A força do otimismo

A ciência tem uma boa notícia para quem costuma ver o copo sempre meio cheio: você vai viver mais e melhor do que aquele colega que vive reclamando das coisas. Entenda o porquê

(foto: Corbis Images)

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Milly Lacombe, na Galileu

Imaginemos a seguinte situação: você está saindo para dez dias de sonhadas férias e quando chega ao aeroporto descobre que o voo está quatro horas atrasado porque uma tempestade de neve impede o avião de pousar no destino. Diante desse imprevisto, como você reagiria? Aos estrebuchos porque suas férias já começaram mal ou com a atitude do otimista pensando: “Ruim ficar preso neste aeroporto, mas agora sei que amanhã a neve vai estar ótima para esquiar. Que excelentes dias terei pela frente”. Se você acha que se encaixa na segunda alternativa, a ciência tem boas notícias: você é um sujeito que vai se recuperar melhor de procedimentos cirúrgicos, tem um sistema imunológico mais sólido do que o pessimista do assento ao lado, viverá mais do que ele e apresenta mais chances de vencer um possível câncer.

As conclusões estão no livro Nothing: Surprising Insights Everywhere From Zero to Oblivion (Nada: Sacadas Surpreendentes por Todos os Lados, do Zero ao Esquecimento, numa tradução livre), recém-lançado nos Estados Unidos. Nele, dezenas de ensaios escritos por diversos cientistas de todo o mundo e compilados por Jeremy Webb, editor da consagrada revista norte-americana New Scientist, mostram como funciona a ciência por trás do otimismo.

É sabido que, ao afetar o sistema nervoso por longos períodos, pensamentos negativos e estresse podem causar doenças como diabetes e certos tipos de demência. Mas o que a ciência começa a entender agora é que a crença de que tudo vai dar certo é capaz de ajudar o corpo a se manter saudável. Alguns estudos indicam que o pensamento positivo pode alterar a realidade ao redor. Um deles, feito em 2001, avaliou 1.306 homens e revelou que os mais otimistas tinham metade das chances de desenvolver doenças coronárias. Já em 1988, outra pesquisa analisou 99 alunos de Harvard que se formaram entre 1942 e 1944 e tiveram que preencher, aos 25 anos, um questionário a respeito de seu estilo de vida. Quando médicos examinaram a saúde desses formandos ao longo de 35 anos descobriram que os pessimistas tiveram mais tendência a desenvolver problemas de saúde entre os 45 e 60 anos.

A ciência começa a entender agora que a crença de que tudo vai dar certo (o otimismo) é capaz de ajudar o corpo a se manter saudável e pode alterar a realidade ao seu redor (foto: Corbis Images)

A ciência começa a entender agora que a crença de que tudo vai dar certo (o otimismo) é capaz de ajudar o corpo a se manter saudável e pode alterar a realidade ao seu redor (foto: Corbis Images)

ARMA EVOLUTIVA
O que a ciência tenta agora entender é se o cérebro está, afinal, programado para o otimismo. AjitVarki, biólogo da Universidade da Califórnia, em San Diego, explica que a consciência da morte é tão devastadora que é capaz de paralisar o homem. Portanto, a única forma de conseguirmos antecipar o futuro sem entrar em desespero é sermos irracionalmente otimistas. Em outras palavras: a mortalidade nos obrigou a desenvolver a habilidade de imaginar dias melhores e mais promissores. No cérebro, essa habilidade é, em parte, responsabilidade do hipocampo, a mesma área que é crucial para a memória.

Outras evidências a respeito de como o otimismo é capaz de impactar o funcionamento do corpo são encontradas no estudo dos placebos, preparados inativos usados em pesquisas controladas para determinar a eficácia de substâncias medicinais. Embora a medicina saiba há pelo menos 30 anos que os placebos podem aliviar dores, quanto mais se estuda o fenômeno mais interessante ele se mostra.

Fabrizio Benedetti, médico e pesquisador da Universidade de Torino, descobriu que um conhecido ansiolítico, o diazepam, não reduz a ansiedade em pacientes pós-operados, a menos que eles sejam informados de que serão injetados com a droga. Ou seja, pacientes que receberam a droga, mas não informados de que se trata de ansiolítico, continuam a apresentar os sintomas. “Nunca podemos ter certeza a respeito da real ação de uma droga dentro de um determinado organismo”, diz o médico. “O ato de administrarmos qualquer medicamento ativa um complexo efeito cascata de eventos bioquímicos no cérebro do paciente.”

Algo muito parecido acontece com a morfina. Segundo o livro de Webb, se o médico não diz ao paciente que o remédio será injetado, é preciso aumentar em 12 miligramas a dose para ter o efeito de analgésico. Se o doente é comunicado de que vai receber morfina, doses muito menores são suficientes para aliviar a dor.

Descobriu-se há pouco tempo uma grande quantidade de atividades realizadas pelo cérebro em descanso que eram pouco conhecidas. “Foi como encontrar um novo continente”, diz um pesquisador (foto: Corbis Images)

Descobriu-se há pouco tempo uma grande quantidade de atividades realizadas pelo cérebro em descanso que eram pouco conhecidas. “Foi como encontrar um novo continente”, diz um pesquisador (foto: Corbis Images)

ILUSTRE DESCONHECIDO
Mas como e até onde exatamente a força do pensamento pode agir para curar o corpo? O cérebro, esse órgão que representa 2% de nossa massa corporal e consome 20% de todas as calorias que ingerimos, é ainda um ilustre desconhecido. Apenas recentemente a ciência descobriu que existe uma estrutura que, quando não estamos fazendo nada, como dormir ou observar a grama crescer, se ilumina e trabalha freneticamente. “Há uma quantidade enorme de atividades executadas pelo cérebro em descanso que era até pouco tempo desconhecida”, diz Marcus Raichle, neurocientista da Universidade de Washington. “Não é todos os dias que um novo sistema funcional é descoberto dentro de nosso organismo”, diz Giulio Tononi, neurocientista da Universidade de Wisconsin-Madison. “Foi como descobrir um novo continente.” Em relação ao que precisamente esse novo sistema é capaz de fazer, há ainda mais mistérios do que fatos.

Talvez mais sinistro do que saber que a força do pensamento pode alterar para melhor o efeito de algumas drogas dentro do nosso corpo seja saber que o contrário também é verdadeiro. Num dos textos de Nothing: Surprising Insights EverywhereFrom Zero toOblivion ficamos sabendo de um caso de 1938 registrado nos anais da medicina. Um morador do Alabama chamado Vince Vanders sonhou que um bruxo jogou sobre ele um líquido malcheiroso e decretou que ele morreria logo. No dia seguinte Vanders acordou sentindo-se mal e foi levado ao hospital, onde médicos não conseguiram diagnosticá-lo. Drayton Doherty, um dos médicos de plantão naquele dia, ficou intrigado e depois de conversar com a mulher de Vanders soube do sonho. Doherty então teve uma ideia: reuniu a família de Vanders ao lado de seu leito hospitalar e explicou a eles que havia conseguido se encontrar durante a madrugada com o bruxo maligno e que, depois de travar com ele árdua luta, tirou do malfeitor a informação de como poderia reverter a praga. Pediu então que uma enfermeira entrasse com o antídoto e injetou em sua veia um placebo, garantindo que aquilo iria, finalmente, curá-lo. Minutos depois o paciente começou a vomitar e entrou em sono profundo. Ao acordar já não tinha mais nenhum dos sintomas. Uma semana depois, recebeu alta.

Outra história conhecida é a de Sam Shoeman, um norte-americano que no final dos anos 1970 foi diagnosticado com câncer no fígado e soube que teria apenas alguns meses de vida. De fato, Shoeman morreu pouco tempo depois de receber o diagnóstico, mas chocou os médicos porque durante a necrópsia descobriu-se que o tumor era mínimo e que não havia se espalhado. “Ele não morreu de câncer, mas de achar que estava com câncer”, disse CliftonMeador, médico da VanderbiltSchoolof Medicine, nos Estados Unidos. “Se todos tratarem você como se você estivesse morrendo, você acredita que está.”

O que a medicina sabe é que placebo e nocebo, o seu oposto, não executam milagres, mas podem produzir efeitos mensuráveis sobre o organismo. Portanto, não é exagero dizer que a força do pensamento pode melhorar a saúde. É dado conhecido, por exemplo, que 60% dos pacientes de quimioterapia começam a se sentir mal antes mesmo do início do tratamento. Nesse cenário, o otimista não eliminaria o câncer com a força do pensamento, evidentemente, mas passaria melhor pelo tratamento. “Crenças e expectativas não são apenas fenômenos lógicos, eles também podem ter consequências físicas”, diz Robert Hahn, do US Center for DiseaseControlandPrevention, em Atlanta, e especialista em estudos de nocebos.

O otimista não elimina um câncer com a força do pensamento, é claro, mas ele enfrentaria melhor um tratamento do que o colega que vive reclamando das coisas (foto: Corbis Images)

O otimista não elimina um câncer com a força do pensamento, é claro, mas ele enfrentaria melhor um tratamento do que o colega que vive reclamando das coisas (foto: Corbis Images)

O NOTICIÁRIO COMO VENENO
E enquanto a ciência explica como o efeito placebo/nocebo pode atuar no organismo (diminuem ou aumentam a atividade da dopamina, o hormônio que alivia a dor), já há quem admita que a derradeira causa do efeito não é a neuroquímica, mas sim a crença. Hahn diz que alguns médicos, por exemplo, não gostam de operar pacientes que acreditam que vão morrer durante a operação porque muitos de fato morrem. “Notícias ruins desencadeiam psicologias ruins”, diz Meador, revelando outro aspecto importante da sugestão: a leitura do noticiário.

É conhecimento científico que ler notícias ruins — ou basicamente tudo o que nos é oferecido a fartar diariamente — dispara o sistema límbico liberando altas doses de glicocorticoide, hormônio ligado ao estresse, no organismo. Altos níveis da substância no sangue prejudicam a digestão e aumentam a suscetibilidade a infecções. Psicologicamente, a notícia ruim também tem impacto real: ao tomarmos conhecimento de uma tragédia, passamos a achar que a mesma coisa pode acontecer em nossas vidas e isso altera a realidade ao nosso redor. Se ficamos sabendo que um avião caiu, no dia seguinte, a despeito do fato de as estatísticas não terem sido alteradas, sentimos mais medo de embarcar em uma corriqueira viagem de negócios.

A fim de entender mais sobre como reagimos às notícias ruins, o Facebook se lançou em uma pesquisa eticamente questionável. Entre 11 e 18 de janeiro de 2012, o site manipulou o algoritmo usado para distribuir os posts no feed de notícias. A intenção era a de verificar como o noticiário influi no humor. Os pesquisadores pretendiam checar se o número de palavras positivas ou negativas nas mensagens lidas resultaria em atualizações positivas ou negativas de posts nas redes sociais. No final, descobriu-se que os usuários mudavam o humor de seus próprios posts depois de uma semana. É, portanto, apenas lógico que em ano de eleição, quando todo o tipo de especulação negativa a respeito do futuro parece nos inundar, aumentem os índices de pessimismo na população.

A boa notícia é que, além de ser verdadeiro, o oposto parece ser mais poderoso. Resultados de um estudo conduzido pela cientista e pesquisadora TalySharot alguns anos atrás sugerem que apontar seu pensamento futuro para lugares positivos é resultado da comunicação entre o córtex frontal, localizado atrás da testa, e regiões subcorticais localizadas em partes mais profundas do cérebro. O córtex frontal é a parte do cérebro que evoluiu mais recentemente em humanos. Em matéria publicada na revista Time em 2011, Sharot explica que quando escutamos histórias boas, como a do inesperado sucesso de um garoto como Mark Zuckerberg, nosso cérebro faz uma anotação a respeito de como poderemos também nos tornar incrivelmente ricos um dia. Por outro lado, saber que a chance de nos divorciarmos é estatisticamente uma em cada duas não nos faz acreditar que nosso casamento pode fracassar. Por que exatamente a neurociência do otimismo se manifesta assim?

Atenção: é possível virar um otimista. Atividades como meditação, hipnose e espiritualidade ajudam. Também é bom confiar nas pessoas e criar laços sociais verdadeiros (foto: Getty Images)

Atenção: é possível virar um otimista. Atividades como meditação, hipnose e espiritualidade ajudam. Também é bom confiar nas pessoas e criar laços sociais verdadeiros (foto: Getty Images)

DIAS MELHORES VIRÃO
Recentemente cientistas escanearam o cérebro de pessoas enquanto elas recebiam informações positivas e negativas a respeito do futuro. O resultado explica muita coisa sobre esse otimismo irracional. Ao serem informados sobre eventos futuros, os neurônios são capazes de codificar informações desejáveis, que aumentam o otimismo, mas fracassam na tentativa de incorporar as informações inesperadas e indesejadas, o que indica que o otimismo talvez seja mesmo uma arma evolutiva como sugeriu Varki.

Mas até que ponto ser um incorrigível otimista é bom? No mundo empresarial, por exemplo, a qualidade nem sempre é bem-vista. Reportagem publicada ano passado na revista norte-americana de negócios Forbes revelava que otimistas, ao acreditarem que tudo sempre vai dar certo, são incapazes de se preparar para o pior e, portanto, raramente têm em mãos um plano B. O texto recomendava que se sua empresa estiver passando por mudanças significativas na indústria em que atua, lotar o time com otimistas não seria boa ideia porque eles tenderiam a esperar que os ventos soprassem para o lado desejado, sem traçar um plano para o caso de mudanças dramáticas.

Diante de tantos aspectos positivos, a pergunta que tem que ser feita é: é possível se tornar um otimista? Segundo o livro de Webb, sim. Melhor: quanto mais pessimista for a pessoa, melhores os resultados nessa transformação. David Creswell, da Carnegie MellonUniversity de Pittsburgh, pediu que estudantes que iriam fazer uma prova escrevessem um texto curto a respeito de algum momento em que revelaram qualidades importantes, como criatividade e independência. O objetivo era o de aumentar a auto-estima. Esses estudantes, quando comparados a outros, tiveram níveis menores de adrenalina na urina no momento de realizar a prova. Outros exercícios recomendados por Webb para fazer crescer o otimista em você são a meditação, a hipnose, desenvolver algum tipo de espiritualidade, certa tendência a confiar nas pessoas e não se isolar socialmente.

Feito isso, é possível que você consiga assistir o Brasil levar sete gols da Alemanha em uma semifinal de Copa do Mundo, vocifere alguns palavrões, mas em seguida diga ao camarada que está a seu lado: “Não fique assim. Era preciso uma goleada como essa para que o futebol brasileiro começasse a mudar. Dias melhores virão”. A atitude não basta para mudar nada em nosso futebol, mas é suficiente para que você altere para melhor a realidade ao seu redor e, com ela, a despeito dos vexames do escrete nacional, coisas como seu sistema imunológico, longevidade e chances de ser mais feliz.

EM DEFESA DA MELANCOLIA

Em 2008, uma pequena obra de capa amarela me chamou a atenção numa livraria de Los Angeles, onde passava férias. AgainstHappiness (Contra a Felicidade, em inglês) serve de contraponto às descobertas da ciência em relação ao otimismo. Nele, o professor Eric Wilson pergunta se somos, afinal, obrigados a ser sempre felizes, e quanto isso nos custa. Enquanto reflete sobre a ditadura da felicidade, Wilson faz uma declaração de amor à melancolia, dizendo, entre outras verdades, que a dificuldade era mãe da criatividade e que as coisas são preciosas justamente porque estão morrendo. Ele argumenta contra o medo que temos de sentir e de sofrer, dizendo que apenas a contemplação, a dor e o tédio podem nos fazer evoluir. “Desejar apenas a felicidade num mundo tão trágico é se tornar inautêntico”, escreveu. O livro me ajudou a entender que para vencer a dor é preciso deixá-la penetrar e ficar, como fazemos quando, ao entrar em um quarto muito escuro, teimamos em manter nossos olhos abertos porque sabemos que só assim a escuridão vai, aos poucos, perder a cara feia e ganhar luz.

A IMPORTÂNCIA DE SER SOCIÁVEL

A solidão aumenta o risco de tudo, de ataque cardíaco a demência, passando por depressão e morte precoce, enquanto pessoas satisfeitas com suas vidas sociais dormem melhor, envelhecem mais lentamente e respondem melhor a vacinações. Abrir mão da solidão é tão poderoso quanto parar de fumar. Essas conclusões estão publicadas em Nothing: Surprising Insights Everywherefrom Zero toOblivion e foram feitas por John Cacioppo, pesquisador da Universidade de Chicago, que há muitos anos estuda os efeitos do isolamento social. “Talvez seja a maior descoberta comportamental do mundo”, disse Charles Raison, que estuda interação corpo e mente na Universidade de Emory, em Atlanta, a respeito do estudo de Cacioppo. Em 2011, Cacioppo reportou que o corpo humano evoluiu para, diante da percepção de isolamento social, ativar partes do sistema imunológico envolvidas na cicatrização e na luta contra infecções. E ele explica que estar em grupo favorece a resposta imunológica necessária na luta contra os vírus, que se espalham mais facilmente entre pessoas que estejam em contato. Não estamos falando de amizades virtuais, via Facebook ou Twitter, e sim de interação e troca. Cacioppo diz que muitas vezes ter um ou dois amigos com os quais possamos nos relacionar de forma significativa basta para levar a vida melhor.

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