Obra de Tracey Emin tem valor recorde de R$ 10 milhões em leilão da Christie’s em Londres

Instalação, que se consiste em uma cama desfeita rodeada por objetos, levantou discussão sobre o que deveria ser arte

publicado no O Globo

A instalação “My bed” (1998), da artista Tracey Emin, foi vendida na noite de terça-feira pelo valor recorde de 2,54 milhões milhões de libras (cerca de R$ 10,1 milhões) na Christie’s de Londres.

O valor, o mais alto já atingido por uma peça da artista no mundo, é mais do que o dobro do teto esperado pela casa de leilões, que estimava algo entre 800 mil e 1,2 milhão de libras.

Considerada um dos trabalhos mais emblemáticos da cipro-britânica de 51 anos, a obra nada mais é do que é cama desfeita, com lençóis amarfanhados e manchados, roupas íntimas, guimbas de cigarro, garrafas de vodca vazias, aspirinas e preservativos usados e não usados.

Trata-se de um de autorretrato — que a própria artista admite não ser o que o espectador quer ver — a partir de objetos pessoais. Emin garante terem significado importante para ela até hoje, 16 anos depois. É uma espécie de resumo do período difícil por que teria passado depois de uma desilusão amorosa, como já explicou algumas vezes.

Logo que veio a público pela primeira vez na Tate Modern, em 1999, e chegou a ser cotada para o prêmio de Turner, o mais importante do Reino Unido e um dos mais expressivos mundo, a peça de Emin gerou polêmica ao levantar a discussão sobre o que de fato deveria ser considerado arte na cena atual.

Segundo Francis Outred, chefe do departamento europeu de arte do pós-guerra e contemporânea da Christie’s, “My Bed” mostra a habilidade da artista de integrar o seu trabalho com a vida pessoal com espectadores.

— Tracey Emin compartilha conosco seu espaço mais pessoal, revelando um momento sombrio da sua história de vida com uma honestidade impressionante e emoção crua — diz o especialista.

O resultado do leilão agrada o antigo dono da peça, o magnata da publicidade Charles Saatchi, que adquiriu a instalação em 2002 por 150 mil libras (aproximadamente R$ 600 mil) e a própria artista, que, embora não receba nada pela obra com a qual apareceu recentemente em fotografias para divulgar o leilão, acompanha a manutenção da valorização do seu trabalho. Os recursos, segundo já adiantou o ex-proprietário, vão financiar a política de entradas gratuitas do público na galeria Saatchi, em Londres.

Desde o início, a Christie’s já apostava no grande interesse pela peça de Emin, sobretudo depois do sucesso recente de leilões de nomes como Jenny Saville e Gary Hume, da chamada geração “Sensação” — como ficaram conhecidos os Jovens Artistas Britânicos (YBA, na sigla inglês) reunidos em uma exposição de arte contemporânea com obras da coleção de Saatchi, realizada pela primeira vez de 18 de setembro a 28 de dezembro de 1997 na Royal Academy of Art, em Londres, antes de sair em turnê para Berlim e Nova York.

O penúltimo trabalho de Emin vendido pela casa de leilões já havia batido um recorde em outubro do ano passado: “To meet my past” (2002), outra cama, mas arrumada e com lençóis bordados, que saiu por R$ 1,9 milhão. A peça, que também pertencia à coleção do milionário, fazia parte de um lote de R$ 12,4 milhões, cuja venda seria revertida para financiar a galeria.

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