Maioria das pessoas tem dificuldade de ficar a sós com seus pensamentos, diz estudo

O gerente Mateus Escudero, 33, não gosta de ficar sozinho e não lembra qual foi a ultima vez que ficou completamente sozinho em seu apartamento. Fabio Braga/Folhapress

O gerente Mateus Escudero, 33, não gosta de ficar sozinho e não lembra qual foi a ultima vez que ficou completamente sozinho em seu apartamento. Fabio Braga/Folhapress

Juliana Vines, na Folha de S.Paulo

Você prefere ficar sozinho, sem nada para fazer, ou levar pequenos choques? A pergunta pode parecer absurda, mas, de acordo com uma pesquisa publicada neste mês na revista científica “Science”, muita gente prefere levar choques a enfrentar alguns minutos a sós com os próprios pensamentos.

O resultado do estudo, que envolveu 220 voluntários em 11 testes, surpreendeu até seu coordenador, o psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia (EUA).

“Antes do estudo, pensei que éramos capazes de usar nossos cérebros para gerar pensamentos agradáveis, recuperar lembranças felizes. Mas não foi assim”, disse ele à Folha.

Quando desafiadas a ficar de seis a 15 minutos sem companhia (nem mesmo do celular), 57% das pessoas afirmaram ter dificuldades para se concentrar, 89% disseram que a mente vagou e 49% não gostaram da experiência. Em outro teste, 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram levar choques a ficar sós.

“Parece que há uma dificuldade para se distrair com a própria mente. Suspeito que a popularização da tecnologia e dos smartphones é ao mesmo tempo um sintoma e uma causa dessa dificuldade. Hoje temos menos oportunidade para refletir e desfrutar dos nossos pensamentos”, complementa Wilson.

O gerente Mateus Escudero, 33, não gosta de ficar sozinho e não lembra qual foi a ultima vez que ficou completamente sozinho em seu apartamento
O gerente Mateus Escudero, 33, não gosta de ficar sozinho e não lembra qual foi a ultima vez que ficou completamente sozinho em seu apartamento

Para Mateus Escudero, 33, gerente no mercado financeiro, oportunidade não falta, mas vontade sim.

“Moro sozinho, mas não gosto de ficar só. Chego em casa e já ligo a televisão para ter um barulho, então pego o celular e procuro alguém para conversar”, diz.

De acordo com a psicóloga Lívia Godinho Nery Gomes, professora da Universidade Federal de Sergipe, a onipresença da tecnologia soma-se a outro fenômeno, que também ajuda a deixar os momentos reflexivos mais raros: a necessidade de estar sempre disponível.

“Há um apelo muito grande para estar em rede, compartilhar. Quem está de fora sente que está perdendo alguma coisa.”

SEM PENSAR

Para o psicólogo Roberto Novaes de Sá, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), a tecnologia pode até criar mais obstáculos para quem quer ficar só com os próprios pensamentos, mas o fato é que isso nunca foi fácil para a maioria das pessoas.

“Nossa noção de realidade, de estabilidade e segurança é construída socialmente, através das relações com os outros e das ocupações. Quando não estamos inseridos em alguma atividade há um sentimento de não realização, fragilidade e angústia”, afirma.

Segundo a pesquisa, esse sentimento parece afetar mais os homens do que as mulheres, o que não surpreende o sociólogo português José Machado Pais, autor de “Nos Rastos da Solidão” (sem edição no Brasil).

“Homens gostam menos de ficar sós e tendem mais à solidão. As mulheres são mais comunicativas, muitas delas não têm dificuldades em falar ‘sozinhas’. A solidão surge quando não há capacidade de comunicação com os outros ou consigo. O estar só não significa estar em solidão se você está de bem consigo mesmo.”

Mateus concorda que os homens têm mais dificuldades para lidar com a solidão. “Eu já cheguei a ficar mais de três anos em um relacionamento que não era bom porque pensava: ‘Se for para ficar sozinho, melhor ir levando'”, afirma.

A última vez que ele ficou sozinho de verdade, até sem a companhia da TV, foi durante uma noite de insônia. “Tentei não fazer nada, mas comecei a pensar em problemas e piorou. Só consegui dormir quando liguei um filme”, conta.

Não gostar do rumo dos pensamentos é uma das hipóteses levantadas pelos autores do estudo para explicar seus achados.

“É como se a mente nos dominasse e fôssemos absorvidos pelas ideias”, diz a neurocientista Elisa Kozasa, pesquisadora do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein. Para ela, a reflexão só é benéfica para a saúde mental se tiver um método e um objetivo, como na meditação.

Já para a psicóloga Luci Helena Baraldo Mansur, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, tentar ficar só sem se sentir sozinho é fundamental.

“O tempo do silêncio e da quietude é um tempo que conduz à criatividade e não a esse vazio tão temido. É quando podemos ouvir nossa voz interior”, afirma.

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