Vamos organizar o Deus de Rubem Alves

04-Rubem-AlvesRicardo Alexandre, no R7

Com a morte de Rubem Alves, aos 80 anos no último sábado (19/07), começará oficialmente o veloz processo de avaliação, reavaliação e organização de seu pensamento. É um crime, por um lado. Vivo, o pedagogo, escritor, teólogo, poeta e psicanalista permitia-se o direito à dúvida, as incertezas, ao paradoxal. Agora morto, será estudado até que dele não sobre mais do que as certezas sobre o que pensou, o que pretendeu. E quem sabe?

É um crime, mas é inevitável também. Seu pensamento sobre espiritualidade, por exemplo (talvez o campo mais intangível de todas as suas ocupações), foi um dos mais avessos à sistematização. Mas agora virão os que dele beberam e tentarão domesticá-lo, porque dele são/somos devedores, porque esperam/esperamos que dele se sirvam as futuras gerações.

Bem, serei o primeiro desses criminosos.

Rubem Alves foi um pastor progressista no interior de Minas Gerais nos anos 1950. Foi pastorear “gente pobre e simples” com a cabeça cheia de Albert Schweitzer, Miguel de Unamuno e Kierkegaard. Nos eventos que se seguiram ao golpe militar, acabou denunciado pela própria Igreja Presbiteriana como subversivo, e exilou-se nos Estados Unidos onde trabalhou em seu mestrado A Theology of Human Hope, que é considerado uma das pedras fundamentais do que viria a ser chamado de teologia da libertação.

Quando, pressionado, decidiu romper com a igreja e abandonar o ofício pastoral, tornou-se crítico ferrenho da religião institucionalizada e do chamado “protestantismo de reta doutrina”. Sua “Carta aberta aos companheiros da antiga Igreja Presbiteriana” e seu livro Protestantismo e repressão, mesmo que urdidos em mágoa, foram plantados nos anos 1970 e brotaram, primeiro no ambiente acadêmico onde nasceram (Alves foi professor de filosofia na Unicamp até se aposentar), depois em jovens estudantes de teologia que começaram a pensar o cristianismo para um mundo pós-moderno, menos ingênuo e mais urbano, com instituições em cheque, verdades sub judice, dezenas de tons de cinza entre o branco e o preto. A influência desse pensamento heterodoxo dentro da teologia ortodoxa talvez seja um dos maiores e mais improváveis legados de Alves. Sua morte foi chorada por católicos (“um dos grandes”, disse o padre Fábio de Melo), por pentecostais (“seu legado me acompanhará por toda a vida”, tuitou Ricardo Gondim), por batistas, presbiterianos e afins.

“Toda certeza provoca inquisições”, disse a Geneton Moraes Neto na bela entrevista da GloboNews, reprisada neste último fim de semana. “Por isso corro das certezas. Prefiro as perguntas”. Vivo, Geneton passou a vida fugindo das respostas. Morto, pode ver finalmente fechar as feridas que a religião lhe causou e ver surgir uma teologia na qual as dúvidas não são parte do problema da falta de fé, mas componente essencial no alumbramento do homem diante do Divino. Como descreveu poeticamente em seu livro O infinito na palma de sua mão:

Somos assim. Sonhamos o vôo, mas tememos as alturas.

Para voar, é preciso amar o vazio. Porque o vôo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso, trocam o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram. É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que se as portas da gaiola estivessem abertas eles voariam. A verdade é o oposto. Os homens preferem as gaiolas ao vôo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão suas vidas.

Deus nos dá a nostalgia pelo vôo. As religiões constroem gaiolas. Quando o vôo se transforma em gaiolas, isso é idolatria.

Rubem Alves sofreu por querer ser um “místico” em meio aos “funcionários das instituições religiosas”. Quarenta anos depois, já há pastores mais interessados nas perguntas do que nas certezas. Crentes de que, como ele escreveu, “um mar que se compreende não passa de um aquário”. Gente em comunidades totalmente ortodoxas buscando construir “uma igreja para quem não gosta de igrejas, e para gente de quem a igreja não costuma gostar”, ou propondo uma teologia “menos proselitista e mais dialógica”, “menos dogmática e mais mística”. Agradeça a Rubem Alves, mesmo duvidando se ele gostaria de carregar tais méritos.

A dúvida é parte da beleza, afinal.

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