Será que já podemos rir das religiões na TV?

Tony Goes, no F5

Assim como nas conversas de bom tom, dois assuntos eram proibidos nos humorísticos de antigamente: política e religião.

O primeiro, por razões óbvias. O Brasil vivia sob uma ditadura militar, e ninguém podia criticar o governo em público. A política só reapareceu nos programas de humor na virada dos anos 70 para os 80 do século passado, graças à abertura.

A religião permaneceu um tabu. Ou pelo menos o cristianismo, em suas muitas variantes; crenças minoritárias eram alvos permitidos. Judeus e “macumbeiros” (como ainda eram chamados os seguidores das religiões afro-brasileiras) sempre foram satirizados na TV.

A internet estilhaçou essa proibição implícita. Grupos como o Porta dos Fundos lançaram diversos vídeos tirando sarro de figuras e dogmas religiosos. Tiveram milhões de acessos, mas também enfrentaram processos na Justiça.

Agora esta irreverência chegou à TV aberta. “Tá no Ar” (Globo), a sensação do momento, já mostrou comerciais da Galinha Preta Pintadinha e um clipe de Jesus cantando rap (mas sem distorcer um único de seus ensinamentos).

Semana passada, o programa avançou mais um sinal: exibiu “Crentes”, uma suposta versão evangélica do seriado “Friends”.

No dia seguinte, a internet bem que tentou criar um escândalo. Vários sites e portais publicaram notas do tipo “evangélicos se revoltam com humorístico da Globo”. E postaram os mesmos seis tuítes de fiéis ultrajados.

Vou repetir o número: seis. Meia dúzia. Não duvido que existam mais, assim como o número de ofendidos deve ser maior. Mas o escândalo pretendido pela rede simplesmente não aconteceu.

Talvez porque o quadro exibido no final do “Tá no Ar” de quinta-feira (22) não tenha nada de mais. Não insulta a fé de ninguém nem pega pesado. É preciso ser muito ingênuo (para não dizer burro) para se incomodar com ele.

O curioso é que a imprensa não foi perguntar aos babalorixás se eles estavam furiosos com a Galinha Preta Pintadinha. Afinal, sempre se pôde rir da umbanda e candomblé —eles devem estar mais do que acostumados.

Mas os evangélicos têm fama de esquentados, como se fossem crianças mimadas com quem não se deve brincar. Pois não teve até crente que encontrou mensagem demoníaca em rótulo de maionese?

Só que a mínima reação ao esquete “Crents” mostrou que alguma coisa está mudando. O próprio Marcius Melhem, um dos criadores e protagonistas do “Tá no Ar”, disse ao jornalista Mauricio Stycer que a repercussão negativa ao quadro não é representativa dos evangélicos. E não me parece mesmo que seja.

Será que finalmente estamos maduros o suficiente para rirmos até mesmo da religião? Qualquer religião?

Deus queira.

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