que tudo indica você não é cristão, mas adoro seus comentários, e na maioria das vezes concordo com eles pois contem muita lucidez, misericórdia e um tanto de acidez.
    “Tamo junto!”
    Abraço.
    Sou cristão protestante.

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