Chico Buarque e a cultura humanista cristã

chicocapaRicardo Gondim

Vários artistas e intelectuais escreveram sobre a vida e obra de Chico Buarque de Holanda nos seus 60 anos de idade. – Chico Buarque do Brasil – Editora Garamond – Edições Biblioteca Nacional. Entre as análises, interessei-me pelo capítulo de Leonardo Boff –  Chico Buarque e a cultura humanista cristã. Transcrevo alguns parágrafos:

O cristianismo é mais que uma confissão religiosa, encarnada em muitas igrejas. É principalmente uma força cultural que desborda das confissões e segue uma via secular, marcando a cultura ocidental, incompreensível sem a seiva cristã que corre por suas veias.

Esta expressão cultural e secular do cristianismo talvez seja a contribuição maior e mais perene que a utopia e o sonho do Nazareno legaram à humanidade.

Seria, entretanto, um erro histórico e pretensão descabida pensar que o cristianismo seja a única fonte modeladora deste humanismo. Presentes nele estão a filosofia e o teatro gregos, o direito e organização político-militar romana, o espírito inovador da Renascença, a liberdade reivindicada pelos formuladores do paradigma da ciência moderna com Galilei, Newton e Copérnico, a tradição emancipatória da Revolução Francesa e a reflexão moderna filosófica, psicanalítica e cosmológica.

A sacralidade e a inviolabilidade de cada pessoa, subjacente a toda luta pelos direitos humanos, têm sua razão derradeira na crença de que todos, por humílimos que sejam, são filhos de Deus. Foi por aí que Gandhi fundava a dignidade dos párias e condenava todo tipo de violência: ‘não se pode fazer isso, com um filho e filha de Deus’.

O fato de sentirmos em nós um desejo infinito que não encontra no mundo nenhum objeto que lhe seja adequado, como tão bem vem insinuado em algumas letras das músicas de Chico (a função do tormento em sua produção), encontra seu fundamento ontológico no falto de que somos seres de transcendência, abertos aos outros, ao mundo, ao Todo e, no termo, ao Grande Outro. Por isso, sentimo-nos um projeto infinito, que nenhuma religião, nenhuma ideologia, nenhuma ciência, nenhum Estado ou configuração social pode realizá-lo adequadamente, permitindo-nos repousar.

Partindo dessa percepção é que o filósofo Immanuel Kant afirmava insistentemente em sua ética que o ser humano é sempre um fim em si mesmo e jamais um meio para qualquer outra coisa. (o grifo é meu).

Terminei o capítulo de Boff impressionado com o reconhecimento de um cristão pela grandeza humana de alguém que não se declara religioso. Lembrei da música Geni e o Zepelin. A letra transborda uma percepção extraordinária da grandeza da prostituta que “dava” para os desvalidos, mas sentiu asco de deitar com o comandante do Zepelin gigante. Apesar de demonizada e apedrejada, Geni era uma linda mulher. É preciso um coração terno para notar as lindas mulheres que perambulam nos arredores da vida. (A música, aqui)

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo – Mudei de idéia
– Quando vi nesta cidade
– Tanto horror e iniquidade
– Resolvi tudo explodir
– Mas posso evitar o drama
– Se aquela formosa dama
– Esta noite me servir
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
– e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni
Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni.

Antes que os guardiões da reta moralidade se organizem para criticar Leonardo Boff ou Chico, preciso mencionar a Raabe bíblica. Os espias que invadiriam Jericó procuraram refúgio (eufemismo) na casa de luzes vermelhas. Josué pagou? Quanto? Nunca saberemos. Depois, a empreitada de invadir a cidade dependeu da lealdade de Raabe. Algo aconteceu. A estória sugere que um dos valentes foi para a cama com ela, que se amaram tanto que depois se casaram.

Jesus advertiu: as Genis e as Raabes entrarão no Reino antes dos religiosos. Me irmano ao frei Leonardo Boff, e sem medo também digo: Chico, sua sensibilidade humana me toca mais do que muitas afirmações da religiosidade institucional.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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