Jogo que satiriza pastores bate recorde de financiamento coletivo

Marcelo Del Debbio, da editora Daemon, criador do "Pequenas igrejas, grande negócios" (foto: Raquel Cunha/Folhapress)

Marcelo Del Debbio, da editora Daemon, criador do “Pequenas igrejas, grande negócios” (foto: Raquel Cunha/Folhapress)

Felipe Maia, na Folha de S.Paulo

O jogo de RPG Pequenas Igrejas, Grandes Negócios, que faz uma forte crítica a pastores evangélicos, bateu o recorde de arrecadação de recursos por “crowdfunding” (“vaquinhas” coletivas pela internet) para um produto em uma plataforma brasileira.

O game, no qual “ganha quem sobreviver com a reputação menos manchada no dia do arrebatamento”, arrecadou R$ 92,7 mil por meio da ferramenta de financiamento Catarse, a maior do país. O produto foi criado pela editora Daemon.

O segundo da lista, com R$ 62,1 mil, é um projeto do coletivo de design Zerezes para criação de óculos produzidos com restos de madeira.

No game, que vai custar cerca de R$ 60 mil para ser fabricado, jogadores assumem o papel de líderes religiosos em uma “disputa para ver quem consegue ficar mais rico e destruir a reputação dos outros pastores mais rápido”.

Para derrotar os rivais, é preciso jogar cartas em que eles são acusados de desvios de dinheiro ou de vender produtos como um óleo que restaura a virgindade.

Segundo Marcelo Del Debbio, 39, diretor da empresa, essas informações foram tiradas de notícias reais.

Ele afirma que o objetivo do jogo não é criticar a religião em si, mas, sim, líderes que usam a fé das pessoas para enriquecer. “No jogo também tem pai de santo picareta e rabino picareta”, diz.

A Daemon foi fundada em 1998 e lançou cerca de 40 jogos –o principal deles é um voltado para crianças, chamado RPG Quest, que pode ser usado para ensino de matemática. Foram vendidas mais de 60 mil unidades.

O empresário diz que o jogo sobre as igrejas não será vendido em bancas e lojas de brinquedos, como acontece com outros produtos da editora, em razão da polêmica. A tiragem, de 2.000 exemplares, será entregue aos apoiadores do projeto no Catarse e vendida também pela web.

Felipe Caruso, coordenador de comunicação da plataforma de financiamento, diz que a empresa não avalia a qualidade artística de um projeto. “A gente analisa se ele faz sentido, se não há algum crime e se o valor proposto é adequado.”

Ele atribui o sucesso da campanha à boa articulação da comunidade de games e à estratégia de divulgação adotada pela Daemon.

Debbio transformou a própria arrecadação em um jogo: ele estabeleceu metas em dinheiro e, à medida que elas eram atingidas, o game ia ganhando mais cartas ou mais recursos –quem apoiou o projeto primeiro incentivava a entrada de novos financiadores para receber mais itens do produto.

Davi Charles Gomes, 37, reverendo da Igreja Presbiteriana e chanceler da Universidade Mackenzie, diz que o jogo “faz pensar” e que sente “uma ponta de vergonha” pelo modo como pastores são retratados no produto.

“Eu não fico acanhado e não me sinto atacado porque não me reconheço nele”, conta. “A verdadeira religião não é isso.”

dica do Sidnei Carvalho de Sousa

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