Os profetas do gangsta gospel

Pastor Ton em sua igreja: “Eu danço em cima do sangue de Jesus” (foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

Pastor Ton em sua igreja: “Eu danço em cima do sangue de Jesus” (foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

Anna Virginia Balloussier, no Religiosamente

Em comum, eles cantam sobre a “vida loka” da periferia, com roupas “de mano”, em meio a carrões “da hora”. E fazem isso em nome de Deus.

Pastor Ton, Marcio Moreira e Paulo “Profeta” Deivid são expoentes do gangsta gospel.

Esse estilo musical une pregação evangélica a um gênero particular do rap, com batida agressiva e letras sem rodeios sobre drogas (“bagulho mesmo”), criminalidade (“a chapa esquenta”) e violência policial (“os gambé embaça”).

O gangsta –derivativo de gângster– conta a vida como ela é. E ela nem sempre era bonita de onde vieram pioneiros americanos do gangsta, como Snoop Doggy Dogg e Tupac Shakur (morto há 18 anos, com quatro tiros em Las Vegas).

“Sempre sonhei em fazer clipe que nem os gringo”, diz Pastor Ton, 36, autor de músicas como “Serial Killa” e “121” (número do homicídio no Código Penal).

Ele curte carrões “lowrider”, aqueles que andam quase arrastando no chão e quicam feito bola de basquete, bem comuns entre gangues de mexicanos nos Estados Unidos.

“Assim como os carros deles pulam na presença da [Nossa Senhora de] Guadalupe, quero que aqui pulem aos pés do meu Deus”, diz.

No vídeo de “É Us Crent’s”, que ele mesmo dirigiu, canta com cara de mau ao lado de um Chevrolet Impala 1962, cor azul.

Na vida real, Ton tem um Gol 1999 e duas lojinhas de salgado. O dízimo que recebe, segundo Ton, mal paga o aluguel de R$ 600 do galpão em Guaianases, zona leste de São Paulo.

É lá que funciona a Comunidade Profética Descendentes de Davi, que lidera ao lado da mulher, a ex-prostituta e hoje pastora Angela de Jesus. Com 35 cadeiras de plástico branco e um orelhão grafitado com o nome “JESUS” do lado de fora, a igreja funciona ao lado de uma boca de fumo.

Quando canta coisas como “no meio da Babilônia o demônio impera com um fuzil em punho” ou “a fumaça encobre o rosto de Lúcifer”, Pastor Ton tem um objetivo claro: “Converter a cultura gangsta aos pés do Senhor”.

“O gansgta diz o que tá rolando, mas não mostra saída. O gangsta gospel fala, ‘ó, tá rolando isso’, mas tem uma saída. Deus.”

Nos anos 1990, a chamada “linguagem das ruas” ganhou força nos Estados Unidos e uma “versão brasileira, Herbert Richers”, encabeçado pelos Racionais MC’s.

Quando Pastor Ton começou, na banda Criminal Base, não era pastor nem Ton: atendia por Everton Santos, um rapper que se amarrava no som de Mano Brown e andava pra lá e pra cá com um revólver calibre 32, escondido na mala dos vinis (“enferrujado, se atirasse só dava tétano”).

“Até que Deus pediu para que eu trocasse minhas roupas”, diz.

MUDANÇA DE HÁBITO

Certa madrugada, após curtir todas num bailão, esperava um ônibus que nunca chegava. Para passar o tempo, refugiou-se numa Assembleia de Deus. Gostou do que viu e decidiu ficar.

“De repente, eu tava de cabelo curto, sem brinco, sem roupas largas, todo de social.”

Everton saiu “do mundão”. O mundão, contudo, não saiu dele. Se passava um carro tocando Racionais, “a lágrima escorria” de tanta saudade. Aos poucos, foi percebendo que sua “maneira de pregar o Evangelho era gangsta”. E que ele podia usar isso a seu favor.

Os jovens em particular o escutavam: taí um pastor que falava a língua deles. “Entro em lugares que a música dos caras de terno e gravata não vai entrar.”

Hoje Pastor Ton afinou o discurso e folgou as roupas. Usa uma blusa bege três vezes maior do que seu número, como tantos manos da periferia, “porque na cadeia não tem essa de tamanho de roupa”.

Nos pés: All-Star preto. Na cabeça: o boné dos Los Angeles Kings, um time de hóquei. Completam o visual óculos escuros (faz sol), relógio dourado (comprou no Brás) e luva de ciclista (acha estilo).

Quando o veem, alguns “crentes engravatados” até torcem o nariz. Mas, em geral, conta que evangélicos de todas as idades costumam entrar na onda.

Pastor Ton estica os braços até a altura do peito: “As mais tradicionais de coque dão um pulo deste tamanho”.

Paulo Deivid e Marcio Moreira, em Francisco Morato, na Grande SP (foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

Paulo Deivid e Marcio Moreira, em Francisco Morato, na Grande SP (foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

Marcio Moreira também acha que deu um salto na vida.

Na juventude, vendia drogas como crack e cocaína para a molecada. Uma tentativa de superar o irmão mais velho, Mauricio. “Quis crescer pior do que ele.”

Mauricio, traficante, morreu esfaqueado numa emboscada com 48 presos de uma facção rival, durante uma rebelião numa penitenciária de Sorocaba (SP). Era “Superman” do caçula. “Aquele ladrão que onde chegava era representado. Quando chegava, o pessoal já fazia churrasco para ele”, diz.

Depois da tragédia familiar, Marcio entrou de cabeça na “vida bandida”. Num dia de tempestade, quis entrar de cabeça no asfalto. Viu um carro passando e, de saco cheio de tudo, decidiu se jogar na frente dele. “Aí escutei Deus falar comigo. ‘Não se joga, Marcio, vai para a igreja’.”

Ele foi. No mesmo dia, perdeu na chuva o dinheiro do aluguel. Depois, uma moça ligou dizendo que achou a carteira.

Marcio viu um sinal. “Deus já tá começando, por mais que eu seja um pecador…”

Hoje, ele é pastor e faz gangsta gospel com a mulher e o filho, no grupo Terceiro Dia. “Jesus foi crucificado, ressuscitou no terceiro dia. Morre o velho homem, nasce a nova criatura.”

No clipe de “Amor em Extinção”, o trio discorre sobre como o amor está acabando no “mundão”. Cenas da família se intercalam à de palhaços assustadores –imagens tiradas de filmes de terror do “Cine Trash”, programa que o personagem Zé do Caixão apresentava na Band. “É o próprio demônio dando risada da humanidade”, Marcio explica a simbologia.

Outros símbolos ele carrega no corpo: tatuagens da época em que ainda não era convertido, como um escorpião, um dragão e um ícone da gangue que ele fazia parte, a Mais 1 Tranqueira (“a gente rivalizava com a Operação Maloca”).

Marcio carrega a cruz no pescoço: um crucifixo sobreposto à camisa social cinza, que combina com uma bermuda militar, meião branco quase até o joelho e All-Star preto.

Ele conversa com amigo Deivid, da Profetas da Z/O (de Zona Oeste, onde começou a carreira), sobre um festival cristão que ambos vão participar, o Louvorzão –também escalados, o Grupo de Pagode Resgate e a Pura Unção.

Estamos na casa/estúdio/futura igreja de Marcio, em Francisco Morato (Grande SP): um cômodo com teto de telha onde coexistem fogão, geladeira, mesa de som, cama de casal e armário amarronzado tipo Casas Bahia (na porta, adesivos de galinhas e dos dizeres “Glória a Deus”, em amarelo berrante).

Deivid passa sempre lá para discutirem o “movimento”.

“No passado eram os profetas da Bíblia. Hoje nós, servos de Deus, somos constituídos perante a Bíblia como profetas”, diz o rapper de Carapicuíba (Grande SP), de jeans e blusa branca extralargos e lenço lilás no pescoço.

Deivid alisa o cavanhaque e discursa: que estilo não é documento. “As pessoas mais tortas e mais erradas, que mais roubam no país, não andam dessa forma, andam muito bem vestidas”.

No Facebook, ele “dá like” na série de TV “Breaking Bad”, “Chaves” e “The Big Bang Theory”. Como literatura, curte uma única opção: a Bíblia. As escrituras, para ele, deixam claro: “Quem não vem pelo amor, vem pela dor”.

Foi um adolescente “loucão, que chapava de bebida”, acostumado a crescer numa vizinhança onde os tiros às vezes eram tantos que pareciam milho em panela de pressão.

Convertido, caiu a ficha. “Nosso foco é resgatar os mano da rua como a gente foi resgatado”. Uma batalha e tanto pela frente, ele crê. “Deivid contra Golias.”

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