A internet é lugar para segredos?

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Por Altieres Rohr, no G1

Existe uma percepção de que é possível jogar algo “na rede”, aproveitando-se do suposto anonimato da internet sem, entretanto, perder o controle sobre aquilo que foi publicado. Diferentemente de escrever um papel e jogar na rua, a internet permite acompanhar as reações de quem leu – e isso torna a internet mais interessante e construtiva para essa finalidade.

Escrever por escrever não adianta. É preciso do público.

É aí que entra a mágica do aplicativo Secret, cuja intenção é permitir a divulgação de “segredos” de forma anônima e que foi proibido pela Justiça brasileira. Quem quer publicar algo no Secret ou em qualquer outro lugar de forma “anônima” não está divulgando um segredo de graça; espera poder acompanhar as reações. No mais nobre dos casos, talvez espera que as pessoas deem mais atenção para um sofrimento até então silenciado – um pedido por empatia.

É algo curioso, mas parece que não faz sentido. Sabemos que as pessoas têm desejos ou sentimentos ocultos; o que interessa no Secret é que alguém decidiu revelá-los, dando a eles um “corpo”. Mas, ao mesmo tempo, o Secret é – a princípio – anônimo, incorpóreo. Não há razão para ser real.

É um paradoxo: os “segredos anônimos” são interessantes porque dão forma ao que é oculto, mas não existe forma para o anonimato – ele esvazia tudo. O Secret pode muito bem ser um imenso e coletivo trabalho de ficção.

A força do Secret está na sua fraqueza. O Secret é social em sua própria concepção e, por isso, não é verdadeiramente anônimo. O site de humor brasileiro “Não Salvo” mostrou como descobrir as publicações de uma pessoa no Secret com uma técnica que foi apresentada também por dois pesquisadores à revista de tecnologia “Wired”. Esse “risco” de se perder o anonimato é que dá substância a um ambiente onde não deveria haver nenhuma.

O truque para descobrir as postagens de uma pessoa não se trata de uma falha de segurança, mas sim de explorar a própria ideia por trás do Secret – de mostrar “segredos” de contatos. Eliminar esse problema depende de uma alteração profunda na maneira que o Secret exibe seus segredos, tirando a exclusividade do círculo social. E isso deixaria o app muito menos interessante.

A web tem sim espaços verdadeiramente anônimos ou, pelo menos, muito mais anônimos do que o Secret. Alguns chegam a ter audiências consideráveis. Mas eles não têm substância e, por isso, são repletos de trotes, mentiras e todo tipo de lixo digital – inclusive de pessoas fingindo que possuem problemas só para atrair a atenção (e a pena) de outros visitantes. Curiosamente, alguns desses espaços são muito mais antigos e não tiveram problemas com a Justiça brasileira.

O Secret conseguiu um equilíbrio: quem posta pensa que está anônimo, quem lê tem motivos para crer que se trata de alguém falando a verdade – e que esse alguém é próximo. É uma receita que faz todo mundo ficar na linha da falta de entendimento e, por isso, é perigoso. O “perigo”, aliás, é para quem usa – a coluna não está opinando sobre a decisão da Justiça brasileira de proibir o aplicativo.

A internet permite sim que segredos sejam revelados e discutidos com estranhos. Muitas minorias acham espaço na internet para conversar sobre temas e revelar sua intimidade, encontrando um apoio que seria difícil de conseguir com pessoas próximas. Mas ora, se a ideia é não revelar segredos para seus amigos, por que alguém usaria o Secret ou qualquer serviço parecido – cuja ideia, embora velada, é exatamente essa?

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