Inventor do Bina luta por patente e quer ser pastor de igreja

Publicado na Folha de S. Paulo

Aos 74 anos, o técnico Nélio Nicolai, famoso por ter inventado o identificador de chamadas de telefones, o Bina, diz que já depositou 44 pedidos de patente e luta há 16 anos na Justiça contra empresas de telefonia pelo direito de exploração comercial da tecnologia.

Hoje, trabalha com estudantes de 17 anos para desenvolver um aplicativo de tradução simultânea e diz que sonha em ser pastor.

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Depoimento:

Você sabe o que significa Bina, em hebraico? Significa sabedoria, inteligência.

Todo mundo acha que tenho um laboratório em casa, mas na verdade eu tenho um computador e olhe lá.

Montei o primeiro modelo industrial do [identificador de chamadas] Bina junto com dois colegas. Eu tinha muitos vizinhos bombeiros, que reclamavam dos trotes no 193.

Participei no começo dos anos 1980 de uma feira internacional e, quando a imprensa viu o Bina, fiquei famoso.

Registrei a primeira patente do Bina em 1980. Com o tempo entendi o que realmente é uma invenção. Eu achava que estava quebrando um galho, que era o tal do “jeitinho brasileiro”.

Depois de me formar na Escola Técnica de Minas Gerais, em 1967, fui trabalhar na Cemig como eletrotécnico. Na época em que surgiu o Bina, eu já estava na Telebrasília [hoje absorvida pela Oi].

Fui desenvolvendo uma capacidade de criar, mas não sabia que estava criando. Na época, o Brasil implantava muitas centrais telefônicas. Muitas vezes faltava equipamento, mas, mesmo assim, eu dava um jeito de
testá-las.

Quando surgiu o Bina, comecei a ser afastado do meu trabalho na Telebrasília, até ser demitido em 1984.

O pessoal da Telebrás e do Ministério das Comunicações dizia que países desenvolvidos jamais permitiriam o Bina porque seria uma quebra da privacidade das pessoas.

A partir de 1997, o celular começou a ficar popular no Brasil, graças à implantação do identificador nos aparelhos.

Naquele ano, assinei três contratos: um com a Ericsson, fabricante de centrais telefônicas; com a Telest [divisão da extinta Telebrás, hoje Oi], pela exploração do serviço que vem na conta telefônica; e com a Intelbras,
que fabricava o aparelho.

Nenhuma das três me pagou. [Procuradas, Ericsson e Oi afirmaram que não se pronunciariam sobre o caso.]

No ano seguinte, entrei na Justiça contra a Americel [hoje controlada pela Claro].

Em 2001, saiu a sentença e ela foi condenada a me pagar R$ 550 milhões. Em 2012 fiz um acordo com a Claro. [Ele não diz o quanto recebeu e a empresa não quis comentar.]

Estava sendo despejado da casa onde morava de aluguel, pois vendi tudo que tinha para manter o processo.

Contra a Intelbras, estou na Justiça desde 2000. [A empresa afirmou não ter nada a declarar, tendo em vista liminar de 2003 que suspendeu o efeito da patente do Bina.]

Hoje, trabalho com estudantes em um aplicativo de tradução simultânea no celular. A ideia é que, em uma ligação entre um japonês e um brasileiro, um entenderá o que o outro está falando.

Meu sonho é ser pastor, mas não consigo gravar o nome das pessoas. Até comecei um curso na igreja que frequento. Um dia vou ser.

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