Quem é o meu inimigo

Aqueles a quem você trata mal são os inimigos que você é chamado a amar.

odio

Daniel Oudshoorn, no  Gospel Fragments [via A Bacia das Almas]

Certa vez, quando comia com os fariseus e publicanos, um dos anciãos sentado no lugar de honra à direita do anfitrião começou a perguntar a Jesus sobre as frases atribuídas a ele.

– Rabi – disse o ancião, – você nos disse para amar o próximo e nos disse quem é o nosso próximo. Ouvi dizer que você também disse para amarmos os nossos inimigos e orar pelos que nos perseguem, mas você não foi tão claro a respeito de quem são os nossos inimigos. Diga-me, rabi, quem é o meu inimigo, para que eu o ame? Quem é aquele que me persegue, para que eu ore por ele?

Em resposta à pergunta Jesus contou a seguinte história:

– Um certo homem, cuja esposa faleceu, foi deixado sozinho para criar uma única filha. A fim de criá-la e protegê-la, educá-la e economizar dinheiro para o seu dote, esse homem trabalhava longas horas fazendo trabalho exaustivo para um mestre ingrato. Ele porém sempre saudava o seu mestre com respeito, sorria e assentia e ria das piadas dele. Levantava-se quando o mestre se levantava e só sentava quando ele o convidava a fazê-lo. Nunca reclamava quando era espancado, não interrompia e agradecia sempre ao mestre pelo salário e pela oportunidade de trabalhar para ele. Certas vezes, quando o mestre lhe batia no ombro ou lhe dava um cumprimento de mão depois de um trabalho bem feito, ele expressava um deleite particularmente grande. O trabalho, no entanto, era árduo, e o homem com frequência chegava em casa cansado e aborrecido. Se sua filha não tinha preparado o jantar ele perdia a paciência com ela. Se suas roupas de trabalho não estavam bem levadas e dobradas no lugar certo na manhã seguinte, ele gritava com ela. Certas vezes, quando estava particularmente cansado ou aborrecido, ou tinha sido espancado pelo mestre, ele batia na filha. Foi assim por um determinado tempo até que o homem teve um acidente no trabalho. Ficou incapacitado de executar suas tarefas mas esperava que, depois de anos de serviço, o mestre se sentisse inclinado a lhe dar uma outra função. Infelizmente não foi assim, e o mestre o mandou embora. Sem poder achar emprego, o homem teve de recorrer à mendicância. O pouco dinheiro que conseguia mendigando com a filha – ela agora o acompanhava nisso – não bastava para que sobrevivessem. Com muitas lágrimas, o homem fez o que muitos outros fizeram antes e depois dele: vendeu a menina como escrava, e aquela foi a última vez que ele viu sua única filha.

Houve um grave silêncio à mesa quando Jesus terminou a história. Ele então perguntou:

– Digam-me: quem era o inimigo daquele homem?

Sem hesitar, o ancião que havia dado início à conversa respondeu:

– Certamente o mestre rigoroso é o inimigo! Certamente é a ele que o homem é convidado a amar!

– Ah, cego e insensato! – Jesus respondeu. – Não é de admirar que você esteja sentado a esta mesa no lugar em que está. O mestre rigoroso não é o inimigo daquele homem. Você não vê que o homem tratava sempre o mestre como amigo, que era sempre respeitoso na sua presença e mostrava sempre deleite na sua companhia? Não: o homem tratava o mestre como amigo e portanto seu amigo ele era, não importa como o tratava o mestre. O verdadeiro inimigo – aquele que o homem tratava como inimigo – era a filha. Era com ela que ele perdia a paciência, com ela que ele gritava; era nela que ele batia e foi ela que ele por fim vendeu como escrava, não importando seus sentimentos por ela. Aqueles a quem você trata mal são os inimigos que você é chamado a amar em palavras e atos, pois amor é mais fazer do que sentir. O mestre, no entanto, era aquele que perseguia o homem. Não digo que você deva obrigatoriamente amar uma pessoa dessas – ele já não foi tratado como amigo até mesmo por quem explorava? – mas pode valer à pena orar por ela. Quem sabe meu Pai que está nos céus ouvirá as suas orações e fará dele um bom mestre em vez de um mestre cruel; se isso se mostrar muito difícil, meu Pai que está nos céus ouvirá as suas orações e o fará cair morto.

– O seu inimigo não é quem maltrata você, mas quem você trata mal. Portanto eu lhes digo: não tratem mal a ninguém. Quanto aos que os perseguem, deixe-os nas mãos de Deus. Roma está oprimindo vocês – Roma que vocês tratam como amiga – e vocês oprimem o povo – a quem vocês tratam como inimigos embora sejam carne da sua carne e sangue do seu sangue. Vocês não podem parar Roma, mas Roma será parada. Se vocês mesmos serão ou não parados naquela ocasião depende de se vocês cessarão ou não de fazer violência contra os que estão abaixo de vocês. Se vocês não aprenderem a amar ativamente os seus inimigos, quando o juízo sobrevir a Roma aqueles que vocês trataram como inimigos podem decidir aceitar o título e levantar-se contra vocês. Eles cantarão canções de liberdade enquanto transformam arados em espadas; vocês serão ceifados como a sega, e nenhum de vocês será poupado.

Quando Jesus terminou de falar, muitos dos que estavam reunidos à mesa entenderam que era hora de levar a sério a ideia de uma conspiração para matá-lo.

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