Fernando Meirelles: “Marina paga o pato, mas PT e PSDB não puniram homofobia”

Meirelles: "Eles [a equipe do programa de governo] erraram e vão ter que absorver o tranco, engolir o choro e seguir"

Meirelles: “Eles [a equipe do programa de governo] erraram e vão ter que absorver o tranco, engolir o choro e seguir”

Luciano Máximo, no Valor Econômico

Leia os principais trechos da entrevista com Fernando Meirelles:

Valor: Você apoiou a Marina em 2010 e está com ela agora também.

Fernando Meirelles: Sim, com mais convicção. Nestes quatro anos, a Marina não parou de se reunir com pessoas de todas as áreas para compreender mais profundamente o país e se preparar para uma possível eleição. Os estudos que dão sustentação às ideias da Marina estão disponíveis no site do Instituto Democracia e Sustentabilidade [IDS].

Valor: O que o motivou a optar por ela nessas duas ocasiões?

Meirelles: A plataforma que mira desenvolvimento sustentável. Leio bastante sobre aquecimento global, crise da água, segurança alimentar, matrizes energéticas, esgotamento dos biomas naturais e dos recursos do planeta. Nada me tira mais o sono do que perceber que estamos numa rota de colisão e ver que a turma continua querendo acelerar e crescer. Marina tem visão de estadista, pensa no país que ficará para os nossos netos. Isso que faz toda a diferença.

Valor: Teve/tem participação efetiva nas campanhas de Marina?

Meirelles: Em 2010 queriam que eu fizesse o programa [de TV], mas eu não quis transformar minha vontade de participar em um trabalho, então ajudei a montar uma equipe de produção e dei uma de palpiteiro sem compromisso. Na campanha atual, como seria feita pelo pessoal do Eduardo, não me envolvi. Mas só participaria mesmo como voluntário.

Valor: As eleições deste ano serão diferentes do pleito de 2010?

Meirelles: Já estão e as chances de Marina vencer são grandes. Em 2010, Dilma era a continuação dos anos dourados que o Brasil viveu graças à China no mercado de commodities. A festa acabou e está cada vez mais claro que investir só em consumo deu errado. Pesquisas mostram que ninguém aguenta mais o velho pensamento político do confronto e da oposição.

Valor: Marina também está diferente de lá para cá? Vê evolução?

Meirelles: Como ela gosta de filosofia e psicologia, costumava ser muito analítica, conceituava cada ideia tornando seu discurso acadêmico e mais difícil. Agora está mais sintética e assertiva. Os quatro anos estudando o Brasil e conversando com gente de Norte a Sul deram-lhe estofo e segurança.

Valor: O que achou da decisão de Marina de se aliar ao PSB?

Meirelles: Calou quem dizia que ela era intransigente e sem cintura para o jogo político. Que outro político no Brasil com um cacife de 20 milhões de votos toparia ser vice numa chapa, só para poder ver algumas ideias que acredita contempladas no programa de governo? O negócio dela é o seu programa e não o poder.

Valor: Gostou do programa de governo de Marina?

Meirelles: Gostei. Pena que ninguém leia o programa. Ele propõe uma grande mudança para o país. São três eixos principais: o primeiro será manter as conquistas dos outros governos, tentando aprimorá-las, sem se importar se quem as inventou pode estar na oposição. Não se desperdiça boas ideias só por não serem de autoria do partido. O segundo é democratizar a democracia, que significa criar instrumentos, incluindo redes sociais, para que as decisões do governo reflitam de fato a vontade dos brasileiros. O terceiro é criar as bases para um desenvolvimento ambientalmente sustentável para podermos ter um país justo, com cidadãos livre e criativos. Diria que o capítulo sobre educação é o que mais me animou. A Marina quer recuperar a qualidade do ensino das escolas públicas, com ciência e cultura como pilares.

Valor: O que achou das mudanças anunciadas momentos depois?

Meirelles: Foi uma tremenda comida de bolas eles terem publicado a versão errada e depois voltado atrás. O fato de ter recuado foi um vacilo. Mas o programa toca em tantos pontos importantes que é uma pena que essa questão, também importante, esteja se tornando o fiel da balança. É tão difícil pegar a Marina no pulo que quando aparece um aluguel de avião ou a troca de “casamento” por “união estável” num documento, a turma aproveita e sai gritando. Faz parte, eles erraram e vão ter que absorver o tranco. Engolir o choro e seguir.

Valor: Marina é mais visada que os outros candidatos na abordagem de certos temas polêmicos, como direitos civis, religião, aborto?

Meirelles: Me parece que sim. Nem PSDB e nem PT criminalizaram a homofobia em seus governos e nem lançaram cartilhas com noções de tolerância em escolas, mas a Marina é quem paga o pato com o eleitor. Tanto a Dilma quanto o Aécio, que não creem, usam o nome de Deus em suas falas. Há duas semanas, na Assembleia de Deus, a Dilma começou seu discurso citando o salmo de Davi. Foi falsa como uma nota de dois dólares. Já a Marina, que crê de fato, paradoxalmente é a única que não usa Deus em seu discurso, mas é a única criticada por isso.

Valor: Como interpreta essa “nova política” que Marina tanto fala?

Meirelles: Parece ser o seu tema central, mas no programa a reforma política que ela propõe é só um instrumento para chegar ao que realmente interessa, que é a construção de um país afinado com os valores e a cultura do milênio em que estamos e não mais com a visão desenvolvimentista do século XX. Ela sabe que governar não é mais abrir estradas nem construir ferrovias. Claro que ferrovias precisam ser construídas e serão, mas um presidente precisa ter visão de país e de futuro, e é isso que ela tem de sobra e é isso que encanta quem a escuta com atenção.

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